Cardeal de Bangladesh vê lições paralelas entre os Rohingya e a fronteira EUA-México

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24 Julho 2018

Em Bangladesh mais de 800.000 refugiados muçulmanos Rohingya fogem da limpeza étnica na vizinha Mianmar. A situação é bem diferente daqueles que procuram asilo na fronteira EUA-México, mas, mesmo assim, o cardeal Patrick D'Rozario acredita que há uma lição paralela a ser aprendida.

A reportagem é de Christopher White, publicada por Crux, 23-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

"As pessoas que estão migrando são seres humanos. Eles têm o direito de viver, e têm o direito de abrigo", disse D'Rozario. "O mundo é casa para todos, não apenas para pessoas de uma nação específica."

Em uma entrevista ao Crux na Igreja Queen of the Angels, no Queens em Nova York, o arcebispo de Dhaka, em Bangladesh, disse que os migrantes e refugiados - independentemente de onde são - estão buscando um lugar na "nossa casa comum", uma referência a Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’ de 2015.

"Papa Francisco sempre diz isso, e acho que devemos ouvir a sua chamada para recebê-los como seres humanos", disse ele.

Nos últimos três dias, D'Rozario - que foi feito cardeal por Francisco em 2016, o primeiro na história do país – tem se dedicado a uma visita pastoral a maior população Bengali nos Estados Unidos.

Quando a primeira onda de imigrantes de Bangladesh chegou aos Estados Unidos, instalou-se no Queens, uma das mais diversas regiões do país. Eles chegaram com suas famílias inteiras e com o compromisso de trazer suas identidades culturais junto com eles.

Apesar de "laços sociais que são muito fortes" e um compromisso de ser uma "comunidade prestativa", D'Rozario disse que os bengaleses lutaram com os mesmos problemas de emprego e documentação que mais grupos de migrantes têm ao tentar em um novo país.

Apesar desses desafios, que eventualmente foram superados, o cardeal disse que eles também conseguiram manter a sua fé.

D'Rozario, que viajou para Nova York em várias ocasiões ao longo dos anos - embora esta visita foi sua primeira desde que foi nomeado cardeal - está satisfeito com o que viu.

"Deus os trouxe aqui com um determinado propósito e eles estão fazendo o melhor possível para manter sua fé, praticar sua fé e os valores familiares que têm ligação com seus pais e com a sua religião – e eu reconheço isso", disse ele.

Quando missionários jesuítas de Portugal chegaram pela primeira vez em Bangladesh no final do século XVI, enfrentaram uma batalha difícil no país de maioria muçulmana e hindu. Mesmo assim, quando um príncipe local hindu adotou o cristianismo, conversões generalizadas seguiram. Isso fez crescer o interesse pela nova fé.

Embora a Igreja tenha crescido ao longo dos séculos, hoje há aproximadamente 375.000 católicos em Bangladesh, ou 0.3% da população. Por outro lado, mais 86% de Bengalis são muçulmanos, enquanto outros 12% são Hindu.

No entanto esta pequena Igreja conseguiu ser um exemplo de solidariedade inter-religiosa. D'Rozario disse ao Crux que desde o Vaticano II a "Igreja se tornou mais local", e apresentou uma lista de modos em que a Igreja oferece serviços para pessoas de outras religiões - educação, saúde e diálogo inter-religioso - formas que acredita que os católicos sejam mais ativos do que qualquer outro grupo religioso do país.

"A Igreja não pode ser restrita a poucos", disse ele.

Refletindo sobre o foco missionário da Igreja local, D'Rozario lamentou o fato de que a Igreja na Europa esteja em declínio e em conflito com forças de secularização por todo o continente.

"Nós fomos evangelizados por eles. Como eles perderam?", indagou retoricamente.

"Não podemos construir a Igreja somente como instituição" disse. "A Igreja é o povo de Deus."

E parece que ele é não o único trabalhando ativamente para a Igreja de Bangladesh servir como um exemplo global: Francisco não só chamou atenção ao país o tornando cardeal, mas também viajou até lá em dezembro passado.

Ao recordar a notícia surpresa de ser nomeado cardeal, admite, "Fui o primeiro a ficar perplexo."

Na sequência do anúncio, disse que a nomeação só faz sentido quando se percebe que a honra nada teve a ver com ele, mas "com a Igreja de Bangladesh".

"Papa Francisco optou por levar aquilo que é bom na Igreja periférica para o centro, para o mundo", disse ao Crux. "A Igreja é pobre, o país é pobre, mas tem sua riqueza em seus valores."

"Os pobres têm o poder de serem dependentes de Deus. Não de uma forma supersticiosa, mas confidente", continuou.

A visita de Francisco a Bangladesh em dezembro de 2017 foi a segunda parada em uma turnê de sete dias onde o Pontífice visitou primeiro a vizinha Mianmar. Lá, ele lançou luz sobre a perseguida minoria muçulmana, conhecida como Rohingya, da qual, centenas de milhares vivem agora em acampamentos e abrigos em Bangladesh.

D'Rozario acredita que a situação melhorou desde que o Papa visitou os países. No entanto, alega que o status de refugiados dos Rohingyas não pode durar para sempre, e eles precisam de uma existência mais estável e permanente.

Mesmo assim, se orgulha dos cuidados que os católicos têm fornecido para ajudar a melhorar as condições dos Rohingya. Eles têm ajudado a construir novos acampamentos e abrigos melhores, e especialmente direcionando seus esforços para ajudar as crianças que são crescendo em condições tão infelizes.

D'Rozario, que visitou os campos de refugiados em duas ocasiões distintas, se recorda que após uma delas, sentiu que havia "tocado as feridas de Jesus".

Tanto sofrimento é também uma lembrança do propósito da Igreja - e ele diz que Francisco compreendeu isso durante o tempo no país.

"O Santo Padre disse, 'Eu vi os rostos de sofrimento, mas também vi os rostos sorridentes'", recorda D'Rozario.

Olhando para o futuro, acredita que sua pequena nação e sua Igreja ainda menor, e seu povo que agora vive nos Estados Unidos, servem como um lembrete do "poder dos pequenos".

"A paz não pode ser apenas em palavras", insiste, "mas ao cuidar dos pobres, cuidar de todos aqueles que são perseguidos, daqueles que são abandonados."

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