A mentira era a lei do campo de concentração

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16 Janeiro 2018

"Eu tinha ouvido falar das câmaras de gás pela Rádio Londres, mas pensei que era propaganda. Eu estava esperando más condições de higiene, trabalho duro, maus-tratos, mas não o massacre científico de milhões de homens que aqui estava se revelando para mim".

O trecho acima faz parte da carta de Jo Koopman, judeu holandês sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz, publicada por "Avvenire" 12-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a carta. 

Atravessando a Holanda o trem parou muitas vezes, mas quando chegou à Alemanha foi em frente sem interrupções. Auschwitz ficava a cerca de 1500 km e chegamos em quarenta horas, sob o bombardeio dos Aliados. Era uma maravilhosa noite de setembro quando as portas dos vagões se abriram e saímos ao ar livre, felizes por finalmente respirar o ar fresco. O lugar era iluminado por vários holofotes. Estávamos apenas a cento e cinquenta quilômetros do front, mas a iluminação só era desligada quando soava o alarme antiaéreo. Prisioneiros em uniforme listrado descarregaram a bagagem e ajudaram as mulheres e crianças a descer. Ninguém quis responder às nossas perguntas. Um número impressionante de SS e guardas.

O nosso grupo de cerca de uma centena de pessoas, incluía tanto casais de judeus, como judeus de ascendência mista, com apenas um dos pais ou avô judeu. Após a chamada nos fizeram marchar até os edifícios administrativos de Birkenau, a três quilômetros da estação. No ar havia um mau cheiro que não se conseguia identificar e que preocupou a todos. Continuamos a caminhar em silêncio, muito cansados e inquietos demais para falar. Da estrada lembro a lama e as cercas de arame eletrificado. Assim deve sentir-se, aproximando-se do matadouro, o animal que percebe que paira à sua volta a morte dos companheiros e, instintivamente, pressente o perigo. Aprendemos logo que o mau cheiro era devido às centenas de corpos queimados pertencentes a um comboio chegado vinte e quatro horas antes da França.

Em pouco menos de uma hora chegamos aos prédios administrativos. Era meio-dia, mas os refletores estavam ligados em todos os lugares e estavam trabalhando sem parar para lavar, raspar e tatuar um grupo de mulheres polonesas; depois teria seria a nossa vez, degradados a objetos, não mais seres humanos. Entre os prisioneiros de casaco listrado que perambulavam naquele lugar eu identifiquei um holandês de aspecto bem nutrido que, olhando à sua volta com ar assustado, me contou que estava lá há um ano. Isso me aliviou um pouco e ele provavelmente notou, pois acrescentou, causando-me calafrios: "Dos mil e quinhentos que chegaram junto comigo, somos agora no máximo em quinze". Olhei para ele espantado: "Mas você está com uma boa aparência!" "Sim", ele respondeu, "porque faço parte do Kommando Kanada, encarregado de selecionar todos os objetos dos recém-chegados; por isso, quando trabalhamos, podemos comer o que queremos; mas não nos permitem tirar nada daqui". Isto não me explicava, no entanto, o percentual tão elevado de mortes: "As outras equipes recebem tão pouca comida?" perguntei. "O resto vai para as câmaras de gás: no campo há uma seleção continua e os muçulmanos, que são os mais fracos, vão para a chaminé", disse ele, olhando para ver o efeito de suas palavras. "Na chegada todos são imediatamente registrados; o que resta do seu comboio foi selecionado assim que saíram do trem. Os mais sortudos vão imediatamente para as câmaras de gás". "Os sortudos?", perguntei. "Sim, sortudos, porque não percebem o que os espera: acreditam que vão tomar uma ducha, mas ao invés disso levam gás. No momento da seleção já tudo é definido".

Assim fui introduzido aos segredos de Auschwitz, segredos que agora são conhecidos no nosso país, mas que então eu não podia acreditar. Eu tinha ouvido falar das câmaras de gás pela Rádio Londres, mas pensei que era propaganda. Eu estava esperando más condições de higiene, trabalho duro, maus-tratos, mas não o massacre científico de milhões de homens que aqui estava se revelando para mim.

No final da tarde, nós que tínhamos entrado com roupas decentes nos banhos saímos vestidos com trapos, lavados, raspados e com um número tatuado no braço, agora prontos. Quando saímos pelos fundos do edifício não nos reconhecíamos mais: tudo o que tínhamos trazido conosco tinha ficado para trás. Colocamo-nos em marcha para Auschwitz, a cinco quilômetros de Birkenau, um pouco aliviados porque nos afastávamos da fumaça do crematório e porque Auschwitz, segundo contavam alguns prisioneiros, não tinha uma reputação tão ruim.

Estava muito quente e as mulheres ficavam para trás. Em três dias havíamos comido e bebido pouco ou quase nada, a maioria nem sequer tinha dormido. Mesmo em tal estado, fomos submetidos a uma marcha tão estafante que muitos caíam de exaustão e tivemos que apoiá-los, arrastando-os, sempre sob a vigilância estreita dos SS. Encontramos grupos de mulheres húngaras que, com as mãos nuas, carregavam tijolos; avançavam uma atrás da outra, em uma longa e triste procissão.

Percorreríamos aquela mesma estrada, meses mais tarde, de volta, costeando o monstruoso espetáculo de centenas de corpos empilhados na neve que os nazistas haviam deixado atrás de si como legado. Mas naquele momento, extenuados como estávamos, ninguém pensava no futuro. Chegamos assim ao portão principal do campo. Acima da entrada não estava escrito: "Abandai toda esperança, vós que aqui entrais", mas Arbeit macht frei, como prova da alta consideração que os nazistas tinham pelo trabalho; consideração que valia não só para os cidadãos alemães, mas também para quem estava dentro dos campos de concentração, onde as pessoas "associais" eram "re-educadas à operosidade" como divulgavam há tempo as propagandas.

Dessa "alta consideração pelo trabalho" parecia ser parte o som de marcha com que saíamos de manhã para trabalhar; mesmo que espancado até a morte, à noite retornava-se para o acampamento da mesma forma, acompanhados pelas notas alegres de uma marcha animada. A propaganda espalhada em volta não era, naturalmente, dirigida aos prisioneiros que, como esperado, jamais poderiam contar coisa alguma, mas para os visitantes que chegavam ao acampamento, que precisavam obrigatoriamente sair com uma boa impressão. Nos barracões eram afixados cartazes coloridos exortando todos à 'honestidade', à 'lealdade', à 'limpeza' e ao 'zelo', 'todas pedras miliares no caminho para a liberdade’. Outras placas proibiam as agressões e havia no Ambulans avisos que lembravam sobre a obrigação por parte dos médicos de comunicar quaisquer ferimento causado por espancamentos, "mesmo que fossem em judeus".

Os estrangeiros que visitavam o campo de concentração viam edifícios de aparência agradável, telhas vermelhas, cortinas e vasos de flores nas janelas. Mas todo o campo era cercado por uma cerca elétrica e até mesmo o alto muro de concreto, no lado interno, era eletrificado. Não tinham um aspecto reconfortante as oito altas torres escuras, das quais despontavam ameaçadores os canos das metralhadoras.

Mas, voltando as costas para tudo isso, viam-se edifícios acolhedores, um gramado, uma fileira de bétulas, a famosa Birkenallee, com seus bancos, uma fonte, uma quadra de basquete.

Não há motivo, portanto, para questionar o relatório elaborado por uma comissão e o que mais tarde foi relatado por um ministro holandês ao Parlamento: "Em um campo de concentração não tem nenhum perigo de morte".

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