O desafio ecumênico latino-americano. Entrevista com Marcelo Figueroa

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16 Novembro 2016

Refletindo sobre o encontro de Lund, tive a impressão de que apenas um papa que vem de um mundo distante da Europa – um mundo que não tem memória dos seculares conflitos entre católicos e protestantes, e que, portanto, tem uma relação diferente com as várias denominações protestantes – podia fazer aquele ato corajoso e profético que foi se unir à Igreja Luterana para comemorar o aniversário da Reforma.

O comentário é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia, professora da Universidade de Roma "La Sapienza", publicado no jornal L'Osservatore Romano, 09-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Eu concordo com essa interpretação do encontro, porque o protestantismo sul-americano, evangélico e luterano, é muito diferente tanto do europeu quanto do norte-americano, embora, obviamente, ele sinta a sua influência. Muito vivo, ela levanta outros problemas, mas também oferece oportunidades de colaboração à Igreja Católica." Quem fala é Marcelo Figueroa, biblista presbiteriano argentino muito próximo do Papa Francisco, que participou da viagem do pontífice à Suécia.

Eis a entrevista.

Muito diferente – eu diria – do protestantismo europeu, que parece ir rumo a uma absorção por parte da secularização de modo ainda mais rápido do que a Igreja Católica. Mas justamente esse processo em curso torna menos conflituosas algumas das questões teológicas objeto de contraste por séculos: como o problema da salvação, que hoje parece ter pouco sentido em uma sociedade como a nossa, em que se quer esquecer a morte e tudo o que tem a ver com ela e, portanto, também o além.

Para o protestantismo sul-americano, o Evangelho deve servir para resolver problemas atuais e urgentes da vida cotidiana. Aqueles grupos, como os carismáticos, que fundamentaram a sua mensagem sobre a salvação eterna se chocaram, portanto, com demandas diversas que vinham do povo. Também entre nós a secularização levou a olhar a morte com um certo relativismo: se a morte existe, é problema de Deus, não nosso. Hoje, pensa-se na morte não como em uma meta do percurso humano, mas como medo de viver. Uma visão menos profunda, que pode levar, em alguns casos, a legalizar a eutanásia, vista como solução possível para uma vida que se apresenta como interminável, embora tenha perdido muito em qualidade. Sobre esse problema, a maioria dos protestantes é contrária, mas um setor muito influenciado pelo pensamento europeu, embora não usando a palavra eutanásia, pensa que a morte leva imediatamente à salvação e, portanto, não aceita nenhum tipo de prolongamento artificial da vida.

Outra questão controversa foi o livre acesso aos textos sagrados, divisão que hoje não subsiste mais. Também no mundo católico, de fato, os fiéis estão acostumados a ler os textos diretamente, nas traduções que preferem e, muitas vezes, a discuti-los em grupos de leigos, também de forma muito viva.

Sobre esse tema, há uma grande diferença entre os vários grupos. A leitura protestante clássica leva em conta os padres da Igreja e a sabedoria acumulada durante séculos de exegese, mas, sobretudo, o contexto: aquele em que foram escritos e aquele em que os lemos agora. É um antídoto ao fundamentalismo, que, substancialmente, consiste em uma leitura sem contexto. Mas, no mundo latino-americano, constituíram-se grupos que dão à Palavra um valor literal, especialmente quando é proclamada pelo pastor. Como se o pastor pudesse eliminar toda mediação e trazer diretamente a palavra de Deus. É uma tendência generalizada na América do Norte, mas também entre nós. E essa é uma leitura fundamentalista. Dentro da Reforma, está em curso um processo de releitura da Bíblia, que põe em discussão um passado em que usávamos, mais do que outras coisas, a lente de Paulo, enquanto hoje tentamos interpretá-la através do olhar de Jesus.

A que você se refere quando fala da importância do contexto?

Para me explicar melhor, vou dar o exemplo de uma experiência que influenciou muito na nossa exegese, ou seja, a tradução das Sagradas Escrituras nas línguas indígenas, com a qual eu colaborei. Foi um trabalho que nos fez descobrir uma interação mais ampla e mais profunda entre o ser humano e a natureza, presente nas culturas indígenas. Ele nos levou a renovar conceitos como justiça e paz. Assim, descobrimos uma diferença que nos enriquece e que nos fez repensar a nossa tradição. Teve particular importância para nós a tradução do termo "comunidade", da qual redescobrimos a força e a riqueza, que nos levou a uma compreensão mais profunda dos textos, especialmente dos Atos dos Apóstolos. E também a uma revisão da interpretação protestante mais tradicional, que tinha desenvolvido sobretudo o aspecto espiritual individual. Agora, em vez disso, redescobrimos a riqueza da comunidade, que a Igreja Católica valorizou mais.

Francisco parece ter se inspirado nessas suas experiências, quando, primeiro entre todos os papas, escreveu uma encíclica dedicada à relação com a natureza.

Esse interesse pela natureza lhe vem do seu ser jesuíta, isto é, da relação intensa que a Companhia sempre teve com as missões e com a grande atenção pela cultura indígena, pela concepção da natureza que os caracteriza. A atenção à ecologia, portanto, tornou-se hoje uma atitude compartilhada por protestantes e católicos.

No entanto, resta em aberto uma frente de conflito, que é a dos sacramentos.

Os protestantes estão divididos em dois setores: aqueles que não aceitam o batismo católico por ser recebido em idade precoce demais e, portanto, estar desprovido de verdadeira intenção. Portanto, àqueles que se convertem, eles pedem um segundo batismo. Mas a maioria das Igrejas protestantes reformadas (não das evangélicas e pentecostais) não tem problemas e aceita o batismo católico. Esse é um ponto muito importante, porque significa reconhecer-se todos como cristãos. Muito mais complexa é a situação da Eucaristia. Para nós, ela representa o mistério, mas não chega à transubstanciação. Não poder comungar juntos constitui uma verdadeira tragédia. A meu ver, é uma ferida aberta no coração de Jesus. Na minha Igreja Presbiteriana, o pão e o vinho são oferecidos a todos, sem distinção. Para resolver essa questão, é necessário muito trabalho teológico. Eu acho que devemos voltar a entender bem o que foi a Eucaristia para a Igreja primitiva e recomeçar a partir daí para esclarecer as diferenças. Porém, estamos sempre em acordo sobre um ponto, que é um ponto fundamental: ecclesia semper reformanda.

Outro problema de difícil solução é o do clero, do sacramento da ordem, ou seja, da consagração sacerdotal, do qual deriva também o nó da hierarquia eclesiástica e do papado.

Ao sacerdócio, nós respondemos acentuando a importância da pessoa em relação à do papel e referindo-nos ao sacerdócio universal de todos os cristãos. É claro, isso ainda é um problema de difícil solução: na minha opinião, portanto, podemos conviver lado a lado, colaborar, mas não nos unificar. A presença de um papa como Francisco abriu muitas perspectivas novas. Alguns protestantes mostraram uma abertura generosa em relação ao seu modo de viver a pastoral, o seu modo de conceber o espírito de Cristo. Reconhecem-se nas suas palavras: assim, é possível caminhar juntos. Bento XVI também tinha se aberto aos protestantes, mas Francisco propõe hoje justamente um modo para caminhar juntos, uma prática ativa repleta de alegria. O ecumenismo significa admitir que todos nos reconhecemos em Cristo, mas, depois, é preciso encontrar a maneira para transformar essa evidência abstrata em um tema atual, urgente. Hoje vemos ela se concretizar no ecumenismo do sangue, no ecumenismo da misericórdia. Sobre essas questões, podemos e devemos caminhar juntos.

Outro problema parece dividir católicos e protestantes, e é o papel das mulheres. Eu acho que aqui a situação é mais complexa do que parece à primeira vista. Em Lund, um clero totalmente masculino, o católico, foi acolhido por uma mulher bispa. Parece que a Igreja Católica ignora as mulheres, enquanto os protestantes lhes conferem um lugar paritário. Mas, se olharmos para a história, vemos que a questão não é tão simples: na tradição protestante, além dos momentos iniciais, as mulheres foram excluídas da esfera religiosa, enquanto a Igreja Católica, com a presença das ordens femininas e das santas, ofereceu-lhes a possibilidade de contribuir com a construção da tradição comum. Aos protestantes, de fato, faltam mulheres como Teresa d’Ávila ou Edith Stein, mas também falta aquele grande número de missionárias que, no mundo, ajudam as mulheres infelizes e submetidas à violência, oferecendo-lhes uma via de resgate.

É verdade, entre nós, há pastoras e bispas, mas faltam as missionárias. É quase um paradoxo: justamente os protestantes, que dão testemunho de paridade, são muito menos organizados no que se refere à presença feminina in loco. Nem sempre os cargos mais elevados potencializam a presença e a contribuição femininas, ou, em todo o caso, não são suficientes. Na América Latina, também faltam essas estruturas femininas religiosas que ajudam as mulheres. Se olharmos para a questão da mulher a partir desse ponto de vista, vemos que a nomeação de mulheres como pastoras ou sacerdotisas não apenas nos afasta, mas também nos faz refletir em um debate construtivo.

Eu gostaria que você nos explicasse melhor o protestantismo sul-americano.

A América Latina continua sendo um continente católico. A porcentagem de protestantes varia de país para país: na Argentina, apenas 10%, na Colômbia, 30%, no Chile, 20%, na Costa Rica e na Guatemala, 40%. Mas se trata de uma porcentagem muito mais significativa do que a europeia: por exemplo, a Suécia é um país predominantemente protestante, mas, depois, os fiéis de verdade são poucos. Em vez disso, entre nós, são fiéis muito ativos, e, portanto, nota-se mais a sua presença. Também por isso o peso do protestantismo sul-americano sobre o mundial é muito alto.

Em um país como o Brasil, além disso, os movimentos carismáticos e evangélicos estão engajados na política ativa, sentam-se no parlamento e compraram grandes agências que controlam a difusão das notícias. Para eles, a política é uma missão divina, sentem-se inspirados por Deus, mais do que por um programa concreto, para eles a Bíblia está acima da lei e defendem uma ideia teocrática da política, que movimenta muito dinheiro e goza de uma grande influência. Desse modo, porém, rompem com a tradicional linha política mantida pelos protestantes, que sempre foi a da defesa do Estado laico e do sistema democrático.

No passado, criticava-se a Igreja Católica porque ela era reconhecida como religião de Estado – uma condição que, em países como a Argentina, tinha criado problemas para as escolas e para os cemitérios protestantes – enquanto agora muitos protestantes defendem um Estado teocrático. Uma parte dos movimentos carismáticos se difundiram nas classes populares, mas sustentam que o Evangelho deve indicar um via material para sair da pobreza: ao contrário dos católicos, a pobreza, entre eles, não é nada aceita.

Em relação às questões bioéticas, o protestantismo da América Latina não se diferencia significativamente das posições da Igreja. É diferente o problema dos casamentos homossexuais, porque, para os protestantes, o casamento não é um sacramento, e, portanto, trata-se apenas de uma questão política. Em relação aos homossexuais, a diferença entre os vários setores é notável: há aqueles que os aceitam, e aqueles que, ao contrário, chegam há a excluí-los de todos os sacramento. Mas essas atitudes e essas situações acabam tornando mais conflituosa a sua relação com o protestantismo europeu.

A última pergunta diz respeito ao problema do proselitismo, repetidamente deplorado pelo Papa Francisco com as palavras de Bento XVI.

A tentação de "roubar as ovelhas alheias" para os protestantes pode ser muito forte, e vemos que os evangélicos de setores mais conservadores – que são a maioria em número e em capacidade de comunicação e que, em grande parte, sofrem a influência de grupos norte-americanos – estão em forte concorrência com os católicos. Ao contrário, eu acho que deveríamos caminhar juntos para difundir o Evangelho e, depois, deixar que cada um escolha. Porque as pessoas precisam de Cristo, não de um pertencimento. Isso seria um ecumenismo de verdade, mas ainda estamos longe de tal colaboração. Mas aqui reside justamente o desafio ecumênico mais importante na América do Sul, ainda mais importante do que resolver o problema da Eucaristia: levar às pessoas o Cristo vivo, do qual elas têm uma necessidade extrema e urgente.

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