Peru. A “democracia” dos Fujimoris

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 14 Junho 2018

Na quinta-feira, 7-6-2018, Kenji Fujimori, teve o seu mandato de deputado peruano suspenso. Por duas vezes foi o deputado mais votado do país, filho de Alberto Fujimori, ex-ditador do país e herdeiro da maior oligarquia peruana. Vitória da oposição? Vitória do fujimorismo. Keiko Fujimori, irmã mais velha, derrotada pelo ex-presidente Pedro Pablo Kuczkinsky nas eleições presidenciais de 2016, se afirma como a principal liderança política do país e alcançou influência no atual governo de Martin Vizcarra.

Um breve resumo da faceta democrática do fujimorismo.

Alberto Fujimori foi eleito presidente do Peru em 1990, derrotando o escritor, prêmio nobel de literatura, Mario Vargas Llosa. A ascensão da família nipo-peruana ao poder político reconfigurou a política do país. Os dez anos de governo, garantidos pelo voto, foram motores da expansão neoliberal, com inúmeras transgressões aos direitos humanos e denúncias de corrupção. O patriarca Fujimori saiu do poder em 2000 depois de ser destituído pelo congresso e posteriormente prisão decretada pelos crimes de corrupção, censura dos meio-de-comunicação e lesa-humanidade.

Ao assumir o poder em 1990, Alberto preencheu os cargos do executivo com o sobrenome Fujimori. Desde seus filhos às cunhadas estiveram presentes na administração do seu governo. Susana Higuchi, assumiu o posto de primeira-dama, até 1992, enquanto foi casada com o chefe da família/Estado. A separação deu-se porque Higuchi acusou suas cunhadas Rosa e Clorinda Fujimori de lavagem de dinheiro. Alberto exigiu retratação. O congresso com grande força da oposição aprista foi um freio no poder político do executivo. Diante de um governo por decretos e violações de direitos humanos, Fujimori declarou em abril de 1992 o fechamento do congresso. Sem oposição a dinastia ganhava força.

Dada a crise na família/estado, ocorre a separação de Alberto e Susana. O fujimorismo desde que esteve no poder soube tirar vantagem das crises. Keiko Fujimori, a primogênita, torna-se primeira-dama em 1994, aos 19 anos. Foi a figura carismática do governo de seu pai, sem o mesmo protagonismo político de Vladimiro Montesinos, chefe do Serviço de Inteligência Nacional, assessor principal da presidência, e que também foi preso por corrupção e crimes contra a humanidade.

Alberto Fujimori foi preso no Chile, em 2005 e extraditado para o Peru em 2007. Em 2017, o então presidente Pedro Pablo Kuczynski, eleito contra Keiko no segundo turno em 2016, concedeu-lhe indulto humanitário, alguns dias após Kenji garantir votos do Fuerza Popular para barrar o processo de impeachment que se executava na câmara.

O principado fujimorista: a guerra de Keiko e Kenji

Com as acusações a Alberto, Keiko assumiu o legado do fujimorismo. Em 2006, tornou-se a deputada mais votada do país. Em 2010 assumiu a presidência do Fuerza Popular, partido criado pela fusão do Cambio 90, do tradicional fujimorismo, e o Nueva Mayoria, criado durante os anos 1990 e base de apoio do governo.

Keiko foi candidata à presidência em 2011 e perdeu para Ollanta Humala. Um candidato de centro-esquerda que representava uma via diferente da tradicional, aprista. A direita liberal, da qual Vargas Llosa faz parte, foi oposição ao fujimorismo. A família nipo-peruana manteve consigo a marca dos anos de repressão e autoritarismo.

Com a memória mantida viva e atuante, mesmo na democracia, o fujimorismo está sempre presente. Além de Keiko ir ao segundo turno do pleito executivo em 2011 e 2016, Kenji foi nas duas eleições o congressista mais votado, também pela Fuerza Popular. Os dois irmãos são os únicos nomes da família em atividade política. Outros protagonistas da história, Rosa, Juana e Pedro Fujimori, que são seus tios, fugiram para o Japão na mesma época do exílio de Alberto, todos acusados de enriquecimento ilícito.

A controversa história dos Fujimoris seguiu em conflito. Keiko e Kenji rivalizam e protagonizam a crise política que resultou na renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczinsky, em março de 2018. Depois das divergências na primeira denúncia, em dezembro de 2017, a disputa pelo legado da família estremeceu. Em fevereiro de 2018, Kenji foi gravado negociando votos de apoio ao presidente PPK. O irmão mais declarou “lamento as atitudes delinquentes de Keiko e da Fuerza Popular”. Sua irmã foi a principal divulgadora das gravações.

Com as denúncias de envolvimento com a Odebrecht e enfraquecido, PPK renunciou à presidência. Martín Vizcarra, vice-presidente e embaixador do Peru nos EUA, assumiu o cargo. A esquerda peruana defendeu novas eleições. Keiko, mesmo sendo a segunda colocada em 2016, não. A renúncia de PPK junto o desenrolar dos fatos com seu irmão, foi sua vitória pessoal.

Na quinta-feira, 7-6-2018, num placar de 58 x 3, Kenji foi suspenso do congresso. Entrevistado após a sessão afirmou, “Keiko, aqui tens a minha cabeça”. A sessão está sendo acusada de autoritária, segundo o deputado aprista Jorge Del Castillo, “é a expressão mais obscura do fujimorismo dos anos 90”.

A desaprovação ao governo de Martin Vizcarra em um mês passou de 19% para 44%. O presidente é julgado popularmente por não ter pulso firme na presidência. O jornalista Raúl Tola, do jornal La Mula, analisa que “Seu problema não é só de estatística. Seu pacto de submissão com o fujimorismo pode começar a cambalear quando o seu governo perder o respaldo das ruas. Quanto mais impopular seja Vizcarra, mais prescindível será para a Fuerza Popular não lhe apertar as mãos. Já fizeram com PPK e Kenji Fujimori, filho do fundador do movimento e irmão da sua atual liderança. A FP volta a demonstrar que na hora de se vingar e de demonstrar seu poder, não se importa de violar sistematicamente a constituição, nem a consequência, nem a utilidade de seus atos. Simplesmente é demonstrar a força pela força”.

No congresso, logo depois de aprovar a suspensão de Kenji, o fujimorismo apresentou outro projeto que viola os direitos democráticos. Intitulado como “Lei para o desenvolvimento da cinematografia e do audiovisual peruano” prevê que sejam censurados filmes que façam apologia ao terrorismo.

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