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23 Agosto 2013

Durante palestra no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Oswaldo Giacoia Junior discutiu a obra de Giorgio Agamben, O que resta de Auschwitz.

Fotos: Ricardo Machado

“Não devemos retomar Auschwitz como uma experiência que não nos pertence hoje. Auschwitz é toda estrutura jurídico política onde pode acontecer uma transformação da política em vida nua. Auschwitz não é o iluminável, o outro, o absurdo, é o que fazemos agora”, refletiu o professor e pós-doutor em filosofia Oswaldo Giacoia Junior (foto) ao discutir o livro de Giorgio Agamben O que resta de Auschwitz na noite da quarta-feira, 21-08-2013, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. O ciclo de palestras sobre Agamben integra as atividades do I e II Seminários - XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades.

Diante de uma plateia de aproximadamente 80 pessoas, Giacoia, por quase duas horas, proferiu uma palestra de cunho filosófico profundo, abordando as reflexões de Agamben sobre o mais conhecido campo de concentração nazista, mas recuperando a todo tempo outros nomes da Filosofia, como Nietzsche, Spinoza, Kant e Heidegger. Temas como ressentimento, perdão e memória permearam toda a fala do palestrante.

A reportagem é de Ricardo Machado.

Problema ético

Giacoia chamou atenção para uma sensível mudança no problema ético pós-Auschwitz. “Não se trata de assumir o espírito de vingança, mas tudo não se passa, também, de como manter firme aquilo que não se pode humanamente tolerar. Não se trata de exigir a suspensão do tempo como medida moral para tornar indeléveis as marcas do passado. Estamos diante de um ser além da recusa”, destaca. Para o professor, a questão essencial diz respeito a pensar, não os crimes cometidos em Auschwitz, do ponto de vista do enquadramento funcional, mas ter em conta a chave paradigmática que tornou aquilo possível e que não deixou de se repetir.

Experiência

“A experiência indizível de Auschwitz, aquilo que se passou nos campos de concentração, exige avançar em relação aos tempos passados. O que aconteceu nos campos [de concentração] ultrapassa o registro do que se entende por crime. O campo é unicamente o lugar no qual se realizou a conditio inumana que jamais existiu sobre a terra. É isso o que conta para a posteridade”, sustenta o professor. No sentido de tentar aproximar a questão teórica à realidade concreta, o professor provocou o público a pensar o que é um campo de concentração, tanto no seu aspecto físico quanto na estrutura jurídica, o que nos leva a pensar o campo de concentração como uma matriz oculta e não como fato histórico.

 

Nesse sentido, Giacoia fez um convite a pensar na arqueologia como via de acesso ao presente, como um paradigma do espaço biopolítico em que habitamos, considerando a materialização do campo de exclusão, e não como um evento historiográfico a ser reproduzido. “Agamben lembra que um campo é, então, tanto o estádio de Bari, no qual, em 1991, a polícia italiana arrebanhou provisoriamente imigrantes albaneses ilegais, antes de serem recambiados para a terra deles, quanto o velódromo de inverno, que servia aos funcionários de Vichy como um lugar de reunião dos judeus, antes que estes fossem entregues aos alemães; assim como o campo de refugiados na fronteira com a Espanha, nos arredores do qual, em 1939, Antônio Machado veio a morrer, e também as zones d’attente nos aeroportos internacionais da França, nos quais são retidos os estrangeiros que postulam o reconhecimento do status de fugitivos”, frisa.

A linguagem e o homem

O conferencista também destacou a questão da linguagem, colocando-a como um espaço em que o homem se constitui como sujeito. Assim, conforme apontou Giacoia, a subjetividade se torna a capacidade do locutor de se propor enquanto sujeito. Isto é, a linguagem não seria mais que a emergência do ser. “O ‘eu’ é um vetor institucional de abertura ao outro, justamente porque implica uma reciprocidade. ‘Eu’ não sou ‘eu’ a não ser quando a enunciação se incidia para um ‘tu’”, explica.

“Uma voz é o que permite ao pensamento a experiência de ter lugar na realidade. ‘Eu’ e ‘este’ não têm referência lexical. A dessubjetivação a que me refiro não é mais o ‘eu’ natural, mas é acerca deste ter lugar na linguagem”, enfatiza. Giacoia leu um longo trecho de um texto de Primo Levi que conta a história de um menino de três anos cujas palavras não eram compreendidas por ninguém. Ele teria nascido em Auschwitz e, ao sair pela primeira vez do campo de concentração, em 1945, conheceu uma árvore, mas, infelizmente, faleceu no ano de sua liberdade. “O menino morreu livre, mas não redimido, porque nunca teve acesso ao ato da linguagem que constitui a subjetividade”, conta.

Testemunho

A ética do testemunho, explicou o professor, trata-se de um jogo realizado entre a fronteira do humano e do inumano. “O sujeito da enunciação como sujeito empírico é o que não é a testemunha integral. Na impotência de dizer que é próprio da vítima, funda-se a possibilidade humana do discurso. O sujeito é, portanto, o devir homem do inumano”, esclarece Giacoia. “O homo sacer é o que sobra do humano”, complementa.

Subjetividade e biopolítica

Para o palestrante, a subjetividade colocada em paralelo com a questão política só pode ser colocada em uma relação de subjetivação e dessubjetivação. “Agamben pergunta quem seria o sujeito de uma política de resistência. Por que o Estado moderno funciona como uma máquina de dessubjetivar e uma máquina de recodificar o registro jurídico? Há sempre uma ressubjetivação e retificação desses sujeitos esvaziados de toda a identidade”, destaca. Tal contexto exige, por outro lado, ter em conta os perigos da recodificação no sentido de produzir uma nova figura de “sujeito assujeitado”. “Para evitar o assujeitamento, seria necessário manter-se livre nesse duplo movimento – cuidado de si e desprezo de si. Trata-se verdadeiramente de identificar essa zona”, reforça.

Transformar a biopolítica em uma nova política

“Transformar a biopolítica como uma nova política, a partir do resto, é também o campo do testemunho e da palavra que refuta a participação da vida e da sobrevivência. Ser sujeito do testemunho é ser o resto”, relata Giacoia. Cada subjetivação, conforme apontou durante a palestra, implica em uma rede de subordinação de poderes, isto é, o sujeito se apresenta como um campo de forças percorrido por dois campos. O sujeito não seria, então, outra coisa que não o resto.

Revolução permanente

Segundo Giacoia, o problema da revolução permanente é pensar o novo em uma nova relação entre o possível e o real, pois é a realidade que permite tornar-se possível. Assim, o pensamento deveria reconsiderar a política como noção de vida boa. “É preciso encontrar nesse espaço de indiferenciação um âmbito possível de atuação política que pode ser efetivamente eficaz. Atuação política é a questão do sujeito. Antes que campos de extermínio fossem abertos, era preciso que entidades globais colocassem em questão o princípio de nacionalidade, para que isso não se torne uma partilha territorial. Essa é uma condição específica de extraterritorialidade: ao invés de dois Estados nacionais, árabe e judeu, separados por fronteiras incertas e específicas, seria mais interessante uma condição de êxodo permanente de uma pela outra”, propõe o conferencista ao resgatar as reflexões de Agamben.

Memória como superação do ressentimento

 

Especialista em Nietzsche, quando foram abertas as perguntas, o palestrante foi incitado a falar um pouco mais das relações entre os pensamentos de Nietzsche e de Agamben. Nesse sentido, ele reiterou que não faz mais sentido pensar na ética deontológica depois de Auschwitz. “Toda a perspectiva de dever ser está morta aí. Como atualizar uma ética de amor fati diante de Auschwitz? A verdadeira pergunta é: o que faz com que Auschwitz não pare de se repetir? Essa é a função da memória em Nietzsche”, sustenta.

Política e direito

Giacoia considera que, para pensar a política, é preciso pensar o direito. “É impossível pensar a política sem essa relação. A ideia de revolução em Agamben, onde se aproxima de Walter Benjamim, é a abolição da lei pela graça. Se a gente não lê São Paulo é impossível entender Agamben. A suprassunção do jurídico é a revolução constante. Ou seja, a eliminação do Estado. No fundo Agamben não tira nenhum coelho da cartola, ele está revisitando outras pessoas, como Marx, por exemplo”, avalia.

Quem é Oswaldo Giacoia

Graduado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Oswaldo Giacoia Junior é também mestre e doutor em Filosofia por esta instituição. É pós-doutor pela Universidade Livre de Berlim, Universidade de Viena e Universidade de Lecce, Itália, e livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde leciona no Departamento de Filosofia. Especialista em Nietzsche, sobretudo em seu pensamento político, publicou, entre outros: Nietzsche – para a Genealogia da Moral (São Paulo: Editora Scipione, 2001), Nietzsche como psicólogo (2ª ed. São Leopoldo: Unisinos, 2004), Sonhos e pesadelos da razão esclarecida: Nietzsche e a modernidade (Passo Fundo: Editora da Universidade de Passo Fundo, 2005) e Nietzsche & para Além do Bem e Mal (2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005). Recentemente publicou Nietzsche versus Kant: um debate a respeito de liberdade, autonomia e dever (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012) e Heidegger Urgente: introdução a um novo pensar (São Paulo: Três Estrelas, 2013).

 Veja também:

O que resta de Auschwitz e os paradoxos da biopolítica em nosso tempo. Entrevista especial com Oswaldo Giacoia Junior. Entevista publicada nas Notícias do dia, de 21-08-2013, no sitio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
* Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. Revista IHU On-Line, edição 371, de 29-08-2011
* O campo como paradigma biopolítico moderno. Revista IHU On-Line, edição 372, de 05-09-2011
* O estado de exceção como paradigma de governo. Revista IHU On-Line, edição 373, de 12-09-2011
* A exceção jurídica e a vida humana. Cruzamentos e rupturas entre C. Schmitt e W. Benjamin. Revista IHU On-Line, edição 374, de 26-09-2011 
* A testemunha, um acontecimento. Revista IHU On-Line, edição 375, de 03-10-2011
* A testemunha, o resto humano na dissolução pós-metafísica do sujeito. Revista IHU On-Line, edição 376, de 17-10-2011 
* A vítima da violência: testemunha do incomunicável, critério ético de justiça. Revista IHU On-Line, edição 380, de 14-11-2011
* Genealogia da biopolítica. Legitimações naturalistas e filosofia crítica. Revista IHU On-Line, edição 386, de 19-03-2012
* A bios humana: paradoxos éticos e políticos da biopolítica. Revista IHU On-Line, edição 388, de 09-04-2012
* Objetivação e governo da vida humana. Rupturas arqueo-genealógicas e filosofia crítica. Revista IHU On-Line, edição 389, de 23-04-2012
* A economia e suas técnicas de governo biopolítico. Revista IHU On-Line, edição 390, de 30-04-2012
* O advento do social: leituras biopolíticas em Hannah Arendt. Revista IHU On-Line, edição 392, de 14-05-2012
* O trabalho e a biopolítica na perspectiva de Hannah Arendt. Revista IHU On-Line, edição 393, de 21-05-2012
* Biopolitica, estado de excecao e vida nua. Um debate. Revista IHU On-Line, edição 344, de 21-09-2010
* O (des) governo biopolitico da vida humana. Revista IHU On-Line, edição 343, de 13-09-2010

(A reportagem é de Ricardo Machado)

 

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