Por que evitar beber água engarrafada?

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16 Maio 2018

"O mais importante e urgente é parar de consumir água engarrafada, fazendo com que ela seja comprada apenas quando estritamente necessária. Muitas pessoas têm as suas garrafas permanentes que carregam com água filtrada quando estão na rua, no trabalho ou em eventos. Agindo assim estaremos protegendo as nossas águas e deixando uma herança que não tem preço para as gerações futuras", escreve Flávio José Rocha, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e administra a página Observatório da Privatização da Água no Facebook, em artigo publicado por EcoDebate, 15-05-2018.

Eis o artigo.

Por que evitar beber água engarrafada? As exigências do mundo urbano fizeram com que o tratamento da água passasse a ser uma política pública de saúde. Governos foram obrigados a melhorar e expandir os serviços de saneamento no início do século XX porque a qualidade da água consumida pelas populações de algumas cidades estavam aquém do aceitável de acordo com as autoridades sanitárias da época. Grande parte deste processo deve-se ao avanço da Ciência que resultou na conclusão de que existia uma relação entre algumas doenças e o consumo de águas contaminadas. O tratamento da água buscava garantir a diminuição destas doenças transmitidas por bactérias para as populações consumidoras.

Mesmo com o avanço no tratamento da água, todos nós sabemos que nem sempre (mais frequente do que desejamos) a nossa água é bem tratada.[1] Resta a muitas pessoas pagar por uma água que acreditam ser pura, a exemplo da água mineral engarrafada. A crença na pureza da água engarrafada alimenta a venda deste “produto” por empresas brasileiras e, nos últimos anos por multinacionais, gerando muito lucro com este comércio, embora o aumento exponencial do seu consumo contribua para o avanço da exploração desenfreada das suas fontes.

O hábito de beber água engarrafada popularizou-se muito recentemente em parte pelo medo de que a água que abastece as nossas casas esteja contaminada pela falta de um tratamento adequado e seja impura. Por estarem armazenadas no subsolo, há uma crença de que as águas minerais estão protegidas. Mas seria isso verdade com relação aos agrotóxicos que penetram nos lençóis freáticos, por exemplo?[2] Entretanto, como bem mostra o vídeo A História da Água Engarrafada,[3] os consumidores podem, em alguns casos, estar consumindo uma água não tão pura como imaginam. Em outros casos, a água engarrafada não é mineral e sim água adicionada de sais.[4] Temos ainda as águas gaseificadas artificialmente, resultado de um processo industrial, diferente da água com gás natural.

Os brasileiros estão entre os dez maiores consumidores deste “produto” em mundo que engarrafa mais de 300 bilhões de litros de água por ano. É um negócio que movimenta muito dinheiro e é bastante lucrativo. Como não ser lucrativo um “produto” que já vem pronto para o consumo e basta ser embalado e transportado para o local da venda?

Mas não é em todo o mundo que o consumo de água engarrafada vem aumentando. Nos países nórdicos o consumo de água mineral caiu em parte porque foi constado que a qualidade da água da torneira é superior à engarrafada e estudos mostraram o desperdício de recursos naturais, entre outros, com o seu transporte da fonte até chegar aos consumidores (Pietila et al, 2013). Além disso, o descarte das garrafas plásticas utilizadas para o seu engarrafamento é uma verdadeira praga para os rios e os oceanos,[5] sem contar que muitas das garrafas descartadas nos países do norte do globo vão parar nos lixões de países de outros continentes (Barlow, 2009). A cidade de Londres planeja instalar fontes de água pela cidade para evitar o consumo de água engarrafada e o descarte de plástico no meio ambiente. Apenas a questão dos plásticos que poluem o planeta já valeria como um bom motivo para consumir água engarrafada apenas quando não houvesse uma outra opção. Além dos motivos já elencados acima, muitas vezes um litro de água mineral custa mais do que um litro de gasolina. Motivações como essa fizeram surgir no Canadá o movimento Ban the Bottle para desencorajar o consumo de água engarrafa e no Brasil há um sítio eletrônico chamado Água na Jarra que incentiva o consumo de água tratada não engarrafada em eventos e restaurantes.[6]

Mercado que movimenta milhões no mundo, a água engarrafada entrou no rol de produtos muito rentáveis para grandes empresas. No caso brasileiro, este mercado é dominado ainda por muitas empresas locais, mas a tendência é que as grandes empresas comecem a abocanhá-lo. Mas por que o interesse das multinacionais pelas nossas águas minerais? Com o avanço do conhecimento científico sobre os malefícios dos refrigerantes e outras bebidas industrializadas, muitas pessoas voltaram-se para o consumo dos chás ou das águas minerais como uma opção mais saudável e isso afetou o faturamento das indústrias dos ramos de refrigerantes. O novo foco é a venda de água mineral e chás, já que a venda de seus produtos açucarados como os refrigerantes estão em queda em todo mundo dado a epidemia de obesidade.[7] O passo mais lógico do ponto de vista mercadológico para as empresas do ramo das bebidas foi adentrar em um mercado em ascensão e é exatamente isso que elas estão fazendo.

A chegada das grandes empresas na exploração das fontes de água mineral também traz o medo do descompromisso com o meio ambiente. O caso mais famoso até agora no Brasil foi o das fontes das águas minerais de São Lourenço, em Minas Gerais, concedidas para exploração à Nestlé nos anos noventa. O conflito entre moradores daquele município mineiro e a multinacional suíça revelou que algo novo estava acontecendo no mercado das águas minerais nacionais. A Nestlé é acusada por moradores daquele município de causar dano ambiental porque algumas fontes secaram com a exploração exaustiva feita pela empresa, segundo alguns moradores da cidade.[8]

Mas não é apenas em São Lourenço que há conflitos envolvendo a exploração de água mineral em Minas Gerais. Organização sociais reclamam que o Governador do Estado, Fernando Pimentel, está tentando privatizar a CODEMIG – Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais – e as populações de algumas cidades do sul de Minas denunciam que pode acontecer com as fontes de águas minerais daqueles municípios o mesmo que aconteceu em São Lourenço, já que a proposta do governador petista é repassar 49% das ações da CODEMIG para investidores privados e isso pode influenciar as decisões sobre concessões para a inciativa privada explorar as fontes de águas minerais daquelas localidades, fato já consumado em Caxambu e Cambuquira recentemente quando estas tiveram algumas de suas fontes concedidas por 15 anos (podendo ser renovadas por mais 15 anos) para empresas privadas. Araxá, Lambari e Contendas também estão na fila da CODEMIG para o mesmo processo. Vale destacar aqui o valor terapêutico dessas águas. Estas cidades são visitadas durante todo o ano por turistas que querem beber ou aproveitar os banhos receitados como terapias para a cura de várias doenças.[9]

O medo de muitos que se opõem a exploração das nossas águas minerais por grandes empresas é que se repita o que já aconteceu com tantas outras das nossas riquezas naturais como o Pau-Brasil e o ouro, para citar dois exemplos. Como de praxe, empresas vem, lucram, exploram a exaustão e vão embora. É um ciclo vicioso que não para e move a roda da fortuna parando sempre no mesmo lugar, e este nunca é o dos mais pobres. Algumas coisas que podemos fazer para começar a mudar esta situação é começar a denunciar a exploração desenfreadas das nossas águas minerais. Porém, o mais importante e urgente é parar de consumir água engarrafada, fazendo com que ela seja comprada apenas quando estritamente necessária. Muitas pessoas têm as suas garrafas permanentes que carregam com água filtrada quando estão na rua, no trabalho ou em eventos. Agindo assim estaremos protegendo as nossas águas e deixando uma herança que não tem preço para as gerações futuras.

Referências Bibliográficas:

BARLOW, Maude. El convenio azul: la crisis del agua y la batalla futura por el direcho al agua. Santiago: Chile Sustentable. 2009.

Pietila et al, Serviços descenbtralizados: a experiência nórdica. In HELLER, Leo; CASTRO, José Esteban (Orgs.) Política pública e gestão de saneamento. Belo Horizonte: Editora UFMG; editora Fiocruz. 2013. pp. 294-312.

Notas:

[1] A cidade de Nova Iorque fornece água aos seus habitantes que não passa por tratamento químico. O investimento financeiro é feito na proteção da água das nascentes e dos rios que abastece aquela cidade e não na compra de produtos para tratá-la. Veja interessante reportagem do Globo Rural

[2]  Leia artigo A química por trás da água de torneira e da água mineral.

[3]  O vídeo pode ser visto no Youtube.

[4] Confira algumas diferenças entre a água mineral e a água adicionada de sais.

[5] Em 2009 a cidade de Concord, nos Estados Unidos, proibiu a venda de água mineral em garrafas com menos de 1 litro como uma forma de desestimular o consumo de água mineral, movimento iniciado em uma cidade da Austrália. Outras cidades e universidades estão seguindo o mesmo exemplo em vários outros países. Leia reportagem sobre Concord.

[6] Confira o blog do Ban the Bottle e o sítio eletrônico do Água na Garrafa.

[7] O ótimo documentário Criança, a alma do negócio mostra quanto de açúcar é consumido nos refrigerantes.

[8]  Matéria do portal Pública de 2014 sobre o conflito envolvendo a Nestlé e moradores de São Lourenço.

[9] Crenoterapia é o ramo da medicina que estuda o poder curativo das águas minerais.

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