Viagem papal aos Emirados Árabes Unidos poderá superar Regensburg?

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04 Fevereiro 2019

O Papa Francisco iniciou nesse domingo, 3 de fevereiro, um período de dois meses dedicado em grande parte ao encontro com o Islã, entre a viagem aos Emirados Árabes Unidos agora e outra ao Marrocos no fim de março. Se Francisco estiver à altura – e não há razão para pensar que ele não estará – será um esforço largamente irênico baseado na premissa da amizade e da cooperação em valores compartilhados.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 03-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma entrevista recente ao Crux, Dom Paul Hinder, vigário apostólico para o sul da Arábia, afirmou que a estratégia de Francisco em relação ao Islã é um sucesso, citando, entre outras coisas, um novo interesse pelo Vaticano dentro do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) composto pelos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã, Catar e Kuwait.

Chamar essa estratégia de “estratégia de Francisco”, no entanto, é um pouco inapropriado, porque, na realidade, o modelo “será que não podemos todos nos dar bem?” de se engajar com outras religiões, incluindo o Islã, remonta a São Paulo VI e ao pós-Concílio Vaticano II (1962-1965). O Vaticano II inaugurou uma nova era de amizade inter-religiosa na Igreja Católica, visando superar os fardos do passado e promover uma agenda humanitária.

Naquelas raras ocasiões em que os papas flertaram com uma abordagem diferente e ousada de se engajar com o Islã, isso não funcionou particularmente bem.

O Papa Emérito Bento XVI, por exemplo, enfrentou uma onda de protestos em 2006 quando citou um imperador bizantino vinculando o Islã à violência em um discurso em Regensburg, na Alemanha. Logo depois, uma freira italiana foi baleada na Somália, igrejas foram bombardeadas na Faixa de Gaza, e um boneco representando o papa foi lançado às chamas na Turquia.

Olhando em volta, no entanto, os limites de uma abordagem inteiramente gentil também parecem claros.

O início do século XXI viu o surgimento tanto de uma forma especialmente virulenta de radicalismo islâmico que indiscutivelmente representa a maior ameaça à segurança global, quanto de um perigo real e presente para as minorias religiosas de todos os tipos onde quer que o Islã se encontre – e isso, em grande parte, inclui o próprio rebanho cristão do papa.

Embora os Emirados Árabes Unidos geralmente sejam vistos como um refúgio de relativa tolerância e calma, mesmo lá o Islã é a religião de Estado, e os cristãos enfrentam várias formas de discriminação, particularmente quando se convertem do Islã.

Por que as lideranças católicas, até e inclusive o papa, muitas vezes parecem incapazes ou não querem dizer essas coisas em voz alta?

Uma boa parte da razão é histórica. O relacionamento inter-religioso com que o Vaticano II estava mais preocupado era com o judaísmo, compreensivelmente, já que fazia apenas 20 anos do Holocausto. O ponto de partida para ir ao encontro dos judeus foi um exame de consciência do lado católico, reconhecendo as várias maneiras pelas quais a feia história do antissemitismo cristão ajudou a pavimentar o caminho até a Shoá.

Os católicos naturalmente eram relutantes em apontar falhas, pontos cegos e fracassos no lado judaico, pois tudo, francamente, parecia empalidecer diante daquilo que o povo judeu havia sofrido. Com o lema “nunca mais!” como palavra de ordem, assumir o judaísmo como pedra de toque era uma receita para um conceito de diálogo inter-religioso que enfatizava a minimização de áreas de conflito em prol de um bem muito maior.

Hoje, no entanto, há um forte argumento de que o Islã substituiu – ou, pelo menos, deveria substituir – o judaísmo como o relacionamento paradigmático inter-religioso da Igreja.

Parte disso envolve números brutos – os 2,2 bilhões de cristãos e o 1,6 bilhão de muçulmanos do mundo juntos somam mais da metade da população humana, de modo que a maneira pela qual essas duas tradições se relacionem inevitavelmente será um grande elemento impulsionador da história. Parte disso também é o fato evidente de que a luta de hoje pela alma do Islã é de enorme relevância estratégica e política.

O desafio dos papas é repensar a estrutura, a psicologia e o linguajar do diálogo inter-religioso com o Islã como um ponto de partida. Isso provavelmente significa uma abordagem que mantenha o melhor do modelo pós-Vaticano II, mas que também seja um pouco menos tímido, um pouco mais inclinado a resistir e um pouco mais disposto a desafiar excessos e distorções do outro lado – de algum modo, em outras palavras, algo entre Regensburg e o lema “será que não podemos todos nos dar bem?”.

Entre outras coisas, tal abordagem equilibrada poderia implicar que, embora o papa continue construindo pontes, como Francisco pretende fazer nos Emirados Árabes Unidos, ao parar na Grande Mesquita do Xeique Zayed e ao se reunir com o Conselho Mundial de Anciãos Muçulmanos, ele também usará as plataformas que tais encontros oferecem para lançar alguns desafios bastante contundentes – acima de tudo, em relação à liberdade religiosa e, mais amplamente, à necessidade de repensar a cidadania e o estado de direito nas sociedades islâmicas, já que elas também pertencem a não muçulmanos.

Em uma abordagem de “terceira via”, tais desafios não seriam enquadrados em termos de generalidades amplas que não permitem que ninguém se sinta especificamente provocado. Os papas dariam nomes e ofereceriam detalhes, sem acrimônia, mas também sem ambiguidade.

Não está claro se os próximos dois meses, que revelarão a primeira viagem papal à Península Arábica e um retorno papal ao Marrocos (visitado por São João Paulo II em 1985), será a ocasião em que Francisco lançará tal terceira via.

Mais cedo ou mais tarde, no entanto, por razões tanto históricas quanto humanitárias, é quase certo que algum papa o fará – e, então, o verdadeiro diálogo católico-muçulmano começará.

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