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16 Abril 2018

O Sínodo dos Bispos da Pan-Amazônia deu um novo passo, desta vez importante, após dois dias de reunião do Conselho Pré-Sinodal e dos assessores, realizada no Vaticano nos dias 12 e 13 de abril. Após a discussão do conteúdo do material preparado, foi aprovado o documento de trabalho, ainda não divulgado, que estabelece os passos a serem seguidos, especialmente todo o trabalho que será realizado nas comunidades da Amazônia para ouvir a voz e saber o que pensam os povos que moram na região.

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 14-04-2018. A tradução é de André Langer.

Em primeiro lugar, vale destacar um aspecto que tem sido ressaltado com surpresa e admiração por muitos dos presentes, que foi a escuta silenciosa, a presença amiga, fraterna, serena e alegre do Papa Francisco, que participou de todo o encontro, conversando com todos os participantes durante os intervalos, tirando fotos, mas sobretudo querendo conhecer, informar-se sobre as realidades tão complexas, profundas e diferentes que encerram a Amazônia e seus povos.

Numa sociedade em que muitos dizem a primeira coisa que vem à mente, o Bispo de Roma, que poderia usar seu poder para dizer o que gostaria, inclusive para falar ex cathedra, prefere ouvir em silêncio, porque conhece e reconhece a verdade do que durante o encontro indicou um dos assessores, o único presente indígena, Justino Sarmento Rezende, salesiano brasileiro. O membro do povo Tuyuka disse aos presentes: “quem mora aqui (no Vaticano), não sabe quais são os caminhos da Amazônia, mas nós que estamos ali, podemos dizer quais são os caminhos que a Igreja pode tomar”.

Por isso, o padre tuyuka agradeceu o fato de que “a Igreja está olhando para nós, com o coração voltado para nós, com a mente, está depositando em nós, povos da Amazônia, a esperança de receber importantes contribuições para que a Igreja seja cada vez mais local e universal. Nós, povos indígenas, povos evangelizados e hoje evangelizadores, temos como contribuir também para o enriquecimento da nossa Igreja”.

De fato, o padre Justino Rezende reconhece que participar dessa reunião foi “uma experiência muito interessante e decisiva para mim, pessoalmente, como indígena, religioso salesiano e sacerdote”. Não em vão, dizia que “estou aqui falando em nome dos povos da Amazônia e especialmente em nome dos povos indígenas”. Em nome de seus parentes, pedia aos presentes, incluindo o Papa, que “nos vejam como filhos seus, como irmãos seus, porque você é nosso irmão maior, nosso guia, nosso pastor”.

Preparar um material que reúna essa diversidade de culturas, espiritualidades, realidades e sentimentos como os que estão presentes na Amazônia não foi uma tarefa fácil para os assessores: Márcia Maria de Oliveira, Justino Sarmento Rezende, Paulo Suess, Peter Hughes e Fernando Héctor Roca Alcázar. Nesse sentido, a socióloga brasileira Márcia de Oliveira, reconhece que “este trabalho foi um dos mais exigentes dos últimos tempos, mas teve um resultado muito positivo”. Ela destacava no final da reunião, que se surpreendeu positivamente com a recepção de suas exposições por parte de pessoas que também são especialistas na área.

Este é um sentimento compartilhado por Justino Rezende, que disse que “estava muito preocupado com a recepção daquilo que nós elaboramos como textos iniciais”. Nesse sentido, destaca “a posição aberta dos irmãos bispos, que contribuíram muito, de modo que o documento foi bastante enriquecido”. Para o salesiano indígena, “era importante destacar alguns elementos das imensas riquezas que os povos indígenas têm, o que também representava um medo para mim: como expressar os pensamentos, as experiências, as expectativas dos povos indígenas da região Pan-Amazônica?”

Mas, segundo ele, “muitas coisas virão da consulta e da participação de todos os organismos, comunidades e dioceses que darão suas contribuições. Será um momento muito importante para rever a caminhada da Igreja Católica, presente em nossa região amazônica, para propor novos caminhos para nossas vidas, novos compromissos sociais com a defesa da natureza, com a organização do nosso modo de viver: economia, sustentabilidade, vida religiosa e pastoral”.

O objetivo final não é outro senão aquele destacado por Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho, e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI): “que tudo seja um caminho para a fraternidade, para a superação da violência e das injustiças que vivemos nesta linda Amazônia”. O arcebispo insiste em que “a partir do texto que está sendo estudado, fomos discutindo caminhos que queremos traçar com este Sínodo da Amazônia”. O também brasileiro e bispo de Juína, Dom Neri José Tondello, destacou “a orientação de ouvir as comunidades da Amazônia, principalmente os indígenas, os ribeirinhos, os povos que constituem essa porção do povo de Deus”.

Junto com eles, Dom Erwin Kräutler, bispo emérito da Prelazia do Xingu, cuja voz e atitude proféticas sempre gozaram de grande respeito dentro da Igreja da Amazônia, destacou a “impressionante sintonia entre os participantes”. Dom Kräutler destacou a alegria “com o resultado que alcançamos: cada um podia dizer o que pensava”. Esse sentimento também foi compartilhado pelo espanhol Rafael Cob, bispo do Vicariato de Puyo, Equador, que disse que “tudo correu muito bem, em um clima muito fraterno, cada um dando suas contribuições à medida que íamos lendo o rascunho”.

O Sínodo da Amazônia é considerado por muitos como um momento decisivo para o futuro da Igreja Católica e para as reformas que o Papa Francisco pretende realizar, pois, como Justino Rezende assinala, “através deste Sínodo, temos uma grande e importante oportunidade para inovar na nossa Igreja, presente na Amazônia”, insistindo em que “os povos da Amazônia esperam muito deste Sínodo”.

É um novo passo de uma história construída com “a vida de tantos missionários, missionárias, sacerdotes e bispos que deram suas vidas conosco, defendendo nossas culturas e foram martirizados”, reconhece o padre indígena, que lhes agradeceu, porque “por eles podemos dizer que estamos vivos até hoje, porque se não fosse a Igreja, possivelmente já teríamos sido aniquilados”.

São “missionários que, apesar de não serem indígenas, assumiram rostos indígenas, aprenderam a falar nossas línguas, aprenderam nossas tradições e não quiseram voltar para cá (Europa), estão enterrados lá”, segundo Justino Rezende, pessoas que, “pelo trabalho missionário, fizeram surgir muitos leigos comprometidos com a Igreja, como catequistas, ministros extraordinários da Palavra, da Eucaristia, religiosos, religiosas e sacerdotes”, reconheceu o religioso.

Sem dúvida, uma história que, com novos caminhos, deve continuar. “Coloquemos todos os nossos trabalhos nas mãos de Deus”, disse o Papa Francisco aos presentes no final da reunião, para que “este Sínodo seja a manifestação de Deus para nós”, segundo o padre Justino Rezende, para quem “o Sínodo de outubro de 2019 será um ponto de chegada. Gostaria que todos os povos que habitam esta região possam participar de forma alegre, serena e positiva, de modo esperançoso, pois da contribuição de cada um virão muitas coisas importantes”.

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