Humanae vitae foi um texto reescrito: o complicado nascimento de uma encíclica controversa. Artigo de Massimo Faggioli

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13 Julho 2018

“O texto final da Humanae vitae foi essencialmente um produto de teólogos do ex-Santo Ofício, e trazia poucos vestígios da reflexão do Vaticano II sobre o matrimônio na Gaudium et spes.”

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de Teologia e Estudos Religiosos da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em Commonweal, 12-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Cinquenta anos após a publicação da Humanae vitae, a editora oficial do Vaticano divulgou um importante livro sobre a história da encíclica.

O autor do livro de quase 300 páginas – intitulado La nascita di un’enciclica. Humanae Vitae alla luce degli Archivi Vaticani [O nascimento de uma encíclica. Humanae vitae à luz dos Arquivos Vaticanos] – é Gilfredo Marengo, o monsenhor italiano que preside a comissão especial criada pelo Papa Francisco para o estudo dos recém-disponíveis Arquivos Vaticanos.

Pierangelo Sequeri, presidente do Instituto João Paulo II e um dos mais brilhantes teólogos italianos dos últimos 50 anos, escreveu o prefácio.

O livro tem duas partes. A primeira reconstrói a história do envolvimento da Santa Sé com a questão da contracepção entre 1963 e 1968, o ano em que a Humanae vitae foi publicada. A segunda parte é uma seleção de documentos originais dos Arquivos Vaticanos disponibilizados para a comissão especial.

Marengo apresenta alguns importantes fatos novos sobre a elaboração da Humanae vitae. Para começar, uma versão anterior da encíclica foi aprovada por Paulo VI e agendada para publicação em 23 de maio de 1968. Essa versão, intitulada De nascendae prolis, foi escrita pelo Pe. Mario Luigi Ciappi, OP, e foi uma revisão de um texto do fim de 1967 da Congregação para a Doutrina da Fé.

Mas os tradutores franceses e espanhóis expressaram uma avaliação muito negativa do texto de Ciappi, e, seguindo o conselho do Mons. Benelli, o número dois da Secretaria de Estado, Paulo VI decidiu retirar a De nascendae prolis.

A encíclica foi reescrita apressadamente entre maio e julho de 1968, sob a direção do Pe. Benoit Duroux, OP, consultor da Congregação para a Doutrina da Fé. Paulo VI supervisionou essa reformulação, fez inúmeras mudanças no texto – especialmente em sua seção pastoral – e aprovou a nova versão da encíclica em 8 de julho de 1968.

Ele também acrescentou a palavra “humanae” ao título original, Vitae tradendae munus (o livro de Marengo nos fornece o texto de Duroux junto com as mudanças finais de Paulo VI).

Os dois prelados que tiveram um papel-chave durante todo o esboço da encíclica foram Dom Carlo Colombo, bispo auxiliar de Milão, e Paul-Pierre Philippe, OP, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé.

Outro fato importante revelado no livro de Marengo tem a ver com o pedido de Paulo VI aos bispos reunidos no Sínodo de outubro de 1967 de que eles lhe enviassem sugestões sobre um documento magisterial sobre a regulação da fertilidade.

Dos mais de 200 membros do Sínodo, apenas 26 responderam entre outubro de 1967 e maio de 1968 – e apenas sete desses 26 recomendaram que Paulo VI confirmasse a proibição da contracepção por parte de Pio XI.

Entre os bispos favoráveis a uma mudança no ensino da Casti connubii, de Pio XI, estavam não só os conhecidos progressistas europeus como Suenens (Bruxelas), Döpfner (Munique) e Legér (Montreal), mas também os prelados estadunidenses Dearden (Detroit), Krol (Filadélfia), Shehan (Baltimore) e Wright (Pittsburgh).

A ansiedade inicial de Paulo VI de consultar outros prelados é uma parte importante da história. Como Marengo deixa claro, Paulo VI não queria agir sozinho sobre essa questão. Mas, em 1966, uma rixa bem conhecida surgiu na comissão sobre o controle de natalidade criada por João XXIII entre uma maioria que queria que a Igreja relaxasse a sua proibição à contracepção e uma minoria que queria mantê-la.

Foi no rastro dessa divisão que Paulo VI finalmente decidiu desconsiderar o conselho da maioria dos bispos que lhe haviam enviado suas sugestões após o Sínodo. Marengo observa que as pessoas que Paulo VI escolheu para redigir a encíclica fizeram poucos esforços para escutar e responder às preocupações da maioria da comissão.

O texto final da Humanae vitae foi essencialmente um produto de teólogos do ex-Santo Ofício, e trazia poucos vestígios da reflexão do Vaticano II sobre o matrimônio na Gaudium et spes.

Tudo isso nos ajuda a situar a Humanae vitae na história do ensino papal sobre o controle de natalidade – de Paulo VI a Francisco. A julgar pelo livro de Marengo, o arcebispo Karol Wojtyła (mais tarde, Papa João Paulo II) não teve muito impacto na elaboração da Humanae vitae. Mas ele fez algumas sugestões notáveis sobre a dimensão pastoral do texto e mostrou um grande interesse em assegurar que a encíclica fizesse mais do que simplesmente reafirmar os ensinamentos de Pio XI e de Pio XII.

Em um livro sobre o matrimônio, de autoria do jovem Joseph Ratzinger, reeditado no mês passado na tradução para o italiano, encontramos o futuro Bento XVI criticando a teologia do matrimônio da Humanae vitae (Ratzinger escreveu o livro em 1967, mas ele só foi publicado em 1969, um ano após a publicação da Humanae vitae).

Ler o que esses dois futuros papas tinham a dizer sobre a encíclica antes e imediatamente depois da sua aparição nos lembra que a teologia deles não era o artigo de fé indiscutível que, desde então, se tornou para muitos católicos conservadores.

O livro de Marengo é um marco no esforço contínuo para entender a história da mais controversa encíclica dos tempos modernos. Outras questões permanecem e serão respondidas quando outros estudiosos, independentemente da Santa Sé, tiverem acesso ao mesmo conjunto de documentos que a comissão especial de Marengo foi autorizada a estudar.

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