Opus Dei 90 anos. “Perdão pelas nossas faltas e pecados”, pede Vigário geral

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04 Outubro 2018

“Perdão pelas nossas faltas e pecados”. Um pedido incomum para um momento de celebração. Ao completar os 90 anos da fundação da Opus Dei, o padre Fernando Ocáriz quis reconhecer as deficiências dos membros da Obra, sobretudo com aquelas pessoas que não receberam nela “a generosidade e o carinho de que necessitavam”. Mas, ao mesmo tempo, manifestou gratidão pelos milhares de pessoas que, nos cinco continentes e graças ao caminho da prelazia, “desejam apaixonar-se por Cristo e ser almas de oração no mundo”.

A entrevista é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada por Vatican Insider, 02-10-2018. A tradução é de André Langer.

Terceiro sucessor de São Josemaría Escrivá de Balaguer, nascido na França de uma família espanhola exilada durante a Guerra Civil (1936-1939), conduz os destinos da Opus Dei desde 23 de janeiro de 2017. Nesta entrevista, concedida ao Vatican Insider no contexto do aniversário de fundação, Ocáriz fala sobre os desafios da prelazia, aborda questões da conjuntura eclesial e, comentando o apelo do Papa a todos os fiéis do mundo para rezar pela unidade da Igreja e contra os ataques do diabo, deixa claro: “Tudo o que é contrário à unidade não vem de Deus, mas do inimigo”.

Eis a entrevista.

Qual é o “estado de saúde” da Opus Dei, ao completar estes 90 anos?

Dou graças a Deus por todos os católicos que, com a graça de Deus, respondem livremente, todos os dias, à vocação cristã. E entre eles, homens e mulheres da Opus Dei, ou que participam dos apostolados que a Obra realiza. As viagens pastorais que fiz neste verão para a Nigéria, Argentina, Bolívia e Paraguai também me levaram a essa consideração agradecida, ao ver tantos jovens e idosos que querem se apaixonar por Cristo e ser almas de oração no mundo; ao contemplar tantas realidades de serviço que deram frutos graças à mensagem de São Josemaría: escolas, ambulatórios médicos, universidades, etc.

A isso também devemos acrescentar as limitações de cada um; os obstáculos objetivos ou subjetivos que encontramos; a dificuldade, por exemplo, de realizar um trabalho de evangelização em climas e ambientes complexos, às vezes de verdadeira perseguição para os cristãos. Um aniversário é um bom momento para dar graças a Deus e, ao mesmo tempo, pedir perdão pelas nossas faltas e pecados. Penso, por exemplo, em pessoas que estiveram em contato com os trabalhos da Opus Dei e que não conseguimos atender com a generosidade e o carinho de que precisavam. O 90º aniversário nos leva a dizer a Deus, como costumava fazer o beato Álvaro del Portillo: “Obrigado, perdão, ajuda-me mais”.

Como é dirigir a Opus Dei em tempos do Papa Francisco?

São Josemaría costumava repetir em latim: 'Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam'. Isto é, “todos, com Pedro, a Jesus por Maria”. A união com Pedro, em cada época, é caminho necessário para os católicos. Agora o Papa convida todos a se colocarem em saída, evitando conformismos que retardam o dinamismo evangelizador de que o mundo precisa. O Santo Padre disse-me que queria que a Opus Dei divulgasse a mensagem do Evangelho nessa periferia que é, atualmente, a classe média da sociedade, naqueles ambientes onde, às vezes, Deus não tem mais espaço e cresce a pobreza de valores e ideais.

Nesse sentido, é urgente levar mais a alegria do Evangelho à família e aos jovens; áreas de evangelização que o passado Congresso Geral da Opus Dei identificou como prioritárias. Seguindo o desejo do Papa para a Igreja, também a partir da prelazia nos esforçamos para ajudar os noivos e os casais para que manifestem a beleza do amor autêntico, e acompanhamos os jovens a descobrir sua missão no mundo.

Passaram-se cinco anos desde a eleição do Papa Francisco. O que resgata especialmente deste tempo?

Entre muitas outras coisas, seu convite para anunciar o Evangelho através daquilo que certa vez chamou de “santidade da porta ao lado”: realizar o próprio dever – rezar, trabalhar, cuidar da casa, atender a família, descansar – com a esperança de que essas tarefas, mesmo em meio a dificuldades e sofrimentos, são o caminho do encontro com Deus e do serviço aos outros. A Igreja é o conjunto de todos os batizados, cada um é protagonista da evangelização.

Eu também enfatizaria sua insistência no perdão e na misericórdia de Deus, que teve um ponto alto no Jubileu da Misericórdia. Representa uma lembrança constante do amor de Deus por todos os homens, que percebemos de maneira clara no sacramento da reconciliação. Nenhum homem ou mulher, não importa quantas misérias tenha, pode se desesperar com o perdão de Deus: há sempre uma maneira de retornar a Ele. Por outro lado, a proximidade do Papa Francisco com as pessoas mais vulneráveis convida todos os cristãos a fomentar essa “cultura do encontro” tão evangélica.

Há poucos dias o Papa convidou todos os fiéis do mundo para rezarem contra os ataques do diabo, que busca sempre romper a unidade da Igreja. Como recebeu esse chamado?

A primeira reação que tive foi de alegria, porque um convite do Papa para rezar por uma intenção sua tão importante anima, nos dá ímpeto e esperança pela fé do Papa na oração. Por outro lado, nos entristece porque responde a uma situação difícil. É coerente com o tema da unidade. Tudo o que é contrário à unidade não vem de Deus, mas do inimigo. Ele também pede para rezar a São Miguel.

A unidade é uma condição de vida, também porque, para a Igreja, não só pela teologia, mas também pela fé, o Papa é o princípio visível de unidade; o peso da unidade repousa sobre o Papa e é por isso que ele nos pede para ajudá-lo com a oração, não apenas agora, mas sempre. Cada vez que termina uma carta, pede: “Reze por mim”. Vê-se que não se trata de uma frase bonita e piedosa, mas que acredita na oração e pede oração.

Por isso, temos todos a “agradável” obrigação de apoiar o Papa com a oração, especialmente neste momento difícil. Devemos sempre rezar pelo Papa, mas quanto mais difíceis forem as situações, quanto maior for o risco contra a unidade, mais razão para estar com o Papa e com a unidade da Igreja.

Com este gesto, o Papa pede que antes de se angustiar ou indignar pelos problemas é necessário voltar à essência?

Vincular a figura do Papa à unidade não é apenas bom, é essencial. O Papa é um princípio visível de unidade, de fé e de comunhão. Insisto, é motivo de alegria, mas também de tristeza, pelas dificuldades atuais.

A Opus Dei está presente há muitos anos em países como a China e a Rússia, os mesmos que o Papa colocou entre as suas prioridades. São ainda países “tabu” para a Igreja?

No caso da Rússia, a presença da Igreja católica é estimada e conhecida pela hierarquia ortodoxa, e há um desejo de cooperação fraterna, que se acentuou após o encontro entre o Papa e o Patriarca de Moscou em 2016. Há muitos desafios espirituais e culturais comuns a católicos e ortodoxos e nos quais os fiéis da Opus Dei que vivem na Rússia trabalham em conjunto com outros cristãos: a promoção da família, o respeito pela vida, a ajuda aos necessitados, a promoção dos jovens para que não tenham medo de ir contra a corrente, o apoio aos cristãos perseguidos em várias partes do mundo, etc.

E no caso da China, que caminhos os cristãos poderiam percorrer nesses lugares?

No que diz respeito à China, os novos acordos implicam necessariamente novos desafios, como explicava o Papa. A Igreja na China deseja viver sua fé e continuar o trabalho de evangelização, e os poucos fiéis da Obra que trabalham neste grande país desejam contribuir como mais um, aprendendo com os outros católicos e contribuindo com a mensagem da santificação da vida cotidiana.

Depois das crises midiáticas que a Opus Dei teve de enfrentar há alguns anos, como a do “Código Da Vinci”, acredita que a natureza da prelazia já foi suficientemente explicada?

Parece-me que, em grande parte, trata-se de percepções do passado, bastante comuns quando surge uma nova realidade na Igreja. No caso da Opus Dei, por exemplo, foi trabalhoso explicar a autonomia de seus membros que, por serem leigos como a maioria dos fiéis da Igreja, gozam da mesma liberdade em suas decisões de vida, profissionais, intelectuais, políticas, sem que seus pontos de vista ou atuações representem a prelazia, como acontece com os fiéis de qualquer outra circunscrição eclesial: dioceses, ordinariatos, etc. À medida que se aproxima dos seus cem anos de vida, há muitas pessoas que conheceram diretamente a Opus Dei, não apenas pelo que os outros diziam, e que puderam fazer por si mesmos um ser juízo verdadeiro da realidade.

Ainda existem pessoas que consideram a Opus Dei um grupo fechado e sectário?

Por outro lado, não devemos estranhar se, de vez em quando, surgem fenômenos pseudo-literários ou de ficção como esse que você menciona. Eu acho que, às vezes, não há outro remédio a não ser responder a esses episódios com um sorriso e trabalhar pacientemente para que a verdade apareça. A caricatura da Opus Dei estava tão longe da realidade que chegava a ser cômico.

Considerando tudo isso com a perspectiva dos anos que se passaram, posso dizer que talvez serviu para acumular experiência sobre como tornar-se melhor conhecido, com uma audiência muito mais ampla do que a habitual. E, neste sentido, agradeço a Deus pelos milhares de pessoas que vieram à Igreja através desta aparente contradição. Na perspectiva da fé, a crítica e a oposição sempre estimularam os cristãos a um maior espírito de oração, humildade e desejo de compartilhar com os outros a alegria de uma vida segundo o Evangelho.

Como você vê o futuro da Opus Dei?

O meu desejo para o futuro é que, fiéis ao carisma de São Josemaría, todos nós da Opus Dei, nos deixemos guiar pelo Espírito Santo para um renovado impulso evangelizador. Trata-se de levar o calor de Jesus Cristo para muitos amigos, familiares, colegas, vizinhos, conhecidos. A essência desse impulso evangelizador não é colocar em prática novas atividades ou instituições como as já existentes, e que são em si mesmas muito boas e positivas, mas incentivar a amizade pessoal, a abertura a todos e o espírito de serviço, atitudes profundamente evangélicas que são fundamentais para o apostolado cristão e que, ao mesmo tempo, são compatíveis com os defeitos e as fraquezas que todos temos.

Que desafios avista no horizonte?

Os desafios são muito variados. Em países de minoria cristã, como a Indonésia ou o Sri Lanka (para citar dois dos últimos em que a prelazia iniciou um trabalho estável), é importante manter a confiança no Senhor e ter muita fé. O compromisso cristão dos fiéis da Opus Dei e, em geral dos católicos, é uma sementinha, cujos frutos crescem pouco a pouco, com a graça de Deus.

Em outros países de tradição cristã, talvez o principal desafio seja viver o Evangelho com alegria e autenticidade, sem imitar uma sociedade que muitas vezes coloca em primeiro lugar os fatores materiais ou econômicos.

Outro desafio óbvio, comum a toda a Igreja, é a mudança geracional. Anualmente morrem cerca de mil fiéis da prelazia, pessoas que, para dizê-lo de alguma maneira, terminaram seu caminho: junto à dor que se vive diante de cada uma dessas separações humanas, são uma grande força espiritual e um apoio para o trabalho de evangelização da Igreja no mundo.

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