Papa e as reformas nas comunicações do Vaticano

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23 Setembro 2016

Reformas nunca acontecem de uma vez só e, francamente, no nível dos detalhes, geralmente são um trabalho cansativo. O estatuto para um novo departamento de comunicação aprovado pelo Papa Francisco e divulgado nesta quinta-feira não é uma leitura exatamente emocionante, mas sugere que uma mudança está se tornando irreversível.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 22-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o que acontece com reformas históricas importantes: elas quase nunca ocorrem de uma só vez. Normalmente os pontos de inflexão importantes desdobram-se em períodos prolongados de tempo, e em geral os seus conteúdos são, francamente, bem cansativos no nível dos detalhes.

Tivemos um exemplo disso nesta quinta-feira, dia 22 de setembro, quando o Vaticano publicou o estatuto para a nova Secretaria para as Comunicações aprovado pelo Papa Francisco há mais de um ano como parte de sua reforma da Cúria Romana.

Durante décadas, todos viam que existia um problema no setor das comunicações no Vaticano. Havia muitos “cozinheiros na cozinha”: a Rádio Vaticano, o entro Televisivo do Vaticano, a Sala de Imprensa da Santa Sé, L’Osservatore Romano, braço editorial do Vaticano, o Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, assim como vários outros departamentos, todos voltados à sua própria função, com uma mínima coordenação possível entre eles.

O resultado foi um desastre tanto administrativo quanto de relações públicas. Houve duplicação generalizada de esforços e recursos, bem como um perigo perene de mensagens confusas e contradições internas.

Como papa, Francisco sabe que foi eleito para um papado de reformas, e sabe também que poucos levariam a sério qualquer esforço nesse sentido caso não se resolvesse o problema das comunicações.

É por isso que Francisco pediu três anos atrás a uma comissão voltada para pensar as reformas – uma comissão chamada COSEA – que ela focasse especialmente sobre departamento comunicacional, e é por isso também que ele criou a Secretaria para as Comunicações em junho passado, confiando-a ao monsenhor italiano Dario Edoardo Viganò, que já tinha trabalhado no Centro Televisivo do Vaticano.

A ideia é alinhar estas entidades antes díspares, economizando dinheiro ao longo da caminhada, e apresentar uma mensagem mais incisiva e coerente. Em uma audiência com uma associação italiana de jornalistas na quinta-feira, o pontífice falou que “ao encarar a transformação no mundo midiático, o Vaticano vivenciou e ainda está passando por um processo de renovação de seu sistema comunicacional”, chamando o novel departamento de “o ponto natural de referência para o trabalho precioso de vocês”.

O fato de que Francisco tem pressa para reformar o departamento das comunicações está claro não só com a criação da nova secretaria, mas também com suas escolhas recentes de quem vai presidir um dos dicastérios mais importantes: o experiente jornalista americano Greg Burke como diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, e a jornalista espanhola Paloma Garcia Ovejero como vice-diretora.

Se fosse feita uma pesquisa entre os profissionais de imprensa do Vaticano para escolher as pessoas mais bem-quistas e respeitadas em Roma, provavelmente Burke e Garcia estariam entre as finalistas, e essas escolhas sugerem que Francisco está levando a tarefa reformista muito a sério.

Poderíamos nos perguntar por que, se de fato era uma prioridade, demorou tanto para se emitir o estatuto da nova secretaria (o estatuto é o documento jurídico que define as operações do departamento).

Na verdade, este longo intervalo sugere que Francisco e sua equipe estão aprendendo com a experiência. Rapidamente apresentaram o estatuto para a Secretaria para a Economia, o qual tiveram de repensar algumas vezes à luz de como os trabalhos se desdobrariam; igualmente lançaram uma auditoria que foi suspensa e, então, reiniciada de uma maneira diferente.

As reformas são bem assim: as intenções são uma coisa, o mundo real é outra. Nesse caso, parece que Francisco e seus assessores quiseram apresentar um documento para valer, e não algo que precisasse retornar logo adiante, dando a impressão de caos e desentendimentos internos.

Mais do que isso, as operações comunicacionais do Vaticano são coisas bem diferentes, com perfis jurídicos e financeiros que diferem entre si, não sendo nada fácil saber como reuni-los em um único ambiente.

Para os analistas, um aspecto inevitável do novo estatuto é a maneira como ele confirma a supremacia da Secretaria de Estado. Não foram poucas as vezes no documento de apenas oito páginas em que se lê que o novo departamento irá agir somente após ter obtido a aprovação da Secretaria de Estado.

No começo, parecia que a intenção do papa era encurtar as asas da Secretaria de Estado, tirando o seu traço de “primeira-ministra” e transformando-a em um ministério do exterior responsável primeiramente pela diplomacia internacional.

Tendo encontrado uma figura de confiança no cardeal italiano Pietro Parolin, no entanto, Francisco tem cada vez mais reforçado o papel da Secretaria de Estado como a câmara de compensação através da qual todas as decisões relevantes devem passar, e o estatuto dessa quinta-feira provavelmente será interpretado como mais um capítulo desta reconsolidação.

De modo geral, entretanto, eis o que deverá ser as três principais decorrências da nova organização:

Primeiro, o Vaticano reconhece que as mídias sociais estão alimentando uma revolução comunicacional, e sabe que precisa contar com um modo mais enxuto e eficiente de responder.

Segundo, todas as operações comunicacionais estão postas dentro do contexto da “missão evangelizadora da Igreja”.

Terceiro, o prefeito da Secretaria – isto é, Viganò – recebeu autoridade plena para alinhar vários departamentos, e portanto, caso não tiver sucesso em implementar uma maior coordenação e uma economia de escala, isso não acontecerá por falta de poder.

Isso posto, uma estrutura burocrática reorganizada para aquilo que equivale a um movimento de Relações Públicas não é a história mais interessante do mundo.

Não obstante, Francisco sabe bem que não foi eleito somente para animar o mundo com o seu sorriso, não desmerecendo a importância que isso tem para o sucesso missionário da Igreja. Ele foi também escolhido para resolver um conjunto de problemas administrativos de longo prazo no Vaticano, problemas que por vezes fazem este ambiente ser um obstáculo à evangelização ao invés de um instrumento para ela: são questões que exigem um labor cuidadoso e paciente para que sejam resolvidos.

Precisamos ver como o estatuto desta quinta-feira irá funcionar e, tão importante quanto isso, precisamos ver o que Viganò vai fazer com os poderes que recebeu. O que está claro, todavia, é que, embora de vagar, Francisco está fazendo mais do que falar sobre reformas: ele está criando as estruturas jurídicas e institucionais para torná-las irreversíveis.

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