Pontificado aos cinco anos: polarização intracatólica e divisão entre Francisco e Trump

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06 Março 2018

Faz cinco anos desde que o Papa Francisco foi eleito e o seu pontificado não pode mais ser considerado um pontificado de transição.

Durante este tempo, a relação entre os EUA e o primeiro papa das Américas complicou-se, marcando provavelmente o período mais difícil dos últimos cem anos entre o Vaticano e o centro geopolítico e econômico dos países ocidentais.

O artigo é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, publicado por Crux, 05-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em primeiro lugar, há uma “dimensão política e geopolítica” de tensões em curso entre a Santa Sé e a Casa Branca de Donald Trump. Nos últimos meses o Vaticano mostrou uma forte disposição para chegar a um desanuviamento. Começou com a acolhida calorosa com que Francisco e seus assessores presentearam o presidente americano durante a visita deste em maio de 2017 ao Vaticano, seguida em novembro passado pela visita do chefe da diplomacia vaticana, o Cardeal Pietro Parolin, ao vice-presidente Mike Pence na Casa Branca.

Mas o Vaticano, com o seu “poder soft”, e a presidência de Trump, com a sua agenda de uma “América em primeiro lugar”, defendem opiniões substantivamente diferentes numa série de temas importantes. No nível internacional, eles incluem a corrida das armas nuclear e o meio ambiente. Em nível nacional, compreendem imigração, o Estado de bem-estar e justiça social. O alinhamento geopolítico estratégico do século XX entre o papado e a superpotência americana foi-se embora. A cosmovisão do Papa Francisco tem tido um impacto importante nos papéis cambiantes que tanto o Vaticano como os EUA desempenham no cenário mundial.

A abertura recente da Santa Sé à República Popular da China pode levar a um avanço nas relações entre o Vaticano e os chineses pela primeira vez desde que os comunistas tomaram o controle do país em 1949. A abertura do Vaticano para com a Ásia põe um desafio à identificação do cristianismo com os países ocidentais, que só cresceu – e se tornou politicamente conveniente, pelo menos para alguns – após o 11 de Setembro. Como latino-americano e jesuíta, Francisco tem uma visão cosmopolita e multicultural do catolicismo que difere fundamentalmente daquela visão que muitos católicos americanos possuem.

Em segundo lugar, há uma “lacuna teológico-política” entre este papa e o catolicismo americano – especialmente na variedade conservadora branca que se pode encontrar na hierarquia eclesiástica, na imprensa católica e entre doadores ricos de organizações católicas. Nos últimos 40 anos, o cristianismo americano modelou-se por uma “guerra cultural” – tradicionalistas e conservadores X progressistas – em torno das mudanças sociais e culturais (sobre sexualidade e gênero especialmente) iniciadas no final dos anos 60.

Mas desde o seu famoso “Quem sou eu para julgar?” em resposta a uma pergunta sobre gays em julho de 2013, o Papa Francisco rejeitou a ideia de que o cristianismo e o catolicismo devem lutar nas batalhas culturais pós-anos-60 americanas. Não se trata de uma mudança nas doutrinas fundamentais da Igreja, porém é uma inversão política que muitos na Igreja Católica dos EUA criticam e combatem. O papa tem buscado conter esta resistência nomeando novos bispos que não enxergam o futuro do catolicismo neste país reduzido a uma guerra cultural, mas que favorecem uma teologia aberta aos desenvolvimentos tanto do magistério católico quanto da disciplina católica. Católicos americanos influentes no lado conservador, como George Weigel, consideram perigosa e ingênua esta inversão na ênfase da Igreja. É o tipo de “catolicismo das guerras culturais” que mostrava uma indignação maior para com o suposto secularismo da presidência de Barack Obama do que com o analfabetismo moral do governo do Sr. Trump.

O terceiro elemento nesta lacuna entre o Papa Francisco e a Igreja nos EUA concerne a “vozes clericais e de leigos opositores”. Essa resistência tem vindo especialmente dos bispos nomeados por João Paulo II e Bento XVI. Claro está que nos últimos cinco anos eles não fizeram suas as prioridades do papa. Francisco respondeu removendo vários prelados americanos de seus postos centrais no Vaticano, incluindo – mas não só – o Cardeal Raymond Burke em 2014. Ele também rejeitou a tradição eclesiástica (recente) de fazer cardeais os arcebispos de cidades americanas importantes (a saber, Los Angeles e Filadélfia). Em vez disso, passou o barrete vermelhou para bispos de lugares longes e periféricos para globalizar ainda mais o Colégio Cardinalício.

Católicos americanos leigos poderosos vêm sendo mais ostentosos ainda na oposição que fazem ao Papa Francisco. Grupos católicos de leigos pequenos, porém barulhentos, que usam meios de comunicação e mídias como milícias cibernéticas (por exemplo, o Church Militant e o Lifesite News) acusaram-no de espalhar heresia. Revistas políticas e culturais influentes como a The American Conservative e comentaristas católicos em jornais tradicionais como o New York Times têm criticado o papa por propagar o caos na Igreja.

Uma revista dirigida por leigos, a publicação neoconservadora e neotradicionalista chamada First Things, transformou-se no epicentro intelectual da rejeição a Francisco. Outros grupos midiáticos menos intelectuais com um público de católicos comprometidos e barulhentos, como o grupo americano Eternal Word Television Network (EWTN) e o National Catholic Register, fizeram oposição durante todo o pontificado nestes cinco anos, num amplo leque de questões doutrinais e políticas. Em muitos destes itens, a hierarquia americana parece ter se transformado apenas num espectador, ignorado tanto pelos fiéis progressistas quanto pelos conservadores.

Mas entre os temas mais divisores, o que se transformou num grito de guerra da oposição é o “magistério de Francisco sobre o matrimônio e a família”. Esse é o quarto elemento nesta relação difícil entre o papa e muitos nos EUA. A exortação apostólica Amoris Laetitia: sobre o amor na família (2016) seguiu-se de dois Sínodos dos bispos do mundo inteiro realizadas no Vaticano em outubro de 2014 e 2015, onde as diferenças resolutas entre o papa latino-americano e os bispos norte-americanos ficaram bem claras.

Mas a polêmica em torno da abertura cautelosa de Amoris Laetitia para que os católicos divorciados e recasados recebam a Comunhão apenas toca na superfície de uma tensão muito mais profunda entre dois modos – um acolhido pelo Papa Francisco e o outro pelos fiéis americanos conservadores – de compreender o catolicismo. Estes modos denotam uma diferença grande na compreensão do que a Igreja deve dizer e fazer sobre a crise da família tradicional, sobre os altos índices de divórcio e sobre a redefinição cultural e legal de casamento (o casamento entre pessoas do mesmo sexo).

Francisco não crê que a Igreja deva centrar toda a sua mensagem na moralidade sexual. Como disse na primeira entrevista que deu em setembro de 2013, “não é necessário falar sobre esses temas o tempo todo”. Católicos conservadores nos EUA e muitos dos bispos católicos não o seguem nesta ampliação do espectro moral do catolicismo para além da moralidade sexual e questões de vida. A visita de Francisco aos EUA em 2015 foi um sucesso midiático, especialmente o seu discurso sem precedentes no Congresso em que encorajou os legisladores a trabalharem na questão das mudanças climáticas e na imigração em espírito de fraternidade e solidariedade mundial. Esse discurso, todavia, não desfez a lacuna que permaneceu intacta e que, em alguns casos, acabou aumentando.

Um quinto elemento é a “lacuna cada vez maior entre o catolicismo social e a ideologia do capitalismo” abraçado por setores do catolicismo americano. Francisco têm seguido a linha de seus antecessores ao advogar a necessidade de uma economia justa, um papel significativo do governo no bem-estar social e a necessidade de regulamentações para o capitalismo. No entanto, ele foi além dos papas anteriores ao mostrar uma postura mais severa e crítica quanto aos efeitos das economias capitalistas sobre as populações pobres e países empobrecidos.

Muitos americanos criticam a encíclica de 2015 sobre o meio ambiente, Laudato Si’, por não reconhecer aquilo que o modelo americano de capitalismo moderno teria feito aliviar milhões da pobreza. Esta crítica é feita nos EUA mais do que em qualquer outro lugar do mundo, por exemplo pelo instituto (think tank) católico e libertariano Acton Institute. A mensagem de Francisco sobre a globalização financeira, o capitalismo e o meio ambiente continua a ser causa de preocupação para o capitalista americano e ocidental de um modo que não difere totalmente da maneira como os europeus orientais e os comunistas russos viam o pontificado de João Paulo II.

É difícil imaginar, depois de cinco anos deste pontificado, que a relação entre Francisco e os católicos americanos conservadores/tradicionalistas irá mudar em níveis significativos. Esta lacuna continuará sendo um elemento-chave do tempo de Francisco como papa. Vale a pena se perguntar sobre as forças profundas por trás desta lacuna.

Do ponto de vista do Vaticano, não há dúvida de que Francisco mudou a linguagem e a visão da Igreja numa série de questões. Era inevitável que ele, como os antecessores em outros temas, enfrente alguma espécie de oposição. É também inegável que as mídias sociais e o sistema católico de imprensa que fomentam certas subculturas ajudem a alimentar esta lacuna teológica e cultural-política.

Mas visto do ponto de vista americano, essa lacuna não é apenas virtual. Ela tem também a ver com o que o país está se tornando sub a presidência de Donald Trump.

Nestes últimos cinco anos, com a transição mais recente de Obama a Trump, os EUA mudaram mais do que a Igreja mudou durante o presente pontificado. A oposição americana a Francisco já estava sendo preparada por mudanças em curso no catolicismo americano antes de ele se tornar papa. Estas mudanças incluem uma polarização política profunda entre os católicos, o tradicionalismo litúrgico, o catolicismo no governo Trump [S. Bannon], organizações católicas sujeitas ao controle de interesses ou agendas especiais de um modo que difere do problema do dinheiro em política – uma diferença de grau, e não de espécie.

O Papa Francisco representa um passo adiante na trajetória em direção ao futuro da Igreja Católica global. Não está claro ainda, porém, o que a presidência de Trump significará para o futuro dos EUA e do catolicismo americano.

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