Francisco, os valores inegociáveis e o fim de 1968. Artigo de Massimo Faggioli

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06 Março 2014

Na entrevista ao jornal Corriere della Sera, o papa confirma a diferença entre duas épocas dentro do magistério moral pós-conciliar: a era wojtyliana-ratzingeriana e a atual.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 05-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na entrevista ao Corriere della Sera publicada no dia 5 de março (quarta-feira de cinzas), o Papa Francisco se coloca no centro do espectro das várias posições dentro da Igreja Católica: ele defende o caráter profético da encíclica Humanae vitae, de Paulo VI, sobre contracepção, mas sem fazer dela um dogma; defende a ação da Igreja contra a pedofilia nos últimos anos, sem calar o fato de que a Igreja já tem uma práxis muito mais clara do que outras organizações; aprecia a presença de Bento XVI no Vaticano e abre a uma possível nova tradição de "papas eméritos".

Porém, uma passagem que situa Francisco claramente com relação às várias posições dentro do catolicismo contemporâneo é a sobre os "valores inegociáveis".

Francisco responde à pergunta de Bortoli: "Eu nunca compreendi a expressão 'valores inegociáveis'. Os valores são valores, e basta, não posso dizer que entre os dedos de uma mão haja um menos útil do que os outros. Por isso, não entendo em que sentido possa haver valores inegociáveis. O que eu tinha a dizer sobre o tema da vida, eu escrevi na exortação Evangelii gaudium".

Essa passagem não representa uma novidade dentro do pontificado de Francisco, mas se insere, de modo particularmente claro, em uma série de pronunciamentos oferecidos em várias ocasiões e formas no ano passado. Todavia, é uma afirmação que representa uma confirmação da diferença entre duas épocas dentro do magistério moral pós-conciliar: a era wojtyliana-ratzingeriana e a atual.

A rejeição da utilidade da expressão "valores inegociáveis", por um lado, se conecta à visão de um magistério moral da Igreja cujas questões não podem ser isoladas umas das outras: por exemplo, a questão do aborto não pode ser separada da assistência e dos serviços sociais às mães e à família.

Por outro lado, o arquivamento da expressão "valores inegociáveis" (por parte do papa: resta ver no resto da Igreja) representa o armistício e o fim das "guerras culturais" combatidas no Ocidente (especialmente nos Estados Unidos) ao longo das últimas décadas, também por parte do magistério papal.

Não por acaso, a expressão "valores inegociáveis" nasceu nos EUA dos "sixties" e foi assumida apenas cerca de 30 anos depois – paradoxalmente – por um magistério católico (e não só) que via nos "sixties" uma ruptura moral-cultural à qual era preciso reagir com uma cruzada.

A visão de Francisco repropõe a traduzibilidade da mensagem cristã no mundo contemporâneo e arquiva a limitação da mensagem da Igreja ao restrito menu dos valores inegociáveis – que foi por muito tempo interpretada pela política no Ocidente como uma reedição do "pas d’ennemi a droite".

Para o jesuíta argentino Papa Francisco, os "sixties" significam muito pouco: não só por uma questão de proveniência geográfica (os anos 1960 na Califórnia ou na Alemanha são muito diferentes dos anos 1960 da América Latina), mas também por uma renovada visão do papel da Igreja na sociedade contemporânea, na sociedade do moderno.

O Papa Francisco não é um teólogo da antimodernidade eurocêntrica, nem da cultura pós-moderna anglo-saxônica. A teologia política dos valores inegociáveis, a que se formou em torno do pensamento ratzingeriano a partir dos anos 1970, sabe falar com o antimoderno e o pós-moderno, mas diz muito pouco para a Igreja no mundo moderno, a da constituição do Concílio Vaticano II Gaudium et spes: uma das grandes rentrées graças ao pontificado de Francisco.

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