Por que devemos ler Spadaro sobre o “integralismo católico”?

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20 Julho 2017

“O artigo de Spadaro e Figueroa marca a fase mais recente desta breve porém intensa história, e pode ser interpretada como parte da apreciação romana e vaticana das relações entre o catolicismo americano e Trump”, analisa Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, em artigo publicado por Commonweal, 18-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “Steve Bannon e Donald Trump irão, a certa altura, não mais constituir uma preocupação do catolicismo americano. Mas esta questão americana particular da relação entre a Igreja e o poder secular sempre se fará presente. La Civiltà Cattolica e setores amplos do catolicismo americano há tempos têm estado em lados opostos no debate a respeito da compatibilidade da Igreja com a democracia liberal. Antigamente, eram os americanos que achavam que eles eram compatíveis e a revista jesuíta achava que não eram; hoje é o contrário”.

Eis o artigo.

A revista jesuíta La Civiltà Cattolica, editada em Roma, é uma das fontes mais importantes para se compreender a relação entre os jesuítas, o papado e a Igreja Católica, de um lado, e o mundo secular, moderno, de outro. Desde a sua fundação em 1850, seus artigos sinalizam posições particulares ou mudanças em temas importantes, incluindo a liberdade religiosa, o comunismo, o racismo e o antissemitismo entre as Primeira e Segunda guerras mundiais.

O exemplo mais recente é o texto escrito seu pelo editor-chefe Pe. Antonio Spadaro, SJ, e Marcelo Figueroa, teólogo presbiteriano da Argentina, que desde junho de 2016 atua como o editor da edição argentina do jornal vaticano L’Osservatore Romano. Em crítica marcadamente direta e duramente redigida, eles argumentam que os esforços para construir conexões entre os católicos americanos conservadores e os protestantes evangélicos têm sido motivados mais em termos políticos do que em termos religiosos, e que têm um impacto importante na cultura política dos católicos conservadores nos EUA.

Embora escrito em parceria pelo editor, um dos aliados mais próximos do Papa Francisco desde o começo deste papado, o artigo não representa a posição oficial de La Civiltà Cattolica, dos jesuítas ou do Vaticano. Às vezes há a tendência de ver em todas as coisas relacionadas ao Vaticano uma unidade ideológica e intelectual que não existe nem nunca existiu. As edições de La Civiltà Cattolica são examinadas pelo Vaticano antes de serem publicadas. Mas as relações entre o Vaticano e a revista (sediada em Villa Malta, atrás das escadarias espanholas) sempre foram complicadas (por exemplo, durante o pontificado de João Paulo II [1]) – não menos complicadas do que as relações entre o papado e os jesuítas. [2] Não é só uma questão de relações de poder entre o papa, a revista e os jesuítas. É também uma questão de relações entre os próprios jesuítas – dentro da La Civiltà Cattolica e dentro da Companhia de Jesus, na Itália e no mundo.

O artigo é de leitura obrigatória, e provavelmente será lembrado por motivos variados. O primeiro tem a ver com o papel de La Civiltà Cattolica no pontificado de Francisco. O que a revista faz é muito mais importante para a compreensão deste papa do que o faz a cúria, especialmente a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, do prefeito Cardeal Robert Sarah, e a Congregação para a Doutrina da Fé – pelo menos até a partida do Cardeal Gerhard Müller e a chegada de Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer. Não são somente os artigos que a revista publica, mas também todos os livros que se originam com os jesuítas da Villa Malta e os numerosos eventos que patrocinam e organizam. No começo do ano, a revista lançou edições em francês, inglês, espanhol e coreano.

Mas um tal engajamento ativo não é novidade. Na verdade, ele remonta a quase 60 anos, ao trabalho editorial do Pe. Roberto Tucci que, assim como Spadaro, é um jesuíta italiano familiarizado com os países de língua inglesa. Durante o pontificado de João XXIII, Tucci posicionou La Civiltà Cattolica de forma a apoiar a sua mensagem teológica bem como o Vaticano II, que enfrentava uma oposição significativa tanto dentro da Igreja Católica quanto na Companhia de Jesus. A mudança de La Civiltà Cattolica sob Tucci foi apenas o prelúdio para a mudança na orientação teológica geral da Companhia de Jesus que ocorreu no fim do Vaticano II, graças ao seu novo superior geral, o Pe. Pedro Arrupe. No contexto da chamada globalização do catolicismo, La Civiltà Cattolica não é o megafone do Vaticano. Mas tem havido um encontro de pensamento com Francisco, e a revista tem refletido os planos de um pontífice que escolheu, desde o começo, não ter a sua própria Cúria Romana ideologicamente alinhada, o que foi feito por João Paulo II e Bento XVI.

O segundo motivo tem a ver com o que o artigo de Spadaro e Figueroa representa: uma outra fase na relação ainda em desenvolvimento (e por vezes difícil) entre Francisco, o catolicismo americano e os EUA em geral. A primeira fase cobriu os dois primeiros anos do pontificado de Francisco (março de 2013 a setembro de 2015), marcados por cautela da parte o papa, mesmo diante da crítica crescente e publicamente expressa de certos prelados deste país já em meados de 2013. Nos dois anos seguintes, Francisco teve de se preparar para o Sínodo dos Bispos sobre a família e para a viagem aos Estados Unidos – esta última especificamente projetada para estabelecer relações normais com a Igreja Católica mais poderosa no Atlântico Norte.

A segunda fase começou com o segundo Sínodo, em outubro de 2015, quando alguns bispos e cardeais americanos despontaram como as principais vozes opositoras a Francisco. A recepção do Sínodo e a recepção difícil (ou não recepção) de Amoris Laetitia – especialmente por parte do Cardeal Burke e de Dom Charles Chaput, e por uma maioria do episcopado estadunidense – deixariam bem claro o quão complicado seria esta relação.

A terceira fase compreende a campanha e a eleição de Donald Trump em 2016. Durante este tempo, houve um intercâmbio sem precedentes entre um papa e um candidato americano à presidência, cuja vitória na sequência foi ajudada por uma maioria de católicos brancos e com o apoio de certas lideranças eclesiásticas do país – isto apesar das declarações islamofóbicas de Trump e da defesa dele pela deportação de imigrantes indocumentados, entre outras coisas. O artigo de Spadaro e Figueroa marca a fase mais recente desta breve porém intensa história, e pode ser interpretada como parte da apreciação romana e vaticana das relações entre o catolicismo americano e Trump.

Dito isso tudo, o texto aqui comentado não é o primeiro a abordar, em termos severos, alguns problemas políticos próximos do coração dos conservadores americanos. Por exemplo, houve o artigo sobre o controle de armas, escrito pelo jesuíta Pierre de Charentenay em março 2016, que deixava clara a indisposição da revista de se desculpar por um elemento-chave da plataforma “pró-vida” conservadora nos EUA. Desde então, houve artigos sobre as eleições de 2016, sobre a proibição de muçulmanos entrarem no país, sobre a audiência de Trump no Vaticano e sobre a política externa do atual governo.

O terceiro motivo que torna este artigo importante é que ele oferece uma visão rara do cristianismo americano não só de um ponto de vista vaticano, como salienta John Allen Jr. [3], mas também de fora dos EUA. É válido o questionamento sobre se La Civiltà Cattolica está dando voz a cristãos e católicos não americanos ao redor do mundo para ver como percebem a situação deste país. O cristianismo e o catolicismo podem ser globais até o ponto em que a tecnologia torna possível a conectividade em nível mundial. Mas ainda há uma desconexão nos frontes intelectuais, espirituais e linguísticos. A chamada democratização da teologia (mais leigos estudando e lecionando teologia, e o monopólio enfraquecido do clero sobre a teologia católica) parece ter ampliado – e não estreitado – a lacuna transatlântica.

Isto faz parte do “ecumenismo de ódio” do qual Spadaro e Figueroa falam: novos canais podem ter sido abertos a igrejas e tradições diferentes, mas estas também resultaram em novas barreiras entre membros diversos da mesma igreja e entre o cristianismo e o Islã. A diferença radical entre o “ecumenismo de sangue”, de Francisco, e o “ecumenismo de ódio” (que eu poderia ter chamado “ecumenismo das trincheiras, na cunhagem de Charles Colson, mencionado por Spadaro e Figueroa) é, em si, parte do “problema americano do Papa Francisco”: uma tensão entre o catolicismo americano e a cultura católica global a partir de onde – e para a qual – Francisco fala. A presidência de Trump está apenas exacerbando uma condição pré-existente.

Spadaro e Figueroa capturam esta tensão de forma mais explícita quando salientam a diferença entre a cultura política “dominionista” do ecumenismo político conservador dos “evangélicos e católicos integralistas”, e a aceitação da distinção, por parte do Papa Francisco, entre poder político e autoridade religiosa.

Ao ler algumas reações ao artigo, me surpreendi com a falta de compreensão da diferença entre a visão que Francisco tem de laïcité [laicidade] como uma distinção entre o poder religioso e a autoridade política, de um lado, e, de outro, a visão dela com uma separação constitucional estrita da Igreja e do Estado. O influxo recente de convertidos de várias igrejas protestantes americanas para dentro do catolicismo americano é uma explicação possível, parcial, em minha opinião, para a falta de familiaridade que muitos dos analistas do catolicismo americano parecem ter com a história da cultura política da Igreja Católica – especialmente as diferenças entre estágios no desenvolvimento da doutrina católica sobre democracia. (Para nomear três apenas: o catolicismo da cristandade medieval; as continuidades e descontinuidades entre o Syllabus, de Pio IX, e o Rerum Novarum, de Leão XIII; e os anos desde a Segunda Guerra Mundial até o Vaticano II e o período pós-Vaticano II).

Mas pondo de lado a confusão intelectualmente inepta da noção católica de distinção entre poder político e autoridade religiosa com a “separação da Igreja e do Estado” constitucionalmente sancionada, é inegável que mesmo o conceito mais moderado de laïcité é, hoje, inaceitável para muitas lideranças católicas dos EUA (sejam clericais, sejam intelectuais). Nesse sentido, o artigo aponta para algo que, de fato, aconteceu com o catolicismo americano: uma nostalgia crescente pelo augustianismo político como uma subordinação jurídica e institucionalmente estabelecida da ordem temporal (política) à ordem sobrenatural (a igreja). Este neomedievalismo político (consciente e inconsciente) é um dos efeitos colaterais da deslegimitização moral e teológica da política hoje. Ao ler Gaudium et Spes, em dezembro de 1965, Yves Congar achou que ele não fazia mais parte da tradição católica em desenvolvimento.

Steve Bannon e Donald Trump irão, a certa altura, não mais constituir uma preocupação do catolicismo americano. Mas esta questão americana particular da relação entre a Igreja e o poder secular sempre se fará presente. La Civiltà Cattolica e setores amplos do catolicismo americano há tempos têm estado em lados opostos no debate a respeito da compatibilidade da Igreja com a democracia liberal. Antigamente, eram os americanos que achavam que eles eram compatíveis e a revista jesuíta achava que não eram; hoje é o contrário.

Notas:

[1] Confira texto “Da Pio IX a Francesco: La Civiltà Cattolica raccontata da dodici Papi 1850-2016”, disponível aqui.

[2] Confira o texto “The popes and the Jesuits: a tale of highs and lows”, disponível aqui.

[3] Confira o texto “Concordando ou não, é bom saber o que os analistas do Vaticano pensam dos EUA”, disponível aqui.

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