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30 Julho 2018

“Nesta situação política grave, tudo chamaria a uma aliança das forças progressistas, populares e democráticas. E quem senão Lula para, com sua autoridade, fazer uma convocação patriótica, para além de sua pessoa como candidato? Mas o que vemos é uma esquerda dividida em seus pequenos espaços e um PT encerrado no plano A de uma candidatura que, mais dia menos dias, será finalmente inviabilizada”, escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo.

Segundo ele, “As necessidades da nação e do seu povo vêm em primeiro lugar. E a eleição de outubro deveria ser vista num processo de mais longo alcance. Volto ao artigo de Betinho: “Apesar de não acreditar que eu vá viver muito [morreria em exatos três anos], o fato é que atuo como se a vida não terminasse numa eleição.... Creio em cidadania e por isso minha noção de tempo é diferente”.

Eis o artigo.

“Um fantasma ronda a Europa”, assim começava o célebre manifesto de 1848. Agora outro, bem concreto e personalizado, preocupa os setores dominantes tupiniquins. As sondagens mostram o crescimento de Lula. Passou de 38%, em pesquisa de Voz Populi de 18/20 de julho, para 41% das intenções de voto, contra 21% de todos os outros candidatos juntos. Nessa tendência, com uma eleição livre, seria eleito já no primeiro turno. No caso de um possível segundo turno, venceria todos os outros candidatos, com pelo menos 50%. Em carta à convenção do partido de 28 de julho, Lula indica, usando a terceira pessoa: ”um golpe dentro do golpe com a intenção de tirá-lo das intenções em que é favorito”.

Na previsão de uma tendência destas, já bem antes, veio a condenação mais do que suspeita pelo juiz curitibano Moro, de uma jurisdição que curiosamente nada tinha a ver com Lula. Estava baseada numa absurda fragilidade de prova, sobre um triplex em São Paulo, que nunca pertenceu a ele nem em intenção. Essa decisão veio reforçada por uma segunda instância da quarta região sul, que a referendou às pressas, praticamente sem ouvir as partes. Ao mesmo tempo Aécio e tantos outros, passeiam livres, apesar de robustas provas contra eles. E depois se fala na isenção da justiça! Temos decisões de cartas marcadas.

Dia 15, a candidatura de Lula será inscrita. Firulas jurídicas se levantarão dos dois lados e talvez cheguemos às eleições sem um resultado final. Mas uma arma está sendo brandida, para apressar o processo, a partir da lei da Ficha Limpa, aprovada a partir de uma iniciativa popular durante o governo do próprio Lula. A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, acaba de publicar, em 27 de julho, uma instrução normativa: “O que o Ministério Público quer comunicar é que terá uma atuação firme (sic), na expectativa de atingir todos aqueles candidatos que estejam em situação de inelegibilidade regulamentada pela Lei da Ficha Limpa”. O plural não esconde a intenção clara e sem escrúpulos de atingir basicamente um deles em particular e assim apressar o fim de sua candidatura. A quem apelar de decisões da justiça? A ela mesma? Estamos assim diante de um círculo vicioso. O judiciário seria julgador do que condenou. A irritada rainha de copas do conhecido conto de Alice, exigia sentença antes do veredicto. No caso do julgamento de Lula, a legalidade estaria sendo preservada na forma das leis, porém numa ilegitimidade de fundo.

Lula livre”, dizem manifestações pelo país afora. A quem se dirigem, quando o poder de árbitro está nas mãos dos que o condenaram? O clamor popular poderá fazer crescer ainda mais um candidato penalizado, como o movimento irrefreável que se seguiu à morte de Vargas. O país tem se mostrado sensível diante de perseguições ou tragédias. Temos um precedente no caso de Perón na Argentina, exilado em Madri, com um movimento popular crescente que exigiu sua volta.

Mas atenção, a indignação que sentimos não deve fazer perder a lucidez, em momento trágico de uma frágil democracia em perigo. Para isso, mais que centrar-nos numa figura, mesmo que seja um Lula condenado injustamente, é preciso olhar para o país. É perigoso e suicida centrar tudo no apoio ou rejeição de um candidato. O ponto central deve ser a sociedade. “Opção pela sociedade”, escreveu Betinho em texto que publicou, por instigação minha, às vésperas das eleições de 1994: “Não quero o estado no planalto mas na planície. Não quero o presidente mas o cidadão. Não quero o salvador mas o funcionário público eleito para gerenciar o bem comum. Para mim as eleições de outubro não têm o caráter de definir nosso futuro. Quem decide nosso futuro somos nós, a cada dia, hora, minuto de uma ação política contínua que não se esgota em outubro ou novembro...” (Jornal do Brasil, 18 de agosto de 1994). O centro da preocupação deve ser o país, neste momento dilapidado por um governo irresponsável. Porém, vemos tantas manifestações e declarações centradas apenas em Lula e não no Brasil.

Nesta situação política grave, tudo chamaria a uma aliança das forças progressistas, populares e democráticas. E quem senão Lula para, com sua autoridade, fazer uma convocação patriótica, para além de sua pessoa como candidato? Mas o que vemos é uma esquerda dividida em seus pequenos espaços e um PT encerrado no plano A de uma candidatura que, mais dia menos dias, será finalmente inviabilizada. Em texto anterior eu dizia:

Lula, com seu prestígio crescente, sem dúvida a maior liderança no país, poderia ter um sinal de grandeza, não insistir como candidato inviável e isolado e ser o grande eleitor de uma candidatura plural, progressista, nacional e popular. É hora de amplas alianças. Poderíamos, na contracorrente, esperar gestos que liberem?

Talvez esteja tomando uma posição isolada, ingênua ou irrealista, na contracorrente de tantos apoios.

Temo estarmos marchando para uma eleição incerta, fragmentada, com muitos candidatos. Ao final, inelegível, Lula proporia um petista. Com Lula, como dito acima, não haveria um segundo turno. Sua indicação não repassaria possivelmente todos os votos e o escolhido poderia estar num segundo turno. Contra quem? Ciro chegaria lá? Bolsonaro poderia esvaziar-se no caminho, tropeçando em suas contradições (mas cuidado, esse raciocínio não impediu a vitória de Trump). Poderíamos ter talvez a repetição do embate PT-PSDB, que vem das eleições desde 1994, com um Alckmin candidato preferido do sistema hegemônico? Não por acaso o centrão, oportunista e fisiológico o endossou.

Essa polarização na disputa presidencial pode fazer-nos esquecer a necessidade indispensável de expurgar os legislativos dos interesses os mais inconfessáveis. Legendas de aluguel, nas mãos de políticos atolados na corrupção, vão apresentar candidatos para fazer nossas assembleias legislativas, nacionais e estaduais, ainda piores do que as atuais. A não ser que deixemos de ficar presos apenas na eleição para presidente. Seria indispensável centrar nossa atenção em eleger deputados e senadores patriotas, com sentido de serviço à sociedade.

Também nas candidaturas dos executivos estaduais vemos as alianças mais esdrúxulas e eleitoreiras. Elas complicam e condicionam os apoios a nível nacional. Temos assim um tabuleiro onde interesses menores desviam a atenção das reais prioridades.

As necessidades da nação e do seu povo vêm em primeiro lugar. E a eleição de outubro deveria ser vista num processo de mais longo alcance. Volto ao artigo de Betinho: “Apesar de não acreditar que eu vá viver muito [morreria em exatos três anos], o fato é que atuo como se a vida não terminasse numa eleição.... Creio em cidadania e por isso minha noção de tempo é diferente”.

A eleição de outubro, com todas suas incertezas, não nos deveria afastar de um trabalho mais amplo de reconstrução democrática, possível se for articulado aos poucos, a partir das bases da sociedade, numa ampla aliança nacional, popular e democrática. Uruguai e Portugal, com suas frentes amplas, apontam caminhos.

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