Decisão sobre o primeiro relatório de liberdade religiosa do governo Trump: ótimo discurso, mas o que faremos?

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17 Agosto 2017

Como o presidente Donald Trump prometeu por diversas vezes tornar a defesa da liberdade religiosa um elemento-chave da política externa dos EUA, a divulgação do primeiro Relatório de Liberdade Religiosa Internacional pelo Departamento de Estado, sob sua responsabilidade, foi muito aguardada. Em geral, analistas dizem que o relatório tem pontos positivos, mas ainda deixa uma questão básica sem resposta: tendo identificado o problema, o que faremos a respeito?

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 16-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Dizer que os líderes católicos, tanto nos Estados Unidos quanto em Roma, têm seus problemas com o presidente Donald Trump em vários âmbitos seria subestimar demais o que realmente acontece. No entanto, uma área em que, até agora, as opiniões basicamente convergem, pelo menos retoricamente, é a importância de promover e defender a liberdade religiosa.

Esse é um dos motivos pelos quais a divulgação do Primeiro Relatório de Liberdade Religiosa Internacional do Departamento de Estado dos EUA no governo de Trump e do Secretário de Estado Rex Tillerson, na terça-feira, despertou ainda mais curiosidade, especialmente entre pessoas que estavam ansiosas para ver se haveria alguma saída drástica ou redirecionamento.

Com toda a honestidade, essas expectativas, em geral, podem ter sido exageradas: o Departamento de Estado é um setor maciçamente burocrático, que não muda de direção independentemente de quem esteja na Casa Branca. Além disso, de qualquer maneira, o trabalho no relatório estava quase pronto antes da mudança de governo.

"É basicamente um documento do Departamento de Estado", contou o jesuíta Pe. Thomas Reese, membro e ex-presidente da Comissão independente dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional nesta terça-feira.

"Eu ficaria muito surpreso se houvesse alguma influência da Casa Branca", disse ele.

Tom Farr, presidente do Instituto de Liberdade Religiosa e diretor do Projeto de Pesquisa sobre Liberdade Religiosa da Universidade de Georgetown, disse na terça-feira que não há nada "muito diferente" no documento em comparação a governos anteriores, embora ele o elogie como uma descrição "completa e sensata" do problema em quase 200 países.

Em compensação, os defensores da liberdade religiosa encontraram motivos para apreciá-lo.

Muitos afirmaram, sobretudo, que a linguagem firme do secretário de Estado Rex Tillerson de que o EI era responsável por genocídios marcou um avanço significativo. O ex-secretário de Estado, John Kerry, também declarou que o grupo era culpado de genocídio, mas com a ressalva de que era uma crença "pessoal".

Tillerson, no entanto, afirmou que era uma conclusão oficial do Departamento de Estado, depois do que chamou de "aplicação da lei aos fatos". O EI, segundo Tillerson, é "claramente responsável pelo genocídio contra Yazidis, cristãos e muçulmanos xiitas".

"Foi bom vê-los considerar o EI culpado por genocídio de forma tão abrangente, sem ter como base opiniões pessoais ou coisas do gênero", disse Edward Clancy, diretor de divulgação e evangelização da Ajuda à Igreja Que Sofre dos EUA, órgão pontifício que auxilia cristãos que sofrem perseguição no mundo todo.

Ele contou ao Crux que a abordagem de Tillerson ao EI, que não admite desculpas, deve ter sido o "grande destaque" do relatório divulgado na terça-feira.

Além disso, considerando as movimentações da política externa do governo Trump até agora, com abordagens muito mais amigáveis do que no governo Obama a líderes mundiais imponentes como Xi Jinping, da China, o rei Salman bin Abdulaziz, da Arábia Saudita, Abdel Fattah al-Sisi, do Egito, e Recep Tayyip Erdogan, da Turquia - sem contar, é claro, Vladimir Putin, da Rússia -, foi impressionante ver a denúncia do relatório a abusos contra a liberdade religiosa de forma tão detalhada e explícita em cada um desses países.

Nesse sentido, se alguém temia que o Departamento de Estado tivesse seus favoritos ou se contivesse em certas críticas em relação à liberdade religiosa, pode ficar tranquilo. (Embora a Rússia não esteja na lista de "países em situação preocupante", como recomendado pela comissão independente.)

"Fiquei impressionado com Tillerson", disse Reese.

Porém, certos elementos do relatório também deixaram alguns desapontados. Além da Rússia, a comissão independente também recomendou que a República Centro-Africana, a Nigéria, o Paquistão, a Síria e o Vietnã estivessem entre os "países em situação preocupante", mas isso também não aconteceu.

Clancy, particularmente, disse estar intrigado que o Paquistão tivesse sido omitido e afirmou que sentia que sua inclusão seria quase "automática". Reese foi um pouco mais simpático, reconhecendo que o Departamento de Estado precisa equilibrar as questões de liberdade religiosa e as de segurança nacional, principalmente o papel do Paquistão na luta contra grupos terroristas islâmicos e o fato de ser uma potência nuclear.

Basicamente, na visão da maioria dos analistas veteranos, a última edição do relatório de liberdade religiosa ainda deixa sem resposta a questão que assombra a comissão desde seu início, em 1998: agora que identificamos o problema, o que faremos a respeito?

Muitos analistas dizem que, se Trump ou qualquer outra pessoa realmente quer tornar a liberdade religiosa a base da política externa dos EUA, isso significaria pelo menos três coisas.

Primeiro, segundo eles, a disposição de impor sanções significativas aos infratores, quando for o caso.

Chris Smith, republicano representante dos EUA de Nova Jersey, que é o presidente de um painel da câmara sobre os direitos humanos globais e um dos membros mais ativos do congresso a respeito da liberdade religiosa, elogiou a linguagem usada por Tillerson a respeito do EI na terça-feira e disse que o fato de o relatório alertar sobre abusos em países como Vietnã, Paquistão, Nigéria e Síria é um "passo na direção certa".

No entanto, segundo ele, "o passo mais difícil será colocar esses países ou atores não estatais, como o EI e o Boko Haram, na lista negra dos Estados Unidos de países que violaram a liberdade religiosa de forma severa", ou seja, "em situação preocupante", acusados de "violações severas à liberdade religiosa".

"Essas designações podem incluir sanções", acrescentou, sugerindo que gostaria de ver um uso de autoridade mais robusto e atuação nos termos do ato de 1998.

Nem todos acreditam que a sanção seja o instrumento adequado, mas a ideia é encontrar formas de expressar desaprovação que vão além de mera retórica.

Em segundo lugar, ter como base a liberdade religiosa significaria levar a sério, como repetiu Tillerson na terça-feira, que não é apenas um imperativo moral, mas uma prioridade de segurança nacional.

"Países que efetivamente protegem esse direito humano são mais estáveis, economicamente ativos e pacíficos", disse Tillerson. "O fracasso dos governos em proteger esse direito cria instabilidade, terrorismo e violência".

Farr afirma que se acreditamos nisso, precisamos fazer investimentos de acordo com o discurso.

"Por exemplo, devemos treinar os diplomatas e programas de financiamento, que apresentam argumentos de interesse próprio para governos e investidores que agora veem a liberdade religiosa como uma ameaça ou um cavalo de Tróia", disse Farr.

"Precisamos de uma estratégia abrangente de liberdade religiosa internacional integrada à estratégia de segurança nacional", declarou. "No momento, não temos nada que se aproxime de tal estratégia".

Em terceiro lugar, os analistas dizem que um foco real na liberdade religiosa também significaria sérios esforços para ajudar as vítimas quando houver perseguições e utilizar a influência do país para impedir que corram riscos novamente no futuro.

Clancy diz que acima de tudo a "prova real" desse compromisso está se desenrolando no Iraque e na Síria.

"Devemos prestar apoio direto aos grupos minoritários que estão tentando se ajudar, no sentido de se recolocarem nos lugares onde têm uma longa história", afirmou. "Também precisamos usar os recursos dos Estados Unidos para dizer ao Iraque e à Síria: 'Realmente queremos isso, essas pessoas não podem simplesmente ser deixadas de lado'."

Os cristãos no Iraque, particularmente, enfrentam uma "difícil batalha se não tiverem um forte aliado nos EUA", advertiu.

"Estamos dispostos a pressionar o suficiente para garantir liberdade e paz a essas pessoas?", questionou.

Para Farr, muito pode depender do ex-governador do Kansas, Sam Brownback, agora no papel de Embaixador Extraordinário dos Estados Unidos para a liberdade religiosa internacional, como até que ponto consegue exercer influência dentro da Casa Branca de Trump.

"A posição de Brownback é crucial", afirmou.

Clancy também pediu cuidado.

"Eles fizeram promessas", disse ele, referindo-se à equipe de Trump. "Agora precisamos colocar pressão para que as promessas sejam mantidas."

Reese acredita que a esperança de que isso se concretize depende, principalmente, de uma circunscrição.

"É a base evangélica", afirmou. "Simples assim."

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