O manifesto antissoberanista do Papa Francisco

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19 Dezembro 2018

Mensagem sobre a boa política "a serviço da paz". Corrupção e xenofobia "vergonhas da política”, estigmatiza quem atribui aos migrantes a origem de todos os males.

Uma mensagem breve, quatro páginas. Mas muito densas. Com 7 pontos. Com um título que já diz tudo: "A boa política está a serviço da paz".

A reportagem é de Marie Antoinette Calabrò, publicada por Huffington Post, 18-12-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O tradicional discurso do Papa para o Dia 1º de janeiro - evento estabelecido por Paulo VI e celebrado pela primeira vez em 1968 – aborda o concreto da vida dos povos e das nações, porque fala de política, de políticos e escolhas políticas. Com um olho inclusive nas próximas eleições, que para os europeus serão as do próximo maio, com a renovação do Europarlamento de Estrasburgo.

Quase um "Manifesto antissoberanista", um documento "contra a divisão", que apela para a esperança do bem comum e para a imagem de "casa" e que no livreto preparado pela editora do Vaticano é ilustrado pela figura de Justiça, segurando nas mãos uma espada e uma balança.

A mensagem constituirá, certamente, um instrumento de reflexão também para os laicos católicos italianos, chamado recentemente pelo presidente da CEI, o cardeal Gualtiero Bassetti, para sair da irrelevância pública em que afundaram. "Cada renovação dos mandatos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública – pode ser lido na mensagem de Francisco – constitui uma oportunidade para retornar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. De uma coisa temos certeza: uma boa política está a serviço da paz, respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, de modo que entre as gerações presentes e aquelas futuras se teça um vínculo de confiança e gratidão".

Mas Francisco examina, no ponto 4, inclusive os "vícios" da política: da corrupção à xenofobia.

“A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.

No ponto 5 Bergoglio acrescenta: "Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa". E, novamente, o Papa estigmatiza aqueles que jogam sobre os mais vulneráveis, os migrantes a origem de todos os males.

Alguém clamará pela interferência política de Francisco. Mas o Papa tem muito cuidado em lembrar o ensinamento de seus antecessores: João XXIII, Paulo VI e Bento XVI (a quem é dedicado todo o capítulo 3), junto com as palavras do cardeal vietnamita Nguyen Van Thuan, que passou 13 anos na prisão em seu país, dos quais 9 em isolamento, e foi definida por João Paulo II como testemunha heroica da sua fé, de quem Francisco apresenta em sua Mensagem as oito "bem-aventuranças do político."

Ninguém, portanto, poderá rotular o documento para o Dia Mundial da Paz como "comunista" ou gerador de divisão.

"Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo", explicou o Papa. “Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: ‘Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós’ (Lc 10, 5-6). E esse é o desejo de Francisco no início do novo ano: "A paz esteja nesta esta casa." "E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz. A ‘casa’, de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa ‘casa comum’: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude".

O desafio de uma boa política

A Paz, de acordo com Francisco, parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy; é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição. ‘Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos’ (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, ‘tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade’.

Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.

Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz, lembrava o Papa Bento XVI - continua a mensagem - que "todo cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na polis. [...] Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. [...] A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana”. Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.

A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro

A Mensagem continua com um olhar para os jovens, para o futuro. "Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa ‘fio-me de ti e creio contigo’ na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo”.

Para o Papa Francisco, cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. "A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais”.

Não à guerra nem à estratégia do medo

Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.

O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.

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