Um salto qualitativo nas tormentas. Artigo de Raúl Zibechi

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24 Novembro 2018

“Estamos ingressando em um momento no qual a tormenta se torna o cotidiano, agravada por uma nova conjuntura política em que os Trump e os Bolsonaro fazem parte do novo panorama”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 23-11-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Estamos entrando em uma nova normalidade. As coisas não são como eram há 10 anos. As frases não pertencem a nenhum intelectual, mas, sim, a alguém realmente importante: o chefe de bombeiros de um condado da Califórnia. Integram a reportagem do jornalista hispano-estadunidense Gustavo Arellano sobre os mais recentes e devastadores incêndios, que podem servir como introdução ao mundo caótico em que estamos ingressando.

Os bombeiros mais experimentados desse estado afirmam que nunca tinham visto algo igual. Na pequena cidade de Paradise arderam 10.000 edifícios, houve cerca de 1.000 desaparecidos e os mortos se aproximam de uma centena. Especialistas afirmam que já não há temporada de incêndios, como havia até agora, porque acontecem ao longo de todo o ano.

À mudança climática se soma a desastrosa urbanização de áreas rurais. Cem milhões de árvores mortas na Califórnia, em apenas quatro anos de seca (2011-2015), ao que se soma a brutal especulação imobiliária que urbanizou zonas rurais, uma impressionante colonização do campo.

Podemos imaginar o que seria se os furacões e os tsunamis deixassem de ser algo excepcional ou temporal para se tornar uma nova normalidade? Acrescente-se que a maioria das grandes cidades do sul do mundo não tem mais água potável e seus habitantes precisam comprá-la, quando podem, para não adoecer. Os 20 milhões de habitantes de Deli vivem 10 anos menos pela poluição do ar, 11 vezes superior ao permitido pela Organização Mundial da Saúde.

Estamos ingressando em um momento no qual a tormenta se torna o cotidiano, agravada por uma nova conjuntura política em que os Trump e os Bolsonaro fazem parte do novo panorama. Até o medíocre presidente francês Emmanuel Macron declarou que o mundo se verá condenado ao caos, caso a decadente União Europeia não encontrar um rumo próprio.

Se é certo, como disse o filósofo brasileiro Marcos Nobre, que Bolsonaro foi o candidato do colapso e precisa do colapso para se manter, devemos refletir sobre este argumento. No meu modo de ver, tanto o novo conservadorismo (fascismo dizem alguns) como o progressismo são o fruto amargo do colapso e têm um amplo futuro pela frente. Como resultou evidente no Brasil, Lula e Bolsonaro são complementares e cada um poderia chegar a conclusões similares em seu próprio país. Acredito ser necessário refletir sobre o que entendemos por colapso, a quem afetará e como poderíamos sair do mesmo.

Em primeiro lugar, deixar claro que o colapso em curso é uma criação dos de cima, a classe dominante ou o 1% mais rico, para superar uma situação de extrema debilidade por falta de legitimidade em relação ao restante da humanidade. O colapso é uma política de cima para controlar e disciplinar os de baixo e, eventualmente, contê-los nos campos de concentração reais, sem arames farpados, mas rodeados por campos de glifosato, monoculturas, megaobras e minerações a céu aberto.

Rejeito com veemência a ideia de que o colapso seja um processo natural ou da natureza, e insisto em seu caráter de projeto político para reduzir a população do planeta para estabilizar a dominação. Este plano se exterioriza também nos fenômenos naturais, mas seu ponto de partida é a classe dominante.

A segunda questão é que afeta principalmente os setores populares, povos originários, africanos libertados da escravidão, famílias rurais e das periferias urbanas. As e os de baixo sobramos neste mundo de acumulação por roubo, porque, como já disse, somos o maior obstáculo para converter a natureza em mercadorias.

Os de cima nos atacam, mas não por razões ideológicas, por racismo ou machismo feminicida, mas, sim, utilizam estes instrumentos de dominação e controle para azeitar seu enriquecimento ilegítimo e, muitas vezes, ilegal. Tornaram-se violentos para acumular.

A terceira é que não tem maior importância se estes processos se produzem sob governos conservadores ou progressistas, já que não podem controlar a acumulação por roubo, o que não os torna inocentes por certo. O progressismo sul-americano se afundou mais pela violência e a corrupção que as grandes obras geraram, que pelas ações da direita.

Como destaca o jornalista de esquerda Leonardo Sakamoto, a aberração em construir uma hidrelétrica como a de Belo Monte (em plena Amazônia), com sua inevitável sequela de violência contra as populações indígenas, trabalho escravo e tráfico de pessoas, foi o fruto da arrogância desenvolvimentista do lulismo. As megaobras não são erros, mas, ao contrário, o miolo do progressismo.

Por último, esta nova realidade inutiliza nossas velhas estratégias e nos força a construir arcas (ou como se queira chamar os espaços de autonomia e autodefesa) que precisamos para não naufragar e morrer na tormenta.

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