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19 Março 2018

Durante o papado de João Paulo II, o jornal semioficial do Vaticano, L'Osservatore Romano, era regularmente ridicularizado como a versão da Igreja de Pravda – o jornal sensacionalista e propagandista promovido pelo partido comunista na antiga União Soviética sob a bandeira da "verdade".

O jornal do Vaticano, que se tornou um receptáculo de discursos papais oficiais e documentos emitidos durante o pontificado do Papa que se tornara santo, por vezes publicava editoriais defendendo até mesmo as mais indefensáveis políticas e ações do papado e da Santa Sé. Assim como Pravda, era o órgão oficial do "comitê central" da Igreja.

A reportagem é de Robert Mickens, publicada por La Croix International, 16-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

É uma grande ironia que o L'Osservatore Romano talvez tenha persistido, apesar dos pesares, como o último e mais confiável baluarte do Vaticano contra a própria propaganda e "distorção" que já foi acusado de disseminar.

Sua credibilidade só tem aumentado nos últimos três anos, desde junho de 2015, quando o Papa Francisco confiou ao Mons. Dario Viganò – um sacerdote de Milão cujo estranho motivo para a fama é ser especialista em cinema italiano – a árdua tarefa de radicalmente reformar e consolidar o setor de imprensa, amplamente descoordenado, multifacetado e subfinanciado do Vaticano.

As pessoas geralmente têm dificuldades em se adaptar às mudanças (principalmente quando não são consultadas). Portanto, geralmente os reformadores não são acolhidos com um abraço caloroso. Mas não é exagero dizer que Viganò, de 55 anos, talvez seja um dos funcionários mais impopulares em toda a Cúria Romana, pelo menos entre as várias centenas de funcionários que estão diretamente ligados à Secretaria para a Comunicação da qual ele é prefeito.

Suas táticas de destruição e o fato de não fornecer detalhes precisos sobre como esse novo conglomerado multimidiático vai ser no final afastaram os jornalistas, editores e técnicos da equipe.

Funcionários da antiga Rádio Vaticano – que Viganò fechou sem a menor cerimônia no ano passado – e que trabalham em outros setores relacionados a comunicações incorporados ao seu gabinete – como a gráfica, a sala de imprensa, o centro de produção de televisão e cinema, entre outros – falam de um "mal-estar geral", uma "confusão" e uma "falta de direção clara" causados pela reforma.

Em seu departamento, com um orçamento apertado, o prefeito milanês eliminou um número considerável de funcionários, incentivando alguns a se aposentarem antecipadamente e demitindo outros que tinham contrato permanente. Além disso, ele não permite mais que sejam pagas horas extras aos funcionários de meio-período (ou seja, que trabalham menos do que 36 horas por semana). Ele também transferiu pessoas de um escritório para outro, algumas várias vezes em pouco tempo.

Os funcionários do departamento de comunicações estão entre os que mais apoiam o direcionamento e a visão global do pontificado do Papa Francisco no Vaticano. Mas eles permanecem profundamente perturbados e confusos porque o Papa deu carta branca ao prefeito para buscar o que parece ser uma reforma guiada por uma mentalidade que dispensa o planejamento.

Depois de quase três anos, a maioria dos setores de comunicações e imprensa, que antes eram independentes, passou a ser firmemente controlada pelo mega-dicastério de Viganò. O L'Osservatore Romano é uma das exceções – por enquanto. Seu editor-chefe e seus funcionários mais experientes estão resistindo ao plano do prefeito (sancionado pelo Papa Francisco), de forma silenciosa, mas tenaz, de colocar o jornal de quase 160 anos sob o comando da secretaria também.

Nos últimos dias, a resistência do L'Osservatore ficou mais rígida e a exasperação dos outros funcionários do setor de comunicações do Vaticano só tem aumentado. Isso foi ocasionado por um incidente que levou outros veículos de imprensa católicos e seculares a criticar severamente o Mons. Viganò por manipular uma carta de Bento XVI. Ele fez isso para tentar mostrar que o antigo Papa e líder do escritório doutrinal do Vaticano por muito tempo apoiava totalmente as credenciais teológicas do Papa Francisco, algo que os críticos do Papa jesuíta têm posto em causa.

Se você não ficou sabendo da história original, veja aqui a notícia do "Vatican Media", o portal de notícias e informações dirigido pela Secretaria para a Comunicação:

"Sobre o magistério do Papa Francisco, Bento escreve que ‘há unidade interior' entre seu pontificado e o do Papa Francisco, seu sucessor. A carta do Papa Bento XVI foi apresentada por seu destinatário, Mons. Dario Edoardo Viganò, durante uma conferência de imprensa lançando 'A teologia do Papa Francisco', uma série de 11 livros escritos por diferentes autores e publicada pela Libreria Editrice Vaticana. A conferência de imprensa foi realizada na Sala Marconi, na sede do Vatican Media".

O relatório interno continua a citar o antigo Papa:

“Aplaudo esta iniciativa que se opõe e reage ao preconceito tolo segundo o qual o Papa Francisco seria apenas um homem prático desprovido de formação teológica ou filosófica específica, enquanto eu seria unicamente um estudioso da teologia que pouco entendia da vida concreta de um cristão de hoje” (sic.), escreveu ele.

Mas o Vatican Media omitiu uma parte importante da carta do Bento XVI, que coloca seus comentários num contexto bastante diferente:

"Não me sinto disposto a escrever uma breve e densa página teológica [sobre os livros] porque em toda a minha vida sempre esteve claro que eu só ia escrever e me expressar sobre livros que também tivesse verdadeiramente lido. Infelizmente, mesmo que apenas por razões físicas, não consigo ler os 11 pequenos volumes (volumetti) em breve, ainda mais já tendo outras obrigações com as quais concordei".

Traduzindo, ele disse: "Obrigado, mas não. Tenho outras coisas mais urgentes para fazer, agora e no futuro, do que ler esses pequenos volumes".

Depois, o próprio Vatican Media publicou um vídeo do Mons. Viganò (em italiano, com legendas em inglês), em que o prefeito também intencionalmente omite qualquer referência ao fato de que Bento XVI recusou o convite para escrever para a série de breves livros/ensaios.

Além disso, a Secretaria para a Comunicação, através da Sala de Imprensa da Santa Sé e do site de notícias Vatican News, divulgou uma foto "artística" da carta de Bento XVI com a coleção de livros com alguns retoques.

"Os retoques da foto são significativos porque a mídia depende dos fotógrafos do Vaticano para obter imagens do Papa em eventos que são fechados para a mídia independentes", observou a correspondente da Associated Press em Roma, Nicole Winfield.

A avaliação é severa

"Grande parte da mídia independente, como a Associated Press, segue normas rígidas que proíbem a manipulação digital de fotos", observou Winfield.

"Nenhum elemento deve ser digitalmente adicionado ou subtraído de qualquer fotografia", de acordo com as normas da AP, consideradas padrão entre as agências de notícias.

A foto distorcida e a citação enganosa da carta do Papa Bento XVI teriam passado despercebidas se Sandro Magister, um dos poucos jornalistas que estava realmente presente no lançamento do livro, não tinha chamado a atenção para a travessura de Viganò.

O experiente observador do Vaticano, um dos mais críticos do atual pontificado, destacou que Mons. Viganò tinha lido a carta na íntegra na apresentação da série de livros. Mas nos materiais distribuídos pelo padre-prefeito no lançamento e em todas as informações que ele e a mídia do Vaticano forneceram aos jornalistas e ao público não há rastro ou menção ao parágrafo menos lisonjeiro.

Isso é surpreendente, pois o Papa Francisco, em sua mais recente mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, condena a divulgação de "informações falsas, com base em dados inexistentes ou distorcidos, no intuito de enganar e manipular o leitor".

"Divulgar notícias falsas pode servir para atingir objetivos específicos, influenciar decisões políticas e servir a interesses econômicos", diz o Papa em sua mensagem, que – ironicamente – é geralmente preparada, pelo menos a primeira versão, pelo dicastério de Viganò.

Quase ninguém sabe como o prefeito chegou aonde chegou. Na verdade, parece que ninguém consegue identificar as pessoas influentes (provavelmente na hierarquia italiana) que o ajudaram a chegar a um cargo no Vaticano antes de mais nada.

Dario Viganò foi ordenado sacerdote de Milão em 1987 pelo Cardeal Carlo Maria Martini SJ. Ele fez doutorado em História do Cinema Italiano e logo se tornou professor sobre essa temática e ética nos meios de comunicação na Universidade Católica de Milão.

E não parece ter tido nenhuma experiência de trabalho paroquial longa ou permanente.

Em 1997 ele era professor em uma pequena universidade católica privada perto do Vaticano, chamada LUMSA (Libera Università Maria Santíssima Assunta) e em 2000 também era professor de comunicação da Pontifícia Universidade Lateranense.

Durante este período na Cidade Eterna, também foi consultor e depois oficial na ala de comunicação social da Conferência Episcopal Italiana.

Em 2007, estava prestes a começar em seu primeiro cargo no Vaticano. O cardeal Tarcisio Bertone, então Secretário de Estado do pontificado de Bento XVI, deveria nomeá-lo secretário no extinto Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais.

Mas o ex-presidente do conselho recém-nomeado cardeal John P. Foley interveio. O cardeal Foley assinalou que não seria sensato nomear um italiano para o cargo de secretário porque o novo presidente, o arcebispo Claudio Celli, também era italiano. Foley argumentou de forma convincente sobre a necessidade de um falante de inglês ocupar o segundo cargo mais importante.

Bento XVI acabou nomeando Mons. Paul Tighe, um sacerdote de Dublin. Viganò teria que esperar vários anos antes de ser chamado ao Vaticano. Em janeiro de 2013, a apenas algumas semanas do anúncio de sua demissão do papado, Bento XVI escolheu o italiano para ser diretor do Centro Televisivo Vaticano (CTV), de onde o especialista em cinema dramaticamente coreografou o voo de helicóptero do Papa do Palácio Apostólico para a residência papal de verão, em Castel Gandolfo, ao sul de Roma.

Mas ainda não está claro como e por que ele conseguiu o atual alto cargo. Na época, muitos acreditavam que o candidato favorito e mais qualificado era o Mons. Tighe.

A nomeação de Viganò para prefeito da nova Secretaria para a Comunicação aconteceu em 27 de junho de 2015, no dia do seu 53° aniversário. Mas, estranhamente, considerando que é um alto cargo no Vaticano, ele não era e ainda não é bispo.

Quanto ao Mons. Tighe, ele foi nomeado bispo secretário do Pontifício Conselho para a Cultura em 19 de dezembro de 2015, seis meses depois da nomeação do Mons. Viganò.

O Papa Francisco certamente sabe do profundo descontentamento dentre uma série de funcionários da Secretaria para a Comunicação. É de se perguntar se ele já questionou sua escolha de prefeito, principalmente após essa mais recente controvérsia sobre a foto modificada e a forma como Viganò divulgou apenas partes selecionadas da carta de Bento XVI.

Nunca se sabe. Mas um nome se destacou no diário de audiências oficiais de Francisco da última quinta-feira: H.E Mons. Paul Tighe, bispo titular de Drivasto, Secretário do Pontifício Conselho para a Cultura.

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