Papa Francisco em Abu Dhabi, desta vez a notícia não são os discursos, mas um documento

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07 Fevereiro 2019

Por uma vez o evento mais importante de uma viagem papal não são os discursos do pontífice, mas as folhas de um documento que abre novos horizontes nas relações entre cristãos e muçulmanos. Não foi redigido no estilo de diplomacia internacional, quando se fixam pontos de interesse comum: é mais parecido com a declaração conjunta assinada em Havana em 2016 por Francisco e Kirill em nome da Igreja católica e do Patriarcado de todas as Rússias. O documento de Abu Dhabi sobre a "Irmandade Humana. Para a paz mundial e a convivência comum", assinado em 4 de fevereiro pelo Papa Francisco e Ahmad Al-Tayyeb, Grão-Imã de Al-Azhar, escapa ao comum por sua inspiração e por ser o fruto elaborado por duas milenares tradições religiosas.

A reportagem é de Marco Politi, publicado por Il Fatto Quotidiano, 06-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Desde o início ecoa um timbre que (para a história católica) lembra quase um documento conciliar ou uma encíclica: "A fé leva o crente a ver no outro um irmão a ser apoiado e amado." O Outro é um irmão para amar e a "Sabedoria divina é a origem da qual deriva o direito à liberdade de crença e à liberdade de ser diferentes". É a própria vontade de Deus (e aqui no documento ecoa um sura famoso do Alcorão) que querer o pluralismo e a diversidade de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua. Por essa razão "se condena o fato de obrigar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam".

A firme e repetida condenação do fundamentalismo, do terrorismo, de toda violência e perseguição, causada pela instrumentalização da religião e do nome de Deus, no documento de Francisco e Al-Tayyeb não é uma declaração de emergência, mas o detalhe de uma visão ampla que aborda o papel positivo e propositivo das religiões na época atual. Existe até mesmo um eco explícito do documento conciliar Gaudium et Spes, quando no preâmbulo se fala do compartilhamento das "alegrias, tristezas e os problemas do mundo contemporâneo". Da mesma forma que se sente a marca e a experiência de vida do filósofo e teólogo Al-Tayyeb, que se formou na Sorbonne, em Paris, e na Universidade de Fribourg, na Suíça.

Porque o documento, que pela assinatura do Grão-Imã de Al-Azhar adquire o valor do ponto de referência para centenas de milhões de muçulmanos sunitas, indica valores e exigências fundamentais para dar concretude à "irmandade humana" em um planeta devastado não só por políticas de integralismo e divisão, mas também por "sistemas de lucros excessivos e por tendências ideológicas, que manipulam as ações e os destinos dos homens".

A pequena encíclica de Abu Dhabi é um documento moderno que combina espírito religioso e concretude geopolítica. Fala de paz, fome e direito à vida, fala de ajuda aos pobres, aos aflitos, aos necessitados, aos marginalizados. Fala da injustiça socioeconômica e da urgência de uma distribuição equitativa dos recursos naturais. Fala de liberdade e da cidadania, da necessidade de afirmar o conceito de "cidadania plena" renunciando ao uso discriminatório do termo "minorias". E fala dos direitos das mulheres: à educação, ao trabalho e ao exercício dos direitos políticos. Mas também do direito da mulher de se libertar de "pressões históricas e sociais" contrárias à sua dignidade e ao seu direito de ser protegida da exploração sexual.

No documento podem ser percebidos os vestígios do longo caminho de diálogo com o Islã feito pela Igreja Católica a partir do Concílio e continuado por João Paulo II e Francisco. E, pelo outro lado é visível a marca da elaboração realizada pelas vanguardias mais esclarecidas de pensamento islâmico contemporâneo, a partir também do apelo "A common word / uma palavra comum" dirigido por um grande grupo de teólogos e pensadores muçulmanos para ao Papa Ratzinger e os líderes das Igrejas cristãs após o infeliz discurso de Regensburg feito por Bento XVI. Ao mesmo tempo, um apelo solene para a reconciliação, a tolerância, a fraternidade – estes, valores orientadores do Iluminismo e da tradição democrática ocidental - não pode deixar indiferentes aqueles que têm pontos de vista filosóficos laicos. Redescobrir, como exorta o documento, os "valores da paz, da justiça, da bondade, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum" não diz respeito, aliás, aos herdeiros daqueles que foram chamados de princípios imortais: Liberté, Egalité, Fraternité?

A questão agora é saber o que virá depois. É o mesmo que ocorre com os documentos conciliares. O apelo de Abu Dhabi pode terminar em algum arquivo ou começar a ser difundido nas realidades regionais e locais do mundo católico e muçulmano e da sociedade civil. É o que o documento espera, dirigindo-se aos "intelectuais, filósofos, religiosos, artistas, profissionais da mídia e homens de cultura".

Mas há também uma implicação sobre as políticas internas de vários países. Para ficar no caso da Itália e tocar um problema específico: se o vice primeiro-ministro Salvini - ansioso para pisar no palácio apostólico por razões eleitorais - tem a intenção de conseguir um encontro com o pontífice, terá que avaliar suas ações pelos conteúdos dessa Carta Magna. Evitar seus valores, não está entre as uma possibilidade.

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