Do campo de concentração, pastor escreve aos familiares

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22 Julho 2014

Em meados dos anos 1920, Paul Schneider tornou-se pastor evangélico em duas pequenas localidades da Renânia. Pela sua ação pastoral, entrou em confronto com o responsável pela seção local do partido nazista.

A reportagem é publicada por Basílica de San Bartolomeo all'Isola, sede da Comunidade Santo Egídio, em Roma, 18-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Paul Schneider tem 33 anos, é casado com Margarethe e tem quatro filhos, quando, no dia 8 de outubro de 1933, depois de receber uma primeira denúncia, escreve: "No domingo passado, preguei novamente sobre Romanos 1, 16. De fato, não me envergonho do Evangelho, porque ele é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu primeiro e depois do grego. Não acredito que a nossa Igreja Evangélica poderá evitar um confronto com o Estado nazista e nem que conseguirá adiá-lo por muito tempo...".

É fevereiro de 1934, quando, depois de ter se pronunciado do púlpito contra Goebbels e contra os Deutsche Christen, associação cristã evangélica submetida ao Führer, Paul Schneider é transferido para os vilarejos de Dickenstein e Womrath, em Hunsrück (500 fiéis ao todo).

O seu rigor evangélico o levaria a apontar explicitamente contra altos hierarcas nazistas e o próprio Hitler. Nesses anos, ele defende publicamente os judeus, prega, opõe-se à abolição das escolas confessionais, fechadas pelo regime, aplica a penitência cristã segundo a tradição reformada a um expoente do partido nacional-socialista que perturbava a vida das pequenas comunidades.

Apoia a Igreja Confessante. Sofre uma primeira prisão por ter se oposto ao líder nazista local, que, em um funeral, tinha usado expressões pagãs. A essa prisão, seguiram-se outras, até 1937. A companhia de Margarethe, da qual recém-tivera o sexto filho, o suporta, compartilhando com ele uma experiência de fé profunda.

As páginas do seu diário estão repletas de terno amor pelos seus entes queridos. No dia 31 de junho de 1937, ele foi levado pela Gestapo para a prisão de Koblenz, por oito semanas, ao término das quais lhe seria notificado um decreto de expulsão da Renânia.

O não cumprimento desejado e escolhido do decreto, por obediência ao Evangelho e por amor às pequenas comunidades que lhe haviam sido confiadas, levam-no a uma nova prisão e à deportação para Buchenwald.

Na última homilia, 50 dias antes da Páscoa, ele disse: "Cara comunidade, hoje, cruzamos novamente uma porta, a porta que nos insere no tempo santo da Paixão. O nosso amado Senhor e Salvador, de fato, quer tomar também a nós com ele e nos dizer: 'Eis que subimos a Jerusalém'... Também para os discípulos e para a comunidade (...) o caminho que leva à coroa só pode passar pela cruz (...) Um olhar para a Rússia deveria nos ensinar muitas coisas. Lá, qualquer tipo de organização oficial da Igreja é desmembrada e dissolvida, os pastores desapareceram, os edifícios sagrados foram quase todos desmantelados. No entanto, a Igreja de Jesus Cristo lá está viva mais do que nunca (…) naqueles que aqui e lá se reúnem nas casas, nos sacerdotes laicizados, que não cessam de anunciar a Palavra, dispostos a aceitar as punições às quais vão ao encontro (…) E não te enganes: porque tu não podes tomar parte na vitória e na glória de Jesus se não assumindo sobre ti, por amor a ele, a santo cruz, percorrendo com ele o caminho da Paixão e da morte. Por isso, é preciso a fé: porque é a fé que conhece o poder e a vitória da cruz. Essa fé é uma força escondida, silenciosa e quieta; porém, nem por isso é inoperante e inerte, e se ativa na oração intensa, apaixonada".

No campo de concentração de Buchenwald, onde encontrou a morte, Schneider foi submetido a maus-tratos e a torturas particulares, porque se recusava a prestar homenagem à cruz gamada e a Hitler.

Desde abril de 1938, ele foi preso em isolamento no Bunker do campo, onde passou os últimos 14 meses de vida. Do Bunker, no entanto, não cessou a sua atividade de pregação, de denúncia dos crimes e de conforto aos detentos.

Um colega de detenção assim recordou: "No Bunker onde se encontravam as celas de isolamento escuro, conheci o pastor Schneider; ele estava na cela ao lado da minha. Todas as manhãs, ele fazia para nós, prisioneiros, uma oração matinal, e por causa dela, todas as vezes, ele era espancado e torturado (...). No domingo de Páscoa, de repente, ouvimos as poderosas palavras: 'Assim diz o Senhor: Eu sou a ressurreição e a vida'. As longas filas dos prisioneiros estavam atentas, profundamente perturbadas com a coragem e a energia daquela vontade indômita (...). Ele nunca pôde pronunciar mais do que poucas frases. Depois, sentimos abaterem sobre ele os golpes de bastão dos guardas...".

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