A queda do número de católicos latino-americanos é uma oportunidade para se viver o desafio do Papa Francisco

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28 Novembro 2014

"A América Latina é o lar para 425 milhões de católicos, ou 40% da população católica mundial, e os seus imigrantes e descendentes estão a caminho de se tornarem o maior grupo populacional na Igreja americana. Será que ela terá condições de assimilar estes fiéis? Ou vai repetir os erros da Igreja colonial?", questiona Michael J. Gillgannon, padre da Diocese de Kansas City-St. Joseph, Missouri e missinário na Bolívia por 38 anos, em artigo publicado pelo National Catholic Reporter, 20-11-2014. A tradução de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Um recente relatório de pesquisa feito pelo Centro de Pesquisas Pew concernente à afiliação e prática religiosa na América Latina tem merecido muita atenção. Graficamente, o estudo apresenta a perda de fiéis por parte da Igreja Católica (de 90% da população há 50 anos para 69% hoje) em meio ao crescimento das igrejas protestantes, em particular os grupos pentecostais. Quase dois terços (65%) dos protestantes na América Latina se identificam como pentecostais. Alguns estão começando a se lamentar das perdas ou a negá-las. Mas aqueles, que já tem certa experiência, sabem que a pesquisa é um sério relatório sociológico sobre as realidades em 18 países latino-americanos e Porto Rico.

A pesquisa merece uma profunda atenção por parte das lideranças da Igreja, tanto na América do Norte quanto na do Sul, pois ela documenta a verdade de que o catolicismo colonial-cultural de 500 anos na América Latina não pode mais ser considerada como certa, ao menos não nas práticas religiosas.

Os líderes da igreja lamentam estas perdas. Muitos criticam as táticas de pressão dos novos missionários cristãos, de visita aos lares em busca de conversões. (Dos que foram pesquisados, 58% disseram que a nova igreja foi quem estendeu-lhes a mão.) E muitos se lembram das acusações, com algum fundamento, que vinculavam grupos bíblicos fundamentalistas às intervenções políticas americanas na Guerra Fria, opondo os católicos social-progressistas em países como a Guatemala sob o ditador militar pentecostal Gen. Efraín Ríos Montt.

No entanto, muitos missionários latino-americanos irão considerar este tempo como um chamado a despertar. Trata-se de um avanço positivo para uma nova época, para se realizar o desafio profético do Papa Francisco junto à Igreja Católica. Será que a Igreja tem condições de se renovar? Será ela uma igreja em missão para o novo mundo global do século XXI? Não deveria mais haver a cultura colonial de participação automática na religião. A fé (e a conversão a ela) tem certo conteúdo e consequências. A fé deve ser livre, com uma consciência informada. A conversão pela espada, pondo a Igreja e o Estado juntos, está ultrapassada e impraticável, embora ainda esteja em voga nalgumas partes da África e Ásia.

O que víamos como missionários americanos 50 anos atrás? Víamos ditaduras militares brutais em toda a América Latina católica. Pobreza inacreditável. Sociedades mergulhadas nas raízes culturais colônias da Espanha e Portugal medievais profundamente, sociedades divididas por classes e raças. Víamos 90% de analfabetismo entre as populações indígenas, sem acesso aos sistemas educacionais públicos elitistas. Índices de mortalidade infantil que chegavam a 30%, 3 de cada 10 nascimentos, nos bairros urbanos e vilarejos rurais. Víamos uma aceitação social geral de tortura, desaparecimento forçado e exílio de dissidentes por parte da polícia e autoridades militares para superar a anarquia e o ateísmo marxista. Também uma corrupção institucional em todas as estruturas judiciárias e governamentais da sociedade e de alguns setores da Igreja. Os historiadores da latino-americanos podem continuar expandindo esta lista de aspectos negativos.

Porém, o espírito dos marginalizados nunca cedeu. Nós, missionários, nos espantávamos constantemente e ficávamos energizados com a determinação do povo latino-americano. A história da manutenção de sua identidade e dignidade é uma história longa e gloriosa.

Uma providência misteriosa ainda parece acompanhá-los através das corredeiras das correntes históricas de mudança. Vimos acontecimentos como o Concílio Vaticano II, a Guerra Fria, o livre comércio, a globalização do comércio e finanças, as modernas tecnologias de comunicação, a migração de milhões de pessoas das zonas rurais para as regiões urbanas, as megacidades de 15 milhões de pessoas ou mais. O bom e o mau deste processo de desenvolvimento global trouxeram a América Latina para o mundo moderno em 50 anos. Não é o momento para lamentações. Mas um momento para uma análise ponderada e de redirecionamento das energias e recursos.

Há poucos missionários europeus, e menos ainda norte-americanos, indo hoje para a América Latina. Eles não são necessários. As igrejas latino-americanas estão, finalmente, trabalhando por conta própria. Os profetas e mártires locais, como Dom Oscar Romero, iluminaram o caminho destes povos. Mas não é possível continuar com a cultura colonial de dependência. Os seus fiéis devem, hoje, ser participantes ativos na renovação prometida no Vaticano II, tal como Francisco previu, e nos textos dos bispos latino-americanos, como os documentos de Puebla (1979) e Aparecida (2007).

Alguns aspectos pastorais e sociais que precisam de uma atenção imediata na América Latina são:

• A formação religiosa e a liturgia devem ser atualizadas e mais centros diocesanos de formação devem ser estabelecidos.

• A religiosidade popular deve ser respeitada, porém cuidadosamente renovada para incluir os símbolos e costumes indígenas na liturgia, nas artes e arquitetura.

• A ecoteologia católica precisa dialogar com as religiões indígenas que cultuam a natureza e a sua “Pacha Mama” (Mãe Terra).

• Deve haver uma teologia contemporânea renovada sobre a devoção popular a Maria no sentido de mudar o papel social das mulheres para uma cultura latina e católica profundamente misógina.

• Os líderes da Igreja devem seguir o Papa Francisco e trazer, para dentro do ambiente de livre mercado e globalizado, os princípios éticos católicos. Ele precisam ajudar as pessoas e os povos locais a praticarem uma “opção preferencial pelos pobres”. No entanto, nos países em desenvolvimento, isso significa uma Igreja que tenha uma mensagem centrada em valores, questionando os excessos dos livres mercados, a sociedade de consumo e que se põe ao lado dos direitos dos trabalhadores.

• Deve haver apoio a todas as lutas sociais pelos direitos humanos, em colaboração com outras organizações nacionais e internacionais.

Nos EUA, a Igreja Católica precisa enxergar o seu futuro no relatório do Centro de Pesquisas Pew. A América Latina é o lar para 425 milhões de católicos, ou 40% da população católica mundial, e os seus imigrantes e descendentes estão a caminho de se tornarem o maior grupo populacional na Igreja americana. Será que ela terá condições de assimilar estes fiéis? Ou vai repetir os erros da Igreja colonial? Sem uma atualização na formação da fé, na acolhida destas comunidades, a religiosidade popular que os imigrantes trouxeram junto deles não irá durar. O estudo realizado mostra que os filhos dessas famílias não irão permanecer na Igreja Católica. Não se pode colocar vinhos nossos em odres velhos, como Jesus tão bem ensinou.

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