Sínodo. Auditora com formação jesuíta: a justiça para os migrantes é uma questão pessoal

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18 Outubro 2018

“A Igreja deve prestar apoio aos jovens em centros de detenção, nas fronteiras e em todos os lugares onde sua segurança e união familiar estão ameaçadas”, disse Yadira Vieyra ao Sínodo dos Bispos, no dia 11 de outubro.

A reportagem é de Luke Hansen, S.J., publicada por America, 12-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Falando ainda sobre jovens imigrantes que vivem nos Estados Unidos, Vieyra criticou duramente a “retórica e políticas odiosas” que testemunhou, e descreveu o “sofrimento constante” vivenciado pelos migrantes - o que afeta a maneira como “eles rezam e permanecem esperançosos”.

Para mostrar que a Igreja valoriza a vida dos jovens, Vieyra disse que é preciso desenvolver “formas inovadoras de ministrar a essa comunidade vulnerável. É preciso também dizer às pessoas que Jesus Cristo segue apoiando os oprimidos e desafiando os opressores”.

O Papa Francisco nomeou Vieyra, de 29 anos, como auditora do sínodo que acontece de 3 a 28 de outubro, em Roma, para discutir o tema “jovens, fé e discernimento vocacional”. O sínodo inclui 267 membros votantes que são em sua maioria cardeais e bispos, 50 auditores - sendo 25 homens e a outra metade mulheres -, além de outros delegados e colaboradores.

De acordo com a auditora, o compromisso com a justiça para os migrantes é uma questão pessoal. Vieyra nasceu no México e cresceu no bairro de Pilsen, em Chicago. Em uma entrevista à revista America, pouco antes de entregar seu discurso no sínodo, Vieyra descreveu como as políticas de imigração afetaram diretamente sua família e sua comunidade.

Alguns anos atrás, durante o jantar na véspera de Natal, sua família soube que sua tia havia sido detida. A notícia foi tão chocante para sua mãe, que precisou confirmar com ela o que a mensagem de texto realmente afirmava: "Isso é real", explicou Vieyra.

“Minha tia é um exemplo de alguém disposto a arriscar tudo para estar com a família. Neste momento, estamos em um ambiente muito hostil”, acrescentou.

Sua mãe e seu avô não se viam desde que sua família se mudou para os Estados Unidos há 25 anos, mas se reunirão no final deste mês. Vieyra estará em Roma quando isso acontecer, mas disse que ficará muito feliz.

“Deus trabalha de maneira misteriosa”, disse a auditora, expressando gratidão em poder representar a comunidade de imigrantes no Sínodo dos Bispos. "Eu tenho que falar sobre essa realidade”, disse Vieyra.

Vieyra é formada pela Escola Secundária Jesuíta de Cristo Rey, pela Universidade Georgetown e pelo Instituto Erikson, em Chicago. Atualmente trabalha como especialista em pesquisa no campo do desenvolvimento infantil na Universidade de Chicago e colabora com a Paróquia Imaculada Conceição, em Brighton Park, através do Fortaleciendo Familiar, onde ajuda a levar terapia cognitivo-comportamental de baixa intensidade e apoio psicossocial às famílias imigrantes mexicanas que estão vivendo sua angústia, ansiedade e depressão devido à violência na comunidade, desafios financeiros e preocupações relacionadas à migração.

"Na minha comunidade, os jovens são ativos nesta causa. É importante para a Igreja comunicar que suas vidas são relevantes e preciosas, e que esses jovens podem fazer um trabalho como católicos ao invés de serem “ativistas políticos” fora da Igreja. A Igreja precisa afirmar que apoia o povo contra à violência armada, brutalidade policial e imigração”, disse Vieyra.

Na entrevista, Vieyra descreveu vários encontros emocionantes com o Papa Francisco durante seu tempo em Roma.

Segundo a auditora, já no segundo dia do Sínodo 2018, Francisco disse a um grupo de auditores:

“Se houver algo com o qual você concorde, fique à vontade para se expor. Está tudo bem. Fique à vontade para aplaudir. Está dentro do protocolo. Mas lembre-se também de que, se alguém disser algo com o qual você não concorde, escute respeitosamente”.

Em um momento do Sínodo, o Papa ouviu atentamente cada orador, disse ela. “Ele também fez suas próprias intervenções sobre as coisas que o tocam e que o faz pensar. Isso é um sinal de que ele está muito presente. Ele está ouvindo e conduzindo isso de maneira muito responsável”.

Ela explicou que os jovens aplaudiram em diversas ocasiões “quando um dos cardeais ou bispos diziam alguma coisa que seja fiel à nossa realidade, ao que realmente estamos vivenciando”.

Um exemplo poderoso, disse ela, foi quando o arcebispo Anthony Fisher, OP, de Sydney, Austrália, usou seu discurso de quatro minutos no dia 4 de outubro para se desculpar formalmente aos jovens pelo “fracasso de muitos bispos” e as pelas várias maneiras em que a Igreja decepcionou os jovens.

O fato do arcebispo usar seu único pronunciamento formal para pedir desculpas aos jovens em nome de toda a Igreja, “me levou às lágrimas”, explicou ela.

"A juventude aplaudiu, porque é preciso muita humildade para reconhecer um fracasso", ressaltou.

Vieyra disse que não concordou com tudo o que os bispos compartilharam.

"O papel das mulheres na Igreja pode estar sendo negligenciado. Quando um líder da Igreja tenta minar o poder espiritual que as irmãs da Igreja trazem é desanimador”, disse a auditora.

Ela descreveu uma irmã em Chicago que simboliza perfeitamente como elas deveriam ser: “Ela demonstra muita paz e alegria para a comunidade e à Deus. Eu digo ao meu marido: quero ser parecida com ela. Então, ouvir que alguns membros do sínodo sentem que somente os sacerdotes podem trazer orientação espiritual para nossa juventude, desqualifica nossas irmãs”.

Vieyra, que estudou teologia e psicologia na Universidade de Georgetown, disse que questões de gênero e sexualidade estão sendo “amplamente discutidas” em seu pequeno grupo. "Foi polêmico e turbulento", afirmou ela.

"Muitas pessoas presentes concordam que precisamos ministrar aos nossos jovens hoje, ainda mais se eles se identificam com a comunidade L.G.B.T., ou estão sendo criados em uma lar com pais do mesmo sexo”, disse a auditora.

“Eu me sinto muito apaixonada por isso, porque se Jesus estivesse aqui agora ficaria envergonhado, sabendo que estamos afastando nossos irmãos e irmãs”, acrescentou.

Perguntada sobre como se dá a presença de Deus no Sínodo 2018, ela falou da mudança que percebeu entre os bispos. De acordo com Vieyra, muitos bispos estavam “mais moderados” em torno dos jovens. Ultimamente as interações são “mais tranquilas” e os bispos estão mostrando mais interesse nas visões dos jovens e em sua experiência no sínodo.

"Acredito que Deus está agindo em seus corações", disse ela.

“Por já terem sido jovens devem ser capazes de se conectar conosco sem ter medo de que não possamos mais levá-los a sério", ressaltou a auditora.

Na quarta-feira, Vieyra entregou pessoalmente uma carta ao Papa Francisco em nome de uma menina de 10 anos de Chicago. Ela trabalhou como babá da menina e de seu irmão mais novo há seis anos e é muito próxima da família. A menina perguntou a Francisco como poderia entender melhor os mistérios do Rosário e da família. Também incluiu uma foto da menina para que o Papa pudesse vincular a carta ao seu rosto.

"O Papa Francisco ficou tão feliz quando recebeu a carta", disse ela.

“Ver essa alegria em algo tão pequeno é exatamente o que nossos jovens precisam. A interação é muito importante. Sua resposta genuína e alegre será um lembrete de que Deus a ama muito”, afirmou Vieyra.

“Eu imagino uma Igreja alegre, viva e entusiasmada em comunicar o Evangelho e explicar quem era Jesus. Ele amava as pessoas profundamente", disse a auditora.

“A freira da minha paróquia está sempre feliz e sorridente. As pessoas adoram trabalhar com ela porque ela é uma líder gentil, objetiva e amorosa. Precisamos de uma Igreja como essa, com padres que estejam felizes em compartilhar o Evangelho. Eles simplesmente não podem esperar para fazê-lo, e sim correr para o púlpito e compartilhar as boas novas”, acrescentou.

Em seu discurso no Sínodo 2018, Vieyra invocou o legado de Oscar Romero, que será canonizado em 14 de outubro, e convocou a Igreja a se espelhar em sua coragem. Romero nos lembra que “o verdadeiro lar da Igreja não é onde ela está confortável e limpa, mas sim com aqueles afligidos por instituições que ameaçam a vida humana”, disse ela.

“Precisamos de uma Igreja que cuide de todos e que esteja presente nas dificuldades enfrentadas pelo povo de Deus. Nenhum de nós, incluindo nossos jovens imigrantes, deve ser esquecido”, concluiu a auditora.

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