Uma chave para compreender o Papa Francisco? Sua abordagem ao julgamento

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01 Março 2018

Para todos os efeitos, uma parte às vezes pode resumir a essência do todo de um papado. Um exemplo é o Papa Leão X. Descendente da célebre família Medici e patrono das artes, tinha uma inclinação para o luxo. Dizem que depois de sua eleição, ele declarou: "Já que Deus nos concedeu o papado, vamos aproveitar". E aproveitou: sugou o tesouro do Vaticano para financiar renovações extravagantes e enormes projetos de arte, como a conclusão da Basílica de São Pedro. (Para trazer mais receita, expandiu a venda de indulgências, levando à Reforma Protestante.)

A reportagem é de Michael J. O’Loughlin, publicada por America, 27-02-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Há vários exemplos mais recentes, talvez não menos dramáticos, de partes que vão direto ao coração do papado.

Quando perguntaram por que havia convocado o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII teria dito: "Quero escancarar as janelas da Igreja para que possamos enxergar lá fora e as pessoas possam enxergar aqui dentro." Ele foi responsável por algumas das maiores mudanças da história da Igreja, que elevaram o papel dos leigos e inspiraram líderes da Igreja a caminhar rumo à transparência.

Em seguida, com o mundo à beira da aniquilação nuclear nos anos 60, o Papa Paulo VI proclamou às Nações Unidas: "guerra nunca mais, guerra nunca mais!" João Paulo II, vendo a ansiedade tomar conta do planeta com a continuidade da Guerra Fria, iniciou seu papado com: "Não tenhais medo!" Sentindo uma mudança nos desafios enfrentados pela Igreja em meados dos anos 2000, o Papa Bento XVI advertiu, em um discurso pouco antes de sua eleição: "Estamos construindo uma ditadura do relativismo".

Isso nos ajuda a compreender as prioridades e personalidades dos papas, e, embora talvez seja cedo demais para especular como definir o Papa Francisco, é difícil imaginar que qualquer frase possa se aproximar mais do que uma pergunta que ele fez em 2013: "Quem sou eu para julgar?"

O contexto do comentário, que parece ter sido relatado por todas as agências de notícias católicas e laicas, é importante.

Surgiu apenas quatro meses após sua eleição, quando o mundo ainda não tinha completa certeza do que esperar do primeiro papa advindo das Américas. Francisco estava num avião, voltando da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, para Roma. No início da viagem, ele disse aos jornalistas que não dava muitas entrevistas porque ficava desconfortável tentando comunicar-se dessa maneira. Mas no voo para casa, concordou em realizar uma conferência de imprensa, o início de uma tradição que seria uma das maiores e mais ousadas manchetes durante seu papado.

Um jornalista italiano perguntou a respeito de padres gays que trabalhavam no Vaticano, querendo saber, especificamente, se havia um "lobby gay" com alguma influência indevida na Igreja. Francisco disse que não havia evidências de lobby gay e começou a falar sobre pessoas gays em geral.

"Se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?", perguntou o Papa.

Foi uma pergunta simples, que, no entanto, definiria o papado de um pastor que o mundo estava apenas começando a conhecer.

A pergunta do Papa obviamente atraiu católicos L.G.B.T. e suas famílias. Primeiro, Francisco usou a palavra “gay” — pela primeira vez na história dos papados. (Muitos líderes católicos empregam o termo mais clínico "atração pelo mesmo sexo" ao falar sobre gays e lésbicas, muitas vezes devido à objeção às pessoas de que estão falando). Também sinalizava uma abertura dos mais altos escalões da Igreja ao acompanhamento de gays e lésbicas em suas jornadas religiosas, algo relativamente novo na história recente da Igreja.

Nas semanas e meses que se seguiram, alguns especialistas católicos, preocupados que a ênfase da Igreja sobre a pecaminosidade do sexo homossexual fosse perdida em meio ao tom mais acolhedor do Papa, tentaram reverter o comentário.

Apontaram que o Papa Francisco era contra o casamento homossexual, que estava confuso pela chamada "ideologia de gênero", que postula que gênero é uma construção social, e que ele não havia modificado nenhum dogma sobre moralidade sexual. Tudo isso é verdade.

Mas quando o Papa Francisco teve a oportunidade, em 2016, de abordar o comentário, ele repetiu sua afirmação de que gays e lésbicas não devem ser marginalizados na Igreja.

"Nessa ocasião, eu disse isto: Se uma pessoa for gay e busca o Senhor e está disposto a isso, quem sou eu para julgá-la?"

Francisco disse ao jornalista italiano Andrea Tornielli, em uma entrevista que se tornou o livro O nome de Deus é misericórdia. "Estava parafraseando o Catecismo da Igreja Católica,o qual afirma que estas pessoas devem ser tratadas com delicadeza e não devem ser marginalizadas."

"Alegra-me que falemos sobre as ‘pessoas homossexuais’, porque antes de mais nada existe a pessoa individual em sua totalidade e dignidade", acrescentou. "E as pessoas não devem ser definidas somente pelas suas tendências sexuais: não esqueçamos que Deus ama todas suas criaturas e que estamos destinados a receber seu amor infinito."

E como católicos gays e lésbicas devem praticar a fé? Não é diferente de qualquer outra pessoa, apontou o Papa.

“Prefiro que os homossexuais busquem a confissão, que estejam perto do Senhor e que rezemos todos juntos.”, disse. "Podemos pedir-lhes que rezem, mostrar-lhes boa vontade, mostrar-lhes o caminho e acompanhá-los”.

Claro, os comentários do Papa e seu desejo de livrar a Igreja do julgamento excessivo vão muito além de seus pensamentos sobre a comunidade L.G.B.T.. Na verdade, resistir à tendência de julgar aparece reiteradamente nos discursos, homilias e textos do Papa.

Em "Evangelii Gaudium", ou "A alegria do Evangelho", publicada pelo Papa Francisco no primeiro ano de seu pontificado, e que serve como a estrutura de seu papado, ele escreveu o que se tornou outra de suas célebres frases. Ele disse que prefere uma Igreja "ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. Um dos sintomas do fechamento da Igreja em si mesma, acrescentou, é que ela faz com que os cristãos se fixem em "normas que nos transformam em juízes implacáveis”.

Um pouco mais adiante no documento, Francisco escreve sobre as características da evangelização eficaz, que segundo ele incluem "certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena” (grifo nosso).

Por que o foco nos juízos? Claro, nos Evangelhos, Jesus repetidamente adverte seus seguidores a não julgar os outros. Então o Papa Francisco certamente se baseia em material de boa qualidade. Mas na verdade ele está tentando apresentar um argumento mais amplo.

Ele pode entrar para a história como o Papa do "Quem sou eu para julgar?", mas sua pergunta aponta para uma virtude cristã muito mais importante para Francisco — a misericórdia. De forma breve, Papa Francisco acredita que o mundo já esqueceu o que significa ser misericordioso e que o juízo excessivo nos impede de demonstrar misericórdia aos outros.

Ele apresentou esse argumento em uma homilia, em sua residência, em 2014, conforme relatado pelo L'Osservatore Romano. O papa declarou que ser misericordioso inclui buscar o perdão pelos seus próprios pecados — em vez de condenar as falhas dos outros. "Quem sou eu para julgar?" Quem sou eu para fazer fofocas sobre isso? Quem eu sou, que fiz as mesmas coisas, ou pior?", perguntou.

Adotando uma atitude livre de julgamentos, afirma o Papa, o mundo pode se tornar um lugar mais pacífico. "Se todos nós, todos os povos, todas as famílias tivermos esta atitude, quanta paz haveria no mundo, quanta paz haveria em nossos corações, pois a misericórdia nos traz paz!", afirmou. "Lembremos sempre: Quem sou eu para julgar?"

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