“A Pope Francis Lexicon”: como Francisco fala do capitalismo

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05 Março 2018

A Pope Francis Lexicon
Liturgical Press (Janeiro, 2018)
E-Book: U$ 19,99

O livro “A Pope Francis Lexicon”  (Um léxico do Papa Francisco, em tradução livre) é o novo volume da coletânea de 54 ensaios organizada por uma gama de grandes personalidades a respeito das diferentes palavras que se tornaram importantes no ministério do Papa Francisco. Já disponível nos EUA pela Liturgical Press, o volume é apresentado com uma nota introdutória do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e prefácio do cardeal de Boston Seán O'Malley. O volume é coeditado por Cindy Wooden, chefe do escritório de Roma do Catholic News Service, e Joshua J. McElwee, correspondente do Vaticano para o National Catholic Reporter. O capítulo seguinte é escrito pelo bispo de San Diego Robert McElroy e concentra-se na forma como Francisco fala sobre o capitalismo.

O artigo é de Robert McElroy, bispo de San Diego, Califórnia, EUA, publicado por Vatican Insider, 03-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Robert McElroy é doutor em teologia e ciência política, atua no setor de justiça administrativa, ecumênica e doméstica dos bispos dos EUA e em comissões de assuntos internacionais.

Eis o artigo.

O Papa Francisco tem execrado a lógica do sistema capitalista como "o excremento do diabo", uma “ditadura sutil" e uma “nova forma de colonialismo". Em outros momentos o Papa chamou a atenção para as conquistas das economias de mercado em aliviar a pobreza global através da criatividade e da liberdade, aplaudindo, em seu discurso diante do Congresso dos EUA, em setembro de 2015, "a uso correto de recursos naturais, a aplicação adequada da tecnologia e o direcionamento do espírito empreendedor, [que] são elementos essenciais de uma economia que busca ser moderna, inclusiva e sustentável".

Francisco partilha da convicção de São João Paulo II em Centesimus Annus de que a criatividade substancial e a liberdade inerente nas economias de mercado devem estar "enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso"(CA 42).

Mas enquanto a experiência de João Paulo na ditadura estatista do leste europeu após a Segunda Guerra Mundial o levou a destacar as formas de ameaça do controle governamental à liberdade da pessoa humana na vida econômica e social, o Papa Francisco traz a perspectiva do sul global, revelando que os mercados livres podem gerar um ethos totalitário não menos perigoso para o bem comum e a dignidade da pessoa humana.

Por isso, a opção preferencial para os pobres torna-se o prisma fundamental de avaliação dos sistemas do capitalismo e do livre mercado para Francisco. É pelos olhos e pela experiência dos mais pobres entre nós que devemos julgar a legitimidade moral de cada sistema econômico e discernir a natureza da circunscrição jurídica necessária para promover uma ordem econômica justa.

Ao realizar esta avaliação, o Papa Francisco enfatiza que é o capitalismo concreto, e não como sistema filosófico, que deve ser analisado. Há uma sensação de profunda urgência para a discussão de Francisco sobre a necessidade de transformar radicalmente o sistema de mercado da economia global atual, uma urgência que advém de suas experiências nas ruas de Buenos Aires, suas visitas à Bolívia, ao Sri Lanka e à República Centro-Africana, bem como seus encontros com as contínuas tragédias da crise mundial de refugiados.

Para o Papa, a questão do capitalismo não é uma questão de debate especulativo entre sistemas abstratos concorrentes, mas o imperativo moral de reconhecer, em meio à capacidade criativa da economia global atual, a presença de padrões destrutivos que corroem vidas, física, espiritual e moralmente. Esta economia mata!

O primeiro padrão destrutivo do capitalismo global do século XXI é a força de estrangulamento da desigualdade que reproduz no mundo. Como escreveu o Papa em Evangelii Gaudium, "a necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar... Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG 202).

Francisco identifica essa desigualdade como a base para um processo de exclusão que corta grandes segmentos da sociedade de uma participação significativa na vida social, política e econômica. Ela origina um sistema financeiro que dita regras em vez de servir à humanidade, e um capitalismo que descarta quem não tem utilidade como consumidor.

O Concílio Vaticano II condenou as graves desigualdades econômicas, que “provocam o escândalo e são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e, finalmente, à paz social e internacional” (Gaudium et Spes 29). E todos os papas modernos identificaram o dano multidimensional de grave desigualdade destrutivo em níveis material, cultural e espiritual. Mas no conceito de exclusão o Papa Francisco capturou a devastação causada pelo capitalismo global e sua capacidade de efetivamente aniquilar a identidade humana na sociedade.

Se a destruição direta de vidas humanas e da comunidade humana constituem a falha central da economia global atual, a destruição do mundo que é a nossa casa comum constitui uma segunda consequência poderosamente devastadora das estruturas capitalistas, de acordo com Francisco. A lógica dos sistemas de mercado que privatizam os lucros ao colocar a destruição ambiental forjada por tais lucros na esfera pública teve grande contribuição para a cascata de destruição que está sufocando a Terra.

Comentando sobre como as próprias estruturas e reivindicações morais do sistema de livre mercado ameaçam a Terra, o Papa Francisco observa com tristeza: "Qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformado em regra absoluta” (EG 56). E as estruturas da desigualdade endêmica das economias capitalistas acentuam a devastação desproporcional dos pobres, que se realiza através da degradação ambiental, resultando na inversão da opção preferencial: os pobres sempre sofrem primeiro e com mais intensidade os efeitos dos danos ambientais.

O último defeito central que o Papa Francisco identifica no capitalismo global dos dias atuais é espiritual. Nas bases irmãs da acumulação crescente de bens materiais e de poder econômico, o capitalismo inerentemente corrói o espírito. A força motriz do sistema capitalista é o desejo de acumulação. A origem disso não é o impulso de criar, beneficiar a sociedade ou construir cultura, mas a necessidade de adquirir. Tal sistema econômico dificulta cada vez mais a construção de uma cultura que não fique presa no materialismo e no impulso de dominação.

O Papa Francisco fala frequentemente sobre a "divinização" do sistema de mercado global atual. Neste conceito, ele fornece uma perspectiva que reforça a criatividade e a liberdade que estruturam as contribuições positivas dos sistemas capitalistas e, ao mesmo tempo, aborda com um senso de urgência as três ameaças de desigualdade estrutural, devastação do ambiente impulsionada pelo mercado e o perigo da corrosão espiritual interligados com sistemas de mercado.

Apenas quando se reconhece que os livres mercados não são um princípio de justiça econômica, mas mero meio para alcançar tal justiça, é que a construção de uma ordem jurídica eficaz e equilibrada dentro de cada nação e entre elas pode realmente avançar.

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