Para o Papa, o principal problema do mundo hoje são "os pobres e os excluídos"

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10 Julho 2017

Enquanto os países mais poderosos estavam reunidos na cúpula do G-20, Francisco alertou sobre o drama dos imigrantes. Um novo escândalo envolvendo uma festa gay repleta de drogas abala o Vaticano.

A reportagem é de Julio Algañaraz, publicada por Clarín, 09-07-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Em um momento crucial e difícil de seu pontificado, devido ao agravamento da guerra interna entre grupos conservadores e tradicionalistas, Francisco reage demonstrando que a sua linha de ação segue sendo a mesma de sempre, o que causa um forte impacto no mundo, enquanto em Hamburgo o G-20 se reúne. Ele demonstrou isto com uma declaração a Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblica, de Roma - "O perigo das alianças entre potências que têm uma visão distorcida do mundo", disse ele, "aflige principalmente a imigração". O problema principal e crescente no mundo de hoje está relacionado aos pobres, aos fracos, aos excluídos, dos quais os imigrantes fazem parte. Por isto me preocupa o G-20, que castiga os imigrantes de metade do mundo".

Em um segundo momento da entrevista, que dirigiu-se a questões menos atuais, como a eventual beatificação do pensador Pascal, morto há séculos, foi uma alfinetada para o Ocidente: "Graças ao colonialismo, a Europa tornou-se o continente mais rico do mundo".

Os dois esclarecimentos do papa argentino, após a série de casos que delinearam a primeira crise no governo de Francisco, entre março e julho, demonstram que Jorge Bergoglio se manteve firme em sua visão de mundo, da Igreja pobre e para os pobres, aberta, pastoral, renovadora.

Escândalo envolvendo uma festa gay

Aos crescentes problemas dos últimos meses se somou um recente escândalo: a Gendarmaria Pontifícia invadiu uma festa gay com grande consumo de drogas em um apartamento no Palácio do ex-Santo Ofício, em nome do cardeal jurista, Francesco Coccopalmerio, presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos.

É a primeira vez que isso acontece, no Vaticano, lugar em que há muitas histórias de homossexualidade, e que produziu um escândalo público deste tipo. O protagonista foi o Monsenhor Luigi Capozzi, o secretário do cardeal Coccopalmerio, que aparentemente ignorava as "festinhas" organizadas por Capozzi. Mas a polícia do Vaticano recebeu protestos dos vizinhos, quase todos cardeais, por conta dos ruídos, da música alta e das idas e vindas de homens desconhecidos. Só mais um detalhe. Se no interior do edifício é permitida a passagem pela porta central do Palácio do ex-Santo Ofício, do lado de fora a rua está sob jurisdição italiana. Não há controle da guarda suíça.

Dizem que o papa está furioso e quer que todos os culpados sejam punidos. O Cardeal Coccopalmerio tem 79 anos e já passou da idade. É um aliado próximo de Francisco e esperava permanecer no cargo até os 80 anos. Agora tudo é mais difícil. Coccopalmerio havia proposto a promoção a bispo do Monsenhor Capozzi, uma iniciativa que agora lhe complica a vida. Capozzi foi levado da festa gay para a clínica Pio XI, propriedade da Igreja, para desintoxicá-lo das drogas. Depois disso, ele esteve por um período em um monastério e agora lhe internaram no hospital Gemelli, onde muitas vezes o Papa João Paulo II ficou internado.

Ninguém sabe ao certo como o caso da festa gay no palácio do ex-Santo Ofício tornou-se pública. Mas, sem dúvidas, aumenta a hostilidade dos adversários internos de Francisco, oposição que se tornou muito mais aguda, sobretudo depois dos três últimos dias em que dois cardeais de primeira linha desocuparam seus cargos de importância estratégica. O prefeito da Economia, o Cardeal George Pell, deve viajar para a Austrália, seu país, para responder no dia 26 deste mês a um tribunal de acusações de pedofilia e de acobertamento de padres pedófilos.

Ao caso Pell somou-se a decisão de Francisco pela não renovação do mandato de cinco anos, que expirou no domingo do dia 2 de julho, do prefeito para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerhard Müller, por conta dos contínuos conflitos e atritos com o pontífice.

Sobre Pell, que de acordo com o Papa fez um bom trabalho na reforma da área econômica e financeira, contra a resistência de grupos internos da Cúria Romana, o governo central da Igreja, o papa cometeu um erro gravíssimo que o fez pagar e ainda o fará pagar muito caro: ele nomeou Pell na nova estrutura, apesar de que tenham-no aconselhado a não fazê-lo, porque Pell é acusado de pederastia e de acobertar pedófilos há anos.

Sobre Müller, que se opôs de maneira intransigente à linha do Papa nos Sínodos da Família de 2014 e 2015, em favor de que os católicos divorciados e que voltaram a se casar recebessem novamente a comunhão e outros sacramentos. Assim, ele tornou a convivência impossível, mas Francisco, que sempre disse que não é um "cortador de cabeça", deixou a crise com o Guardião da Ortodoxia crescer tanto até que se transformasse em gangrena. Müller permanece em Roma e não aceita outros cargos que não estejam relacionados com a missão de se tornar o principal ponto de referência contra o papa, o que causará mais de uma dor de cabeça ao papa argentino.

Para substituí-lo, Bergoglio promoveu a prefeito da Doutrina da Fé o número dois do dicastério, o jesuíta espanhol Luis Ladaria Ferrer, que de acordo com o revelado pela imprensa, havia assinado uma condenação em 2012, convidando um bispo a "não escandalizar os fiéis" com a notícia da laicização do padre Giovanni Trotta por seus graves pecados, pois ele havia violentado crianças e jovens menores de idade. Todos se calaram porque a ordem veio de cima e Trotta se reciclou perto de Foggia, no sul da Itália, como treinador de futebol juvenil, abusando sexualmente de 11 crianças até que ele foi preso.

Somou-se ao caso do novo cardeal que o papa nomeou há duas semanas, o do arcebispo africano do Mali, Jean Zerbo, envolvido em um escândalo denunciado pelo jornal francês Le Monde. Zerbo não sabe explicar o destino de 12 milhões de dólares em contas suíças no seu nome. Os assuntos que foram se reunindo em pouco tempo exigem de Francisco medidas que vão além da administração ordinária. A renúncia à Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores de Marie Collins, a irlandesa abusada por um padre quando adolescente, que acusou o cardeal Müller; o caso do Cardeal George Pell que comove a Austrália pela onda de abuso sexual nos últimos trinta anos e a nomeação como Guardião da Ortodoxia do monsenhor espanhol jesuíta, Luis Ladaria, convocam uma estratégia mais eficaz e rigorosa de "tolerância zero" na gravíssima questão da pedofilia, que fez e faz tanto dano à Igreja.

As conspirações dos tradicionalistas e ultraconservadores apontam para desmonte do escritório do Papa Francisco, que já declarou continuar "até o fim", ou seja, que ele não renunciará. Como alternativas trágicas estão a morte de Bergoglio ou uma cisma aberta, na qual os tempos ainda não permitiram amadurecimento, mas que a grande parte encurralada do clero já acredita que deve ser encarada de frente.

As carências e as convivências obscurecem a política de transparência total exigida pelo Papa Francisco. Chegou a hora de Jorge Bergoglio reorganizar seu poder, montar suas equipes com personalidades renovadoras, dar um novo impulso às reformas cortando algumas cabeças, se necessário, e promovendo uma nova fase de mudanças enérgicas na Cúria Romana, que é repleta de veneno e de inimigos que emergem das sombras.

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