EUA. O 'gigante adormecido' formado por católicos latinos está despertando, constata pesquisador jesuíta americano

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09 Março 2018

A comunidade católica latina nos Estados Unidos há tempos é um “gigante adormecido”, mas um “grande despertar” está acontecendo, segundo um especialista internacional que tem tocado sinos nos ouvidos deste gigante há meio século.

“Nós o vimos se agigantar durante os últimos 50 anos”, salientou o padre jesuíta Allan Figueroa Deck. “É uma mudança significativa (...) e é a vitalidade da Igreja o que está em jogo. Demograficamente, como sabemos, os latinos formam o grupo mais jovem dos católicos americanos, hoje, e a juventude é o futuro”.

A reportagem é de Dan Morris-Young, publicada por National Catholic Reporter, 08-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Deck, importante pesquisador de teologia e estudos latinos da Loyola Marymount University, de Los Angeles, disse concordar com “o sociólogo de Harvard Robert Putnam que diz que os latinos são os principais indicadores do futuro da Igreja. Portanto se os bispos ou alguém mais se interessar pelo futuro da Igreja, devem prestar atenção aos latinos. Não é nada que seja impossível de fazer”.

“As manifestações” da crescente autoconsciência e da influência dos católicos hispânicos “não vêm sendo drásticas”, mesmo assim elas exibem grandes implicações em assuntos como a justiça social, a celebração litúrgica, a vida paroquial e a formação nos seminários, disse ao National Catholic Reporter o conhecido teólogo.

Os latinos estão preparados para “serem grandes construtores de pontes”, observou. “Eles têm um pé em mundos diferentes”.

O papel do Papa Francisco no processo de terminar com essa “longa hibernação” é fundamental, sublinhou Deck em entrevista concedida em 25 de janeiro ao Nacional Catholic Reporter, dois dias antes palestrar no V Encuentro da Arquidiocese de Los Angeles com aproximadamente 1.200 lideranças hispânicas.

Ao considerar Francisco de “o homem certo na hora certa”, Deck elogiou a liderança do papa e disse que ela ressoa profundamente entre os latinos.

“Com certeza, o surgimento do Papa Francisco foi um grande despertar para muitos de nós”, falou, e ele representa uma “ponte humana ao Terceiro Mundo, uma ponte para uma Igreja global”.

Deck saudou a simplicidade do estilo de Francisco à mostra desde que o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio apareceu na varanda da Praça de São Pedro após ser eleito cinco anos atrás.

“Todos os gestos de Francisco – o curvar-se, vestir a sua antiga cruz peitoral, não uma toda chique – são muito simples, porém falam mais alto que encíclicas papais. E isso é exatamente o que precisávamos”, disse Deck.

O papa “percebeu que a melhor maneira de se comunicar não é tanto conceitualmente, mas por gestos, por rituais, por símbolos – e é assim que ele consegue se comunicar”, acrescentou o religioso. “E acho que é por isso que vem sendo efetivo”.

Um elemento central do catolicismo latino-americano, segundo Deck, é “começar com a pessoa à sua frente, a pessoa, o humano, não o conceitual”, e isso fundamenta o magistério do papa jesuíta.

“E assim o que vemos é uma junção maravilhosa da contribuição particular que o catolicismo latino-americano pode dar à Igreja com o ministério do Papa Francisco, que é um produto dessa experiência”, explicou.

“Não há como retroceder a uma Igreja eurocêntrica, ocidentalizada”, disse.

“Existe uma sinergia nisso e algo que é bastante jesuíta, a saber: prestar atenção às pessoas, aos lugares e às circunstâncias, o que se encontra realmente encarnado nos documentos da Companhia de Jesus, a ordem jesuíta”, disse o padre.

“Isto ficou ainda mais claro para mim ultimamente com a ênfase do Papa Francisco na necessidade do discernimento. Discernir tem a ver com prestar atenção às pessoas, aos lugares e às circunstâncias”, repetiu ele, “e não só ‘ir pelos livros’ ou prestar atenção às formulações e às fórmulas”.

Deck salientou a importância da metodologia doutrinal “indutiva” em lugar da dedutiva: “um método teológico contextual, pastoral, capturado na frase: VER-JULGAR-AGIR. Muito simples”.

Em vez de proceder dedutivamente “a partir da doutrina, das regras, dos regulamentos, dos costumes”, a Igreja deveria “pegar o que o Vaticano II de fato propôs: devemos ser indutivos e lidar com a realidade que está à nossa frente, e que o foco deve recair sobre o presente e o futuro mais do que no passado”, explicou Deck. “Não que o passado não é importante, não que a tradição não é importante, mas a nossa compreensão da tradição é que ela deve sempre estar presente e envolver as pessoas e as circunstâncias diante de nós”.

O religioso advertiu para que “a Igreja europeia e a Igreja anglo-americana não se atolem nos padrões e nas regras”, algo que “pode acontecer não só entre os conservadores, aliás, mas também entre os progressistas”.

De acordo com o padre, entre os católicos latino-americanos e Francisco há uma grande ressonância, uma “conaturalidade”, nesta compreensão.

Os católicos hispânicos igualmente compartilham da clara aversão do papa pelo clericalismo, segundo ele.

“Cuidado com todo e qualquer tipo de clericalismo, pois ele é o maior obstáculo para a missão evangelizadora da Igreja”, disse. “O clericalismo causa muitos danos”.

Ao destacar que Francisco “muitas vezes menciona isso onde quer que vai”, Deck falou que o clericalismo “impede as pessoas de assumirem a responsabilidade que têm pela fé e pela Igreja. Não lhes permite exercer os seus papéis na missão da Igreja, e priva a Igreja de talentos, ideias e possibilidades”.

“Talvez os padres não gostem de falar sobre isso”, disse Deck. “É um assunto delicado. Mas é bastante real e precisa ser constantemente trazido à nossa atenção”.

Nesse sentido, continuou Deck, “no catolicismo popular na América Latina” existe uma “resistência de longa data às imposições de várias espécies”.

“E embora não esteja em oposição ao catolicismo padrão ou oficial, está de algum modo em tensão, em tensão com o catolicismo dos padres e bispos (...) mas não em oposição”, falou.

Isso é particularmente verdadeiro para “o catolicismo mexicano”, acrescentou. “Aqui isso é bastante distinto. É um catolicismo muito forte. É onde os evangélicos têm tido menos sucesso. Aprendeu-se a viver com um certo tipo de catolicismo clerical, um certo tipo de cultura eclesiástica, mas também como resistir gentilmente a ele”.

Isso não contradiz a ideia de que os católicos hispânicos prestam respeito ao clero?

“Sim, certamente”, disse Deck. “É tanto uma coisa quanto a outra. Não é falso dizer que existe uma espécie de deferência, mas também não é uma coisa ou outra. A comunidade sabe como resistir quando é preciso, no longo prazo”.

Ao mesmo tempo, disse, “eles são muito leais à Igreja”.

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