"O Papa é herói para nós, climatologistas" O elogio do cientista anti-Trump

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20 Junho 2018

Michael Mann apresenta na Itália seu livro "La terra brucia (A terra queima)". E ele elogia Francisco: "Ainda bem que temos Francisco para promover a conscientização sobre as ameaças ao planeta"

A entrevista é de Sara Gandolfi, publicada por Corriere della Sera, 15-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Papa? Um "herói na luta contra as alterações climáticas". Donald Trump? "Ele não tem ideia alguma sobre o clima, deixa-se teleguiar". Michael E. Mann é o cientista que criou o primeiro modelo - ou "gráfico de bastão de hóquei" - capaz de explicar o pico da temperatura média do planeta de 1850 até hoje. Convidado na Itália para o Festival da Radiopop para a apresentação de seu livro La terra brucia (editora Hoepli), o diretor do Hearth Systems Science Center da Universidade Estadual da Pensilvânia, não tem dúvidas ao indicar qual é o maior líder do mundo no campo da defesa do nosso meio ambiente: Francisco.

Eis a entrevista.

Na semana passada, quarenta investidores e executivos da indústria petrolífera - incluindo o chefe da Exxon Mobil, Darren Woods - se reuniram no Vaticano com altos funcionários da Igreja. Boas notícias para o clima?

"Deixe-me dizer em primeiro lugar que o papa Francisco é um verdadeiro herói e é maravilhoso que ele esteja usando o imenso capital político e social à sua disposição para promover a conscientização sobre a ameaça ao planeta representada pela mudança climática antropogênica, ou seja, causada pelo homem. Fico curioso com o fato de ele tenha se encontrado com os principais executivos da indústria dos combustíveis fósseis para discutir o problema. Se alguém tem a capacidade de influenciar esses atores-chave, é o próprio Papa Francisco. Só ele pode pressionar esses grupos, que é o que a presidência Trump não está fazendo".

Por que o Trump é tão teimoso a esse respeito?

"Eu suspeito que Trump não tenha nenhuma opinião real sobre a mudança climática ou os combustíveis fósseis. Recebe ordens dos grupos de interesse que dirigem o Partido Republicano hoje nos Estados Unidos, a saber, as empresas de combustíveis fósseis como a ExxonMobil e os maiores financiadores de extrema direita, como os irmãos Koch. Trump, como eu escrevo em La terra brucia, é um fantoche nas mãos desses interesses. Eles dizem a ele o que fazer. Por exemplo, através das ações do administrador da EPA (agência governamental para o meio ambiente, nde) Scott Pruitt, que é essencialmente um agente dos irmãos Koch".

Sobre o encontro no Vaticano, a alta direção da Exxon Mobil declarou: "Nós acreditamos que esse tipo de diálogo possa ajudar a desenvolver soluções ao duplo desafio de gerenciar os riscos das mudanças climáticas e atender à crescente demanda de energia". Em sua opinião, o que poderia ser essa solução mágica?

"A Exxon Mobil usa belas palavras, mas ainda não demonstrou nenhum compromisso sério com a mudança climática. A solução existe: é a energia renovável. Uma pesquisa mostrou cientificamente que poderíamos abastecer a economia global apenas com energia renovável. Trata-se simplesmente de introduzir os incentivos econômicos corretos para acelerar a transição que já está ocorrendo, afastando-nos da energia dos combustíveis fósseis para nos orientarmos para a energia verde. Essa transição reflete a grande revolução econômica deste século. Os países que a seguirão, continuarão em frente, os outros perderão competitividade no mercado econômico global”.

Segundo o Papa Francisco, a mudança climática é "um dos principais desafios que a humanidade precisa enfrentar". Trump, durante a campanha eleitoral, chamou-o de "falso" ... Nesse cenário, o que fazem os outros países?

"Felizmente, outros países como a China e a UE estão se demonstrando firmes em seus propósitos, apesar da negação e intransigência por parte do governo Trump. Infelizmente, por enquanto, os Estados Unidos estão ficando atrasados em relação ao resto do mundo e sofrerão as consequências em termos de competitividade econômica e autoridade moral. Mas há progresso em nível local e estadual e muitas de nossas maiores empresas estão adotando uma postura proativa em relação à ação para o clima. Em breve, passaremos pela era obscura de Trump e dos Estados Unidos. Enquanto isso, a União Europeia e a China terão a oportunidade de assumir um papel de liderança".

O que é exatamente o "bastão de hóquei"- o Hockey Stick - que você idealizou?

"É um gráfico em curva que elaborei em conjunto com outros cientistas vinte anos atrás. Demonstra que o aquecimento do último século é sem precedentes, pelo menos nos últimos 1000 anos. Tornou-se um símbolo no debate sobre as mudanças climáticas por causa de sua poderosa mensagem. Consequentemente, foi brutalmente atacado pelos negacionistas da mudança climática, mas numerosos estudos independentes nas duas últimas décadas não só reafirmaram, mas ampliaram as nossas descobertas, indicando que o recente aquecimento é provavelmente sem precedentes em um período de tempo inclusive mais extenso, potencialmente dezenas de milhares de anos".

Os críticos dizem que as temperaturas não subiram tão rapidamente como previsto pelos cientistas. Isso não desacredita o seu modelo?

"O bastão de hóquei é uma estimativa da passada mudança de temperatura histórica, não prevê o aquecimento atual ou futuro. Dito isso, o aquecimento que vimos na última década é altamente coerente com o que os modelos climáticos previram."

Explicar as razões da ciência é muitas vezes enfadonho. Você acha que encontrou uma maneira de convencer a opinião pública?

"Eu faço o meu melhor. Os cientistas devem ser sinceros, sobre o que sabem e o que não sabem. Os negacionistas da mudança climática, por outro lado, não têm tais restrições. Eles podem deturpar os fatos em vez de informar. Isso significa que os cientistas que escolhem ser comunicadores devem ser ainda mais eficazes. Eu uso o humor e a sátira para comunicar verdades difíceis. Por isso colaborei com um cartunista para o meu livro, Tom Toles, do Washington Post."

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