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02 Abril 2018

O que fazer a partir disso no futuro é o grande desafio.

A reportagem é de André Trigueiro, publicada por Folha de S. Paulo, 1º-04-2018.

Não se mede o resultado de um evento pelo seu tamanho ou custo, mas pela capacidade de gerar reflexão e atitude, transformando informação em nutriente para a mudança. Foi o que aconteceu na maior edição da história do Fórum Mundial da Água, que reuniu mais de 100 mil pessoas em Brasília.

Em pleno racionamento de água, o governo do Distrito Federal foi obrigado a admitir que, além da falta de chuva, houve desleixo na proteção das nascentes e mananciais e na contenção das invasões que ocuparam as margens dos reservatórios, algo recorrente em outras partes do país.

O IBGE divulgou no fórum o mais completo estudo já feito sobre a importância da água para o PIB.

Maior demandante dentre os setores, a agropecuária foi apontada como o menos eficiente no uso do recurso, gerando R$ 11 a cada mil litros consumidos (na média, para cada mil litros consumidos pela economia nacional, o retorno é de R$ 169).

Sem priorizar o uso sustentável de água nas lavouras, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) lançou no evento a Comissão Nacional de Irrigação, com o objetivo de dobrar a área irrigada num futuro próximo. O problema é que não haverá futuro se as técnicas de irrigação prevalentes (pivô central, aspersores, inundação) não forem modernizadas, ajustando a oferta à demanda de cada planta.

Num país onde as águas são castigadas pelos resíduos de fertilizantes e agrotóxicos, pelos esgotos sem tratamento de quase 100 milhões de pessoas, pelos metais pesados despejados por garimpeiros ilegais, entre outros impactos, o senso de urgência trazido pelo fórum gerou novas disposições para enfrentar velhos problemas.

Os exemplos de Israel, Austrália e Cingapura foram inspiradores. A gravíssima crise da Cidade do Cabo —primeira metrópole dos tempos modernos a enfrentar o risco real de deixar sem água 4 milhões de pessoas— serve de alerta para os incautos.

Grandes empresas como Coca-Cola e Nestlé (que utilizam gigantescas quantidades de água em seus processos e entendem esse bem público como um produto) parecem hoje mais preocupadas em se livrar da mira de ONGs e personalidades influentes que denunciam o risco dos seus negócios ameaçarem o abastecimento de comunidades inteiras.

Em resumo: o país campeão de água doce parece ter percebido o ridículo que é ostentar a abundância (concentrada na região Norte, onde reside apenas 8% da população) quando os cenários de escassez por omissão, leniência e imperícia se avizinham perigosamente. O legado do fórum é excelente. O que realizar a partir disso é o grande desafio.

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