Conflito no Iêmen complica próxima viagem do papa a Abu Dhabi

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30 Janeiro 2019

Papa Francisco está prestes a se tornar o primeiro papa a visitar a península arábica.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada em National Catholic Reporter, 29-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Francisco está prestes a se tornar o primeiro papa a visitar a península arábica com uma viagem aos Emirados Árabes Unidos em fevereiro, mas alguns especialistas em Oriente Médio estão desejando que ele reconsidere a viagem.

Eles apontam para o papel dos Emirados na coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen, que a ONU disse que pode ter cometido crimes de guerra em seus esforços para apoiar o governo de Abdrabbuh Mansur Hadi contra o movimento armado Houthi.

Emile Nakhleh, ex-diretor fundador do Programa de Análise Estratégica do Islã Político da CIA, disse isso sem rodeios: “Simplesmente não é um bom ponto de vista que o papa visite os Emirados Árabes Unidos quando eles ainda estão envolvidos em todos os tipos de atrocidades humanitárias no Iêmen”.

“Eu não sei como Sua Santidade pode justificar isso”, disse Nakhleh, atual coordenador dos Programas de Segurança Nacional da Universidade do Novo México.

Outros esperam, no entanto, que Francisco use a sua visita de 3 a 5 de fevereiro à capital dos Emirados, Abu Dhabi, para pressionar seus líderes políticos a mudarem suas políticas no Iêmen.

O Pe. Paul Lansu, assessor político sênior do grupo global católico Pax Christi International, disse que, ao ser convidado para fazer a viagem pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed, o papa enfrentou um dilema: “Você vem ou não?”.

“Em ambos os cenários, é um risco”, disse Lansu. “Se você não for, você os deixará continuar fazendo o que estão fazendo. Se você for, você tem a oportunidade de conversar com eles.”

“Espero que o papa (...) possa convencer a liderança dos Emirados a encontrar outra política em relação ao Iêmen, porque é um desastre o que eles estão fazendo agora junto com os sauditas”, afirmou.

Francisco terá a oportunidade de fazer isso no segundo dia de sua visita, quando ele deverá se reunir em particular com o príncipe, que assumiu a maior parte das funções executivas de seu país depois que seu pai, o presidente Khalifa bin Zayed, sofreu um derrame em 2014.

Lansu sugeriu que o papa precisará ser “muito firme” com o príncipe, “criticando os Emirados ao desempenharem um papel de estímulo ao conflito, em vez de representarem a dimensão da diplomacia”.

O padre jesuíta Jan Peters, estudioso do islamismo e ex-presidente do Instituto Holandês para o Oriente Médio, elogiou Francisco por ter aproveitado a oportunidade.

“Para o papa, para alguém em sua posição, o seu papel é falar com pessoas que ele espera convencer a tomar outra posição”, disse Peters, que também é membro do Conselho de Curadores da Universidade Islâmica de Rotterdam.

“Eu acho que o mais importante é que ele está tentando convencer a liderança em Abu Dhabi a convencer seus parceiros no Iêmen (...) a participarem realmente a sério nas negociações de paz”, disse, referindo-se aos recentes esforços internacionais para que representantes de ambos os lados da guerra no Iêmen discutam o término do conflito.

Os combates no Iêmen começaram em 2014, quando o movimento Houthi assumiu o controle da capital de Sana’a.

Um relatório da ONU de agosto de 2018 alegou que a coalizão saudita-emiradense matou milhares de civis em ataques aéreos, torturou prisioneiros de guerra e usou crianças-soldados em ações que podem constituir crimes de guerra de acordo com a lei internacional.

O relatório também criticou a exibição de navios por parte da coalizão que entram na principal cidade portuária de Hodeidah, que, segundo o texto, tem “um efeito inibidor sobre o fornecimento comercial naval de combustível e alimentos necessários para evitar a fome”.

Os dois lados concordaram em dezembro com um cessar-fogo em torno do porto, mas ambos agora se acusam de violar o acordo, e organizações internacionais expressaram preocupação de que ele seja desfeito em breve.

Lise Grande, coordenadora humanitária da ONU no Iêmen, disse a repórteres reunidos em Berlim, em 16 de janeiro, para negociações internacionais para acabar com a guerra, que mais de 10 milhões de pessoas no país estão em risco de morrer de fome.

A visita de Francisco aos Emirados será sua 27ª viagem ao exterior desde sua eleição em 2013 e ocorrerá apenas cinco dias após a visita de 23 a 28 de janeiro ao Panamá para a celebração trienal da Jornada Mundial da Juventude.

Ao contrário de cada uma das 26 visitas anteriores do papa, a agenda para a viagem aos Emirados é incomum, pois não inclui uma oportunidade para o papa abordar publicamente os líderes políticos do país, mas apenas a reunião privada com Bin Zayed.

De fato, Francisco deve falar publicamente apenas duas vezes durante a visita de três dias: durante um encontro inter-religioso na noite de 4 de fevereiro e durante uma missa para a pequena comunidade católica do país na manhã de 5 de fevereiro.

Nakhleh disse que acha que o papa precisa usar uma dessas duas oportunidades para falar abertamente sobre o papel dos Emirados no Iêmen.

“Se ele não levantar essa questão, o papa perderia muita credibilidade no Oriente Médio”, disse, sugerindo que o papa poderia usar a sua homilia durante a missa para fazer isso.

“O sermão tem que ser sobre a tragédia humana”, afirmou. “E, se não tocar nisso honestamente, além de trivialidades, então perderá seu significado.”

O Vaticano disse que o encontro inter-religioso onde Francisco participará em Abu Dhabi se centrará na “fraternidade humana”, mas ainda não forneceu mais detalhes. O papa deve se reunir, de antemão, em particular, com o Conselho Muçulmano de Anciãos, uma organização de estudiosos islâmicos sediada nos Emirados Árabes Unidos fundada em 2014.

Peters disse esperar que Francisco use o encontro inter-religioso para mencionar uma iniciativa de 2006 de estudiosos muçulmanos para responder ao discurso de seu antecessor, Bento XVI, em Regensburg, Alemanha, naquele ano, que citou um comentário polêmico sobre o Alcorão de um imperador bizantino do século XIV.

Depois que o discurso de Bento XVI provocou protestos de rua em vários países islâmicos, 38 estudiosos e líderes muçulmanos divulgaram um documento intitulado "A Common Word" [Uma palavra comum] em outubro de 2016 para detalhar os ensinamentos da sua fé. Um ano depois, 138 estudiosos e líderes assinaram uma versão ampliada.

“Espero que ele mencione o documento”, disse Peters. “Seria ótimo se ele fizesse isso, porque é uma espécie de reconhecimento para esses líderes muçulmanos que tomaram a iniciativa de iniciar um novo diálogo com os cristãos.”

“Eu acho que pode ser muito importante também para as relações entre muçulmanos e cristãos”, afirmou.

A viagem aos Emirados será a sétima de Francisco a um país de maioria muçulmana. Sua próxima visita agendada é em março, para o Marrocos, outro país de maioria muçulmana.

Nakhleh disse desejar que o papa só fizesse a última viagem.

“Eu queria que fosse apenas uma viagem”, disse, “porque, se houver algum dano ou inação proveniente da sua visita aos Emirados Árabes Unidos, a visita ao Marrocos será vista como uma conciliação.”

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