Reflexões sobre a crise de abusos: não se trata apenas de McCarrick. Depoimento de uma jornalista

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09 Agosto 2018

"Por que raios um homem não com um, mas dois acordos legais por má conduta sexual foi autorizado a permanecer cardeal por quase duas décadas é algo que muitos terão que explicar quando baterem no portão de São Pedro para pedirem satisfações", escreve Inés San Martín, jornalista, em depoimento publicado por Crux, 08-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o texto.

Nos últimos dias, me vi profundamente imersa no drama que a Igreja Católica está vivendo no Chile e em uma das maiores crises de abuso sexual do clero.

É nojento. É criminoso. É imperdoável. É capaz de balançar a fé das pessoas.

No entanto, quando comecei a escrever sobre o assunto, incluindo um relatório de 4.000 palavras sobre um grupo de predadores homossexuais que faz com que os crimes do ex-cardeal Theodore McCarrick pareçam leves em comparação, recebi mensagens nas mídias sociais e no meu e-mail exigindo que eu olhasse para o cardeal americano.

Vou compartilhar alguns pensamentos sobre isso. Normalmente não fazemos comentários pessoais no Crux, mas às vezes uma história se torna tão grande que apenas reportá-la não é suficiente.

Eu tive como tarefa, na semana passada, entrevistar vários homens chilenos que, enquanto se preparavam para dedicar suas vidas a uma instituição que amavam, esperando servir os fiéis em nome de um Deus a quem foram apresentados por suas famílias, foram abusados sexualmente em um seminário local por aqueles encarregados de sua formação.

Estes são homens que viram seu bispo ignorar as alegações. Homens que, em junho, viram o Papa Francisco aceitar a renúncia do mesmo bispo - supostamente por questões de idade, sem que perguntas reais fossem, aparentemente, feitas.

Fui acusada no Facebook de me tornar uma jornalista de araque, olhando para a parte mais escura e sombria da Igreja apenas por diversão. Estas são pessoas que não sabem que eu vomitei mais na semana passada que na minha vida inteira. Eu fui acusada de tentar derrubar a Igreja por pessoas que não sabem o quanto eu chorei na última semana. Que não sabem o quanto a minha fé foi testada.

Eu chorei pelas vítimas, pela inércia da Igreja, pela Comunhão dos Santos.

Deixe-me ser clara: o que McCarrick fez foi horrível. O que a hierarquia nos Estados Unidos fez para encobrir é revoltante.

Por que raios um homem não com um, mas dois acordos legais por má conduta sexual foi autorizado a permanecer cardeal por quase duas décadas é algo que muitos terão que explicar quando baterem no portão de São Pedro para pedirem satisfações.

Mas por mais revoltante e terrível que seja o que ocorreu nos Estados Unidos, o que me machuca é saber que não é um acontecimento isolado.

Durante anos, alguns cardeais no Vaticano tentaram nos convencer que o que aconteceu em Boston, na Irlanda e na Austrália era um "problema anglo-saxão", confinado a uma cultura e região específicas. Adivinha? Eu mergulhei fundo na barriga da fera e descobri que não é bem assim.

Por mais doloroso quanto possa ser o escândalo de McCarrick para os bispos americanos que, dia após dia, lutam para se orgulharem de serem membros de uma Igreja fundada pelo Filho de Deus, que confiou em 12 homens, um dos quais o traiu e 11 deles fugiram no primeiro sinal de problema, deixe-me dizer: fica pior. Minha história, ontem, em um seminário chileno prova isso.

E vai piorar ainda mais.

Mas vai melhorar. Precisa melhorar.

Não sei como ou quando será o "melhor".

Eu sei que isso só acontecerá quando formos capazes de deixar as ideologias de lado.

Isso acontecerá quando deixarmos o orgulho à parte e reconhecermos que isso não é a imprensa atacando a Igreja. Alguns de nós estão fazendo o que fazemos com o incentivo dos cardeais em quem (esperamos) podemos confiar.

A situação vai melhorar quando pararmos de dizer "todo mundo sabia" (aparentemente todo mundo, exceto os bispos dos EUA, com base no que eles alegaram em público depois que o escândalo estourou) e realmente fizermos algo a respeito.

Vai melhorar quando nós, como Igreja (sim, eu sou católica batizada, e apesar dos crimes e pecados que eu ouvi na última passada, ainda fui à missa no domingo), pararmos de deixar o problema para a “hierarquia” resolver.

Estudos nos dizem que entre 3% e 7% dos padres fazem parte do problema. Este é um número enorme. Mas o número de padres, bispos, freiras, religiosos e papas que querem fazer parte da solução é ainda maior. Encontre-os. Dê apoio a eles. Tenha orgulho deles. Ore por eles. Deixe o resto apodrecer no inferno.

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