A lição de Francisco: Evangelho e diplomacia

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Papa Francisco ataca o 'desejo de poder', a 'rigidez disciplinar' e a 'deslealdade' nas associações de fiéis, dos movimentos eclesiais e das novas comunidades

    LER MAIS
  • O que significa ser padre hoje? Artigo de Timothy Radcliffe

    LER MAIS
  • Jacques Dupuis: um caso aberto

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


05 Dezembro 2017

Há quem tenha falado de “realpolitik”, quem tenha dito que a fama do papa defensor dos direitos humanos tinha se ofuscado um pouco, quem tenha sopesado cada sílaba concluindo que Bergoglio tinha se rendido com excessiva prudência diplomática. O sistema midiático internacional, justamente interessado na situação dos refugiados do Estado birmanês de Rakhine, discriminados e perseguidos, tinha apontado os refletores, há dias, sobre aquilo que Francisco, chegando a Myanmar, diria sobre essa etnia muçulmana. E, acima de tudo, se perguntavam se o pontífice usaria ou não a palavra “Rohingya”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 02-12-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma atenção certamente fomentada pelos repetidos posicionamentos públicos da Igreja birmanesa, que, pela boca do cardeal de Yangon, pedira a Francisco que não usasse esse termo nos seus discursos.

Assim, esquecendo que, em Myanmar, existem dezenas de outras etnias discriminadas, homens e mulheres deslocados e obrigados a pagar um preço muito alto pelos objetivos independentistas de grupos e grupelhos armados, toda a intensa viagem papal se jogou – no sistema midiático internacional – em torno desta pergunta: o papa vai dizer ou não essa palavra?

No discurso proferido na terça-feira, 28 de novembro, perante a conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi, e das autoridades políticas birmanes, Bergoglio não usou a palavra Rohingya, mas falou claramente sobre eles ou, melhor, também sobre eles, exigindo o respeito pelos direitos humanos e a cidadania para cada grupo étnico, sem excluir nenhum.

Nas horas posteriores e no dia seguinte, o papa foi criticado por não ter ousado mais. Um caso de “realpolitik”, disse-se. A diplomacia que prevalece sobre a denúncia da violação dos direitos humanos mais elementares, comentaram alguns.

Três dias depois, em Bangladesh, Francisco não só chamou a etnia perseguida pelo seu nome, mas também fez muito mais. Falou com os gestos, com a compaixão, com a dor visivelmente expressada no seu rosto. Encontrou-se com 16 Rohingya, homens, mulheres e crianças assustados e desorientados, que se encontraram diante do pontífice e puderam contar as suas terríveis histórias. Tratou-se de uma mensagem poderosa, destinada a encerrar a polêmica midiática sobre o uso ou não uso de uma palavra.

Mas a verdadeira novidade chegou no sábado à noite, quando, no voo de volta de Dhaka, Francisco se encontrou com os jornalistas, falando difusamente não apenas dos sentimentos experimentados ao se encontrar com aquelas pessoas, mas também das motivações que o levaram a agir como agiu diante das autoridades birmanesas.

A sua resposta, embora apresentada de modo modesto e mínimo (“A sua pergunta é interessante, porque me leva a refletir sobre como eu tento comunicar”), na realidade, foi uma lição não tanto ou não apenas de diplomacia, mas, acima de tudo, de comunicação e de testemunho evangélico.

“Para mim, o mais importante é que a mensagem chegue”, explicou. “Para isso, é preciso tentar dizer as coisas passo a passo e escutar as respostas. O que me interessava era que essa mensagem chegasse. Se, no discurso oficial, eu tivesse dito essa palavra, teria sido como bater a porta na cara dos meus interlocutores. Mas eu descrevi a situação, falei dos direitos das minorias, para me permitir, depois, nas conversas privadas, ir além. Fiquei satisfeito com as conversas: é verdade, não tive o prazer de bater a porta na cara publicamente, mas tive a satisfação de dialogar, de fazer com que o outro fale, de dizer a minha opinião. Até o encontro e as palavras de sexta-feira. É importante a preocupação de que a mensagem chegue: certas denúncias, na mídia, às vezes ditas com agressividade, fecham o diálogo, fecham a porta, e a mensagem não chega.”

O que isso significa? Talvez que a sacrossanta denúncia das violações dos direitos humanos deve ser silenciada em nome de uma vida tranquila? Ou que a verdade dos fatos deve ser envolta com palavras diplomáticas comedidas e suficientemente assépticas a ponto de não irritar quem está no poder?

Nada disso. O que estava no coração de Francisco, que também já havia lançado apelos públicos em favor dos Rohingya, chamando-os pelo nome, era poder contribuir positivamente para a solução da crise, chamando a comunidade internacional a não se virar para o outro lado: o que muitas vezes acontece, infelizmente, como demonstram certas crises, certas guerras e certas emergências humanitárias esquecidas pela mídia e pouco consideradas, talvez porque nos forçariam a rever as nossas certezas sobre quem são os “bons” e os “maus” do momento.

Mas, ainda mais, estava no coração do papa que a sua mensagem chegasse ao seu destino, que pelo menos fosse ouvida, senão plenamente aceita. Francisco, tendo em mente a situação concreta dos refugiados e tentando ajudá-los, não agiu de acordo com o politicamente correto indicado pela mídia. Escolheu não “bater a porta no nariz” dos seus interlocutores políticos no discurso público, para ser mais livre para se expressar nos encontros face a face.

No encontro com o general Hlaing, explicou ele, “eu não negociei a verdade. Eu usei as palavras para chegar à mensagem e, quando vi que a mensagem era aceita, ousei dizer tudo o que queria dizer”.

A escolha ou, melhor, o dilema, não é novo para os papas, que não têm interesses políticos a defender e que, há um século e meio, não têm mais um Estado propriamente dito. Não é por acaso se justamente a perda desse poder temporal, como notava o então cardeal Giovanni Battista Montini em um célebre discurso no Campidoglio às vésperas da abertura do Concílio Vaticano II, foi providencial, porque permitiu que o papado falasse mais livremente. Mas seria um erro ler o que aconteceu nestes dias em Myanmar e Bangladesh com a lente da dialética entre profecia e diplomacia, entre denúncia e realpolitik.

O que aconteceu naquela parte do Extremo Oriente, mais uma vez, deve ser lido à luz da possibilidade concreta de salvar vidas e de melhorar as condições de vida dos Rohingya, evitando que novas incursões e assassinatos sejam perpetrados.

Francisco escolheu agir como fez para que a sua mensagem chegasse. E, no encontro com os refugiados, na visível participação na sua dor, na sua proximidade pessoal, no seu pedido de perdão pela indiferença do mundo, tornou evidente, mais uma vez, o que significa evangelizar.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A lição de Francisco: Evangelho e diplomacia - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV