Catolicismo: a alma antiliberal dos Estados Unidos

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21 Abril 2012

A Igreja Católica norte-americana é consciente de já ser a Igreja de referência para a alma religiosamente intransigente e antiliberal dos EUA.

A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 19-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando se considera o problema da liberdade religiosa para os cristãos, o pensamento corre para a China, para alguns países da Ásia Central, do Oriente Médio e da África, e certamente não para os Estados Unidos. Mas a Igreja mais poderosa do Ocidente, a católica norte-americana, começou, há alguns meses, a redefinir a sua própria agenda com base em uma questão, a da liberdade religiosa, que é a quintessência do fato político-teológico dos EUA modernos.

Os bispos norte-americanos lançaram oficialmente a campanha com o documento intitulado "A nossa primeira e mais amada liberdade" (Our First, Most Cherished Liberty), publicado no dia 12 de abril pelo comitê ad hoc da Conferência Episcopal. A liberdade referida pelos bispos da comissão, liderada pelo arcebispo Lori (em processo de transferência para a prestigiosa sede de Baltimore), é a liberdade religiosa, a seu ver sob ataque por parte do poder político dos EUA, particularmente do governo federal do governo Obama e do Partido Democrata em nível local.

Os bispos citam, além do já famoso mandato do Ministério da Saúde acerca da cobertura de seguro para a contracepção que deve ser garantida a todos os dependentes (católicos ou não) por hospitais e escolas católicas, outras áreas de atrito entre as políticas públicas e o magistério moral e social da Igreja Católica: as leis de imigração (a do Alabama, especialmente), o pedido dirigido à Igreja para definir claramente a diferença entre "ministro de culto" e "empregado da Igreja" (ligado às proteções contra as demissões injustas dos empregados seculares das Igrejas), a possibilidade de grupos católicos nos câmpus universitários de poder aceitar membros com base em valores morais bem precisos (contra a homossexualidade) com exceção das regras antidiscriminação das faculdades, a possibilidade para os grupos de voluntariado católico de agir sem se submeter às normas do governo acerca das adoções por casais homossexuais.

O documento dos bispos, acompanhado por um presenteísmo sem precedentes na mídia norte-americana, lança duas semanas de luta, do dia 21 de junho a 4 de julho (durante as quais o calendário litúrgico lembra mártires como Pedro e Paulo, São João Batista e Thomas More), em que as dioceses e as paróquias são convidadas a tomar iniciativas especiais pela defesa da liberdade religiosa da Igreja.

Embora citada como uma questão dentre outras, a contracepção é a mais importante do ponto de vista simbólico. Nos EUA, há um número substancial, embora minoritário, de católicos que rejeita a contracepção na teoria e na prática. Mas, significativamente, o documento dos bispos não cita a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI (1968), a referência magisterial obrigatória: os bispos não querem dar a impressão de querer tentar vencer legislativamente uma batalha que perderam culturalmente dentro da Igreja. Esse não é o único problema dessa luta dos bispos.

Justamente nos dias em que Roma poderia anunciar o acordo com os cismáticos ultratradicionalistas de Lefebvre para o seu retorno à comunhão com o Vaticano, os lefebvrianos norte-americanos publicaram uma crítica mordaz do documento da Conferência Episcopal: "Essa exortação dos bispos norte-americanos está repleta de afirmações errôneas e de exemplos históricos trágicos em que os bispos tomam como modelo eventos em que certos princípios católicos ficaram comprometidos – eventos que a Conferência Episcopal mostra, ao invés, como modelo de exemplos esplêndidos de catolicismo" (cf. http://www.sspx.org/news/our_first_cherished.htm).

Os lefebvrianos não o podem dizer (o documento papal mais recente que eles citam é o Sílabo de Pio IX, de 1864), mas a declaração dos bispos peca em outras omissões importantes, como a questão da liberdade religiosa para grupos religiosos como o Islã norte-americano, que não têm a força necessária para impor a sua agenda à política. Esse passo dos bispos põe a Igreja em rota de colisão com o governo federal nos meses de campanha eleitoral para as eleições presidenciais de novembro próximo.

Assim, deve se cimentar a divisão política entre católicos democratas e católicos republicanos assim como a conhecemos na última década pelo menos.

O significado político de longo prazo é de porte ainda maior: com um episcopado politicamente na ofensiva, indiferente às divisões internas criadas por esse ativismo, e apoiado por Roma, a Igreja Católica norte-americana é consciente de já ser a Igreja de referência para a alma religiosamente intransigente e antiliberal dos EUA.

Essa explicação é dada eficazmente por Bad Religion: How We Became a Nation of Heretics, o livro (a ser lançado nestes dias) do colunista católico conservador do New York Times Ross Douthat: nos EUA, desapareceu o "centro" do ponto de vista do consenso religioso-moral do país.

A Igreja Católica está tentando preencher esse vazio e se substituir a esse centro que não existe mais. É uma passagem histórica epocal: uma aposta para ganhar a alma religiosa do país, às custas da coesão interna da Igreja.

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