O que significa a renúncia de PPK?

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Por: Nicolás Lynch | 27 Março 2018

Na quarta-feira, 21-3-2018, o agora ex-presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski — PPK, apresentou sua carta de renúncia. O fato foi causado pelo vazamento de vídeos de suposta compra de votos contra a denúncia de impeachment. Em dezembro PPK enfrentou um primeiro pedido de impeachment, por envolvimentos ilícitos com a empreiteira brasileira Odebrecht. Poucos dias depois de barrar o processo na Câmara, o presidente promulgou um indulto humanitário a Alberto Fujimori, ex-ditador, e preso desde 2005. Na ocasião, já levantou-se a suspeita pela imprensa local que houve acordo com a oposição fujimorista.

A divulgação dos vídeos foi feita pela filha do ex-ditador Keiko Fujimori, principal liderança da oposição, segunda colocada nas eleições presidenciais de 2016. Nesse caso, Keiko enfrentou seu irmão Kenji, diretamente ligado com a compra de votos. O partido fujimorista Fuerza Popular possui ampla vantagem de assentos no Congresso.

Na sexta-feira, 23-3-2018, o vice-presidente, e embaixador do Peru no Canadá, Martín Vizcarra assumiu a chefia do executivo. O novo presidente recebeu saudações de Keiko Fujimori. Já o movimento Nuevo Peru, de Verónika Mendoza, terceira colocada nas eleições, tem exigido a convocação de eleições gerais.

O embaixador peruano na Argentina, Nicolás Lynch, debate os elementos estruturais por trás dessa renúncia, no artigo ¿Qué significa la renuncia de PPK?, publicado por OtraMirada, em 23-3-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

Completada a renúncia de PPK à Presidência da República convém-nos em insistir que essa não é uma crise de governo, para além da pessoa e os motivos expostos, é uma crise de regime e inclusive de Estado. Kuczynski não é qualquer personagem, como nos recorda Manuel Dammert por mais de uma década, mas sim o articulador mais importante dessa relação perversa entre economia e política que tem sido chamada de "capitalismo de compadres", na qual para fazer grandes negócios no Peru você precisa ter amigos nas posições-chave do Estado.

Isso tem sido certo especialmente no último quarto de século, quando, primeiro na ditadura e depois na democracia, vimos os compadres no poder. Primeiro, operando um modelo econômico que serviu para o mega enriquecimento de alguns, seu entorno e seus sócios estrangeiros, porém sem criar trabalho, nem reduzir nosso altíssimo índice de desigualdade. Por isso, destruíram o pouco que tínhamos de Estado e privatizaram os bens públicos e sociais que eventualmente poderiam garantir algum direito às maiorias nacionais. Porém, a norma sempre foi colocar o interesse privado, ou o pessoal, acima dos interesses públicos. Não é casualidade que a primeira versão do modelo, o fujimontesinismo, terminara em um escândalo de corrupção que foi tristemente lembrado há poucos dias.

Para assegurarem seus ganhos e controles, indispensáveis dos compadres, organizaram um regime político de minorias, onde governaram diretamente com [Alberto] Fujimori e [Vladimiro] Montesinos e, logo, comprando candidatos e presidentes na democracia precária dos últimos 18 anos. Não é causalidade que todos os governos nesse longo tempo — com poucas exceções — tiveram ministros da mesma irmandade, na qual o único lema é “cavalheiro poderoso é o dom dinheiro”.

Kuczynski foi então esse fio que atravessava o Estado, regime e governo para servir à desnacionalização, privatização e elitização do Peru. Sua saída é importante, porém não garante nada. Sai de cena um personagem central, mas ficam os demais e a mesma configuração. Se não há transformações centrais na economia e na democracia, os compadres vão continuar explorando nossas riquezas para seu benefício e elegendo a quem lhes sirvam como governantes.

A renúncia de PPK, por isso, pode ser uma oportunidade, o início de uma nova era para o Peru.

Por isso, digo que a atual crise não tem solução nas alturas, nem com uma troca de pessoa. Nisso eles, o poder e os grandes meios de comunicação, vão se esforçar para nos convencer nos próximos dias, e a isso todos nós, democratas, juntos, devemos nos opor. A mobilização tem que vir desde abajo e com o objetivo manifestado de abrir um processo constituinte que nos leve a uma Nova República Democrática, uma ordem alternativa à atual. Qualquer outra coisa será mais do mesmo para repetir os despropósitos a que estamos acostumados e negarmos um futuro às seguintes gerações.

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