Simples ação de transportar água no deserto dos EUA evita mortes de migrantes

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03 Julho 2018

No deserto de Sonora, no Arizona, as temperaturas podem chegar até 35ºC próximo ao final da primavera e acima de 40ºC no verão. Esta paisagem vasta e árida de cordilheiras, arroios e vales, típicos em todo sul do Arizona, é onde os imigrantes fazem um caminho para encontrar vida melhor nos Estados Unidos. Este é também o lugar onde centenas de pessoas tiveram seu último suspiro.

O grupo Samaritanos de Tucson volta para seus veículos após a parada final do dia, carregando lixo e jarros de água vazios. (Foto: Peter Tran)

A reportagem é de Peter Tran*, publicada por Global Sisters Reporter, 02-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Irmã Judy Bourg é voluntária regular dos Samaritanos de Tucson, uma organização de auxílio humanitário fundada em 2002 como missão da Igreja Presbiteriana Southside para prevenir morte e sofrimento ao longo da fronteira EUA-México. Ela se recorda de uma experiência chocante no final de 2017, quando ela e outros voluntários encontraram uma caveira humana sob uma árvore no deserto próximo a cidade de Ajo. "O silêncio caiu sobre nosso grupo no momento em que percebemos o que descobrimos", disse Bourg, irmã da Congregação de Notre Dame. Eles contataram o escritório do xerife em Ajo, que enviou dois delegados para recolher os restos. Bourg disse que os delegados "respeitosamente removeram a caveira" e a enviaram ao escritório do médico legista em Tucson.

Os Samaritanos de Tucson são constituídos por voluntários que deixam comida e água em vários locais no deserto de Sonora. Eles vêm de várias tradições de fé ou de nenhuma. Usando dois veículos doados com tração nas quatro rodas, diariamente eles carregam água, alimentos, suprimentos médicos de emergência, equipamentos de comunicação e mapas para o deserto, a fim de ajudar as pessoas que estão atravessando o lugar.

Samaritanos de Tucson fazem uma pausa para descanso. (Foto: Peter Tran)

Interromper as mortes de migrantes no deserto de Sonora é a razão de existência de grupos como os Samaritanos ou o No More Deaths (Não mais mortes, em português) no sul do Arizona. A missão principal dos Samaritanos é prestar assistência humanitária para proteger os migrantes de desidratação.

No final de maio, dois frades franciscanos, duas irmãs da Congregação de Notre Dame, uma enfermeira aposentada, um franciscano leigo que é piloto comercial, um administrador de igreja e um Quaker que é membro dos Samaritanos e do No More Deaths juntaram esforços colaborativos para uma missão.

Com temperatura de quase 35ºC, eles realizaram duas operações. A primeira foi uma rápida verificação dos locais onde anteriormente haviam deixado galões de água nos arredores de Ajo. A segunda foi uma viagem até o coração do deserto a leste da cidade, depois, ao longo da Coffeepot Mountain, que fica a mais de 80 quilômetros ao norte da fronteira EUA-México.

Susannah Brown, enfermeira aposentada que faz parte dos Samaritanos de Ajo, grupo que começou com a ajuda dos Samaritanos de Tucson há cerca de sete anos, liderou a operação em uma caminhonete carregada com caixas de garrafões de água. Durante a viagem através do difícil caminho rochoso, ela apontou para uma montanha à sua esquerda dizendo: "Lá nós descobrimos os restos de um indivíduo".

Ela disse que os Samaritanos de Ajo descobriram 58 restos humanos em 2017. A quantidade era incomum, pois nos anos anteriores não foram encontrados tantos assim. Brown e seu marido se mudaram para Ajo de Massachusetts depois de sua aposentadoria. Apesar de ela querer ser voluntária para uma organização Internacional como os Médicos Sem Fronteiras a princípio, disse que está contente em trabalhar com os Samaritanos. "Estou tentando impedir que estas pessoas morram no nosso deserto", disse Brown.

Os Samaritanos contam os recipientes de água usada e os substituem por outros, cheios. (Foto: Peter Tran)

Na primeira parada onde os Samaritanos deixaram garrafas algumas semanas antes, os voluntários saíram dos veículos para fazer uma varredura na área à procura de garrafas vazias ou sinais de migrantes que usaram aquela trilha. Eles encontraram uma garrafa preta vazia. Garrafas de plástico pretas são trazidas do México, enquanto as dos Samaritanos são de plástico transparente. Os Samaritanos substituíram as vazias por seis novas e cobriram com uma caixa verde.

Para evitar que animais mexam, eles colocam algumas pedras em cima da caixa. "Como o deserto é muito grande, fica difícil para os migrantes saberem onde deixamos as garrafas de água. Nosso papel é fazer reconhecimento contínuo de trilhas para identificar quais estão sendo usadas pelos migrantes. Como um grupo, podemos manter o controle de onde, quando e quantas garrafas de água foram utilizadas e deixadas no deserto”, disse Bourg, que se juntou aos Samaritanos de Tucson há sete anos.

Depois de concluir a entrega, todos voltaram aos veículos.

Questionada se ela se defrontava com detratores, Brown disse que já ouviu de tudo: "Volte para o seu lugar", "eles vêm para roubar nossos empregos"; "eles merecem morrer já que querem arriscar suas vidas", disse ela. Em um local onde as garrafas foram colocadas algumas semanas antes, o grupo encontrou seis vazias. Após uma olhada mais acurada, viram que todas haviam sido deliberadamente perfuradas aparentemente pela lâmina de um canivete suíço. Alguém disse: "quem fez isso deve se responsabilizar por suas ações no dia do Julgamento."

O grupo repetiu a troca de garrafas em vários locais ao longo do caminho. Bourg disse que seu grupo raramente encontra qualquer migrante na trilha. "No entanto, continuamos porque sabemos que esta água será encontrada por mães que foram forçadas a deixar para trás seus filhos por causa de nossas políticas injustas de deportação. Deixamos a água para os jovens que se arriscam nesta perigosa jornada para encontrar um meio de ajudar suas famílias que deixaram para trás; Colocamos esta água porque acreditamos que todas as pessoas têm o direito de viver uma vida livre do medo e cheia de esperança."

Os Samaritanos finalmente chegaram a uma área intransitável para seus veículos. Com a temperatura subindo, todos carregaram quantos galões era possível em mochilas e percorreram cerca de três quilômetros até um ponto marcado para deixar a água. Neste local, embaixo de uma árvore e na área circundante, encontraram 17 galões vazios, latas de comida vazias, pares de meias usados e outras roupas.

Frei franciscano David Buer e irmã Judy Bourg, da escola de Notre Dame, fazem parte dos Samaritanos Tucson. (Foto: Peter Tran)

"Só Deus sabe o que estava acontecendo aqui, mas sabemos que alguém estava usando a água", disse um dos Samaritanos. Embora com calor e cansados, todos pareciam felizes em ver os recipientes de água vazios. Depois de seis horas no deserto, o grupo pegou o lixo e as garrafas vazias e começou a caminhar de volta para os veículos.

Foi um dia "bom", disse Bourg, vestindo uma camisa com o dizer “Ajuda humanitária nunca é um crime". "Os Samaritanos continuarão com as viagens diárias ao deserto levando esperança para um povo sedento e cansado, até que nem mesmo uma pessoa morra."

Com essa missão comum, várias organizações realizam operações similares no deserto de Sonora. Human Borders (Fronteiras humanas, em português), fundada em 2000, foi o primeiro desses grupos. No More Deaths começou em 2004 e Green Valley-Samaritanos do Sahuarita em 2005. Operando de forma independente, os Samaritanos de Tucson e de Ajo colaboram periodicamente.

Acabar com a morte e sofrimentos de migrantes na fronteira EUA-México é também uma missão da Colibri Center for Human Rights, disse Reyna Araibi, co-fundadora e gerente de comunicações da organização sem fins lucrativos baseada em Tucson. De janeiro a 20 de junho de 2018, foi 58 o número de mortes de migrantes no Arizona (número estimado a partir de restos mortais encontrados), disse ela, acrescentando que, de 1998 a 2017, mais de 7.200 pessoas perderam suas vidas.

A Colibri está trabalhando em parceria com o Pima County Medical Examiner e as famílias dos desaparecidos. As organizações comparam informações dos indivíduos que não são encontrados e aqueles que morreram ou foram recuperados no deserto. Araibi disse que seu trabalho é encontrar os desaparecidos e identificar os mortos. Nos últimos 12 anos, foram coletados quase 3.000 relatórios detalhados de pessoas desaparecidas no deserto.

Deserto de sonora, visto do topo de uma colina (Foto: Peter Tran)

Araibi disse que a causa da morte para 45% dos migrantes cujos restos são recuperados é "indeterminada" por causa da condição destes restos. Para os outros 55% dos indivíduos, disse que a causa mais comum de morte está relacionada à exposição ambiental, hipertermia, hipotermia ou insolação.

Bourg condenou a estratégia dos EUA de "prevenção através da dissuasão" onde "áreas urbanas foram emparedadas e pontos de verificação foram colocados de tal forma que as pessoas tentando atravessar foram canalizadas para as partes mais secas, mais remotas e brutais do deserto, longe de estradas, recursos ou possível resgate. Em outras palavras, os EUA usou da selvageria no deserto como uma arma."

Bourg passou 11 anos na Guatemala onde testemunhou a dor e o sofrimento das pessoas que lutaram para alimentar e vestir seus filhos. "Embora pobres, me acolheram". Foi esta generosidade que a inspirou ao trabalho de hospitalidade para os migrantes.

Após seu retorno em 1997, ela trabalhou numa clínica no Texas para migrantes e crianças não acompanhadas da América Central. Em 2010, quatro irmãs de sua congregação abriram uma nova Comunidade em Douglas, Arizona. Seu ministério principal é trabalhar com migrantes adultos deportados em um centro de ajuda humanitária, localizado em Agua Prieta, município mexicano próximo à fronteira.

Refletindo sobre o seu ministério no deserto, Bourg recordou que em "uma manhã no deserto encontramos um homem de meia idade que veio tropeçando em nossa direção e desmaiou. Conseguimos reanimá-lo, pois tínhamos duas enfermeiras com a gente. Ele disse que tinha caminhado durante dias e não tinha outra posse exceto um prato feito de lata. Ficou sem água e bebeu sua própria urina. Esse é o motivo do prato. Ele decidiu descansar debaixo de uma árvore e continuar a sua viagem à noite. Acredito que nós salvamos a vida deste senhor."

Ela disse que suas “experiências mais alegres" são quando vê que os recipientes de água deixados são utilizados. Outra "memória especial", disse ela, foi quando encontrou as palavras "muchas gracias" esculpidas no chão em letras grandes. Depois de anos defendendo os direitos dos migrantes, disse Bourg, "acho esta ação humanitária direta no deserto tangivelmente gratificante. Eu acredito que através da simples ação de transporte de água no deserto, o sofrimento está sendo reduzido e vidas estão sendo salvas."

* Peter Tran é atualmente o diretor assistente do Redemptorist Renewal Center em Tucson [Centro de Renovação Redentorista, ndt], Arizona. Ele é ex-editor da Union of Catholic Asian News no principal escritório editorial em Bangkok. Durante seus anos como Redentorista, seu ministério foi extensivamente no campo do cuidado pastoral para os refugiados e migrantes nos Estados Unidos e no Vaticano.

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