Francisco: “O meu grito ao G20: Não a alianças contra os migrantes”

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10 Julho 2017

O Papa Francisco telefonou para Eugenio Scalfari, jornalista italiano, fundador do jornal La Repubblica. A narração do colóquio por Eugenio Scalfari é publicada por La Repubblica, 08-07-2017. A tradução é de IHU On-Line.

"Várias vezes escrevi que Francisco é um revolucionário. Pensa em beatificar Pascal, pensa nos pobres e nos imigrantes, deseja uma Europa federada e – por último mas não último – me coloca no carro com os seus braços", escreve o jornalista italiano. E conclui: "Um Papa como este, nunca tivemos".

Eis a narrativa.

Na última quinta-feira, dia 06 de julho, recebi um telefonema do Papa Francisco. Era perto do meio dia e eu estava no jornal, quando tocou o meu telefone e uma voz me saudou: era Sua Santidade. Imediatamente reconheci a voz e respondi: “Papa Francisco, estou feliz ao ouvi-lo”.

“Quero saber como está a sua saúde. O senhor está bem? Me disseram que o senhor não publicou o seu artigo dominical nas últimas semanas, mas vejo que retomou a publicação”.

Santidade, tenho treze a mais que o senhor.

“Sim, isto eu sei. Deve beber dois litros de água por dia e comer salada”.

Sim, o faço. Estou seguindo os seus conselhos, mas eu o interrompi dizendo: faz tempo que não nos falamos. Gostaria de saudá-lo. Estou saindo de férias e faz tempo que não nos vemos.

“É verdade, também desejo vê-lo. Pode vir hoje? Às quatro?”

Sim, irei.

Saí correndo para minha casa e às três horas e quarenta e cinco minutos eu estava na pequena sala de Santa Marta. O Papa chegou um minuto depois. Nos abraçamos e depois, sentados um de frente ao outro, começamos a trocar ideias, sentimentos, análises do que acontece na Igreja e no mundo.

O papa viaja incessantemente: em Roma, na Itália, no mundo. O tema principal da nossa conversa é o Deus único, o Criador único do nosso planeta e Universo inteiro. Esta é a tese de fundo do seu pontificado, que tem uma série infinita de consequências, e as principais são a confraternização de todas as religiões e, particularmente, das cristãs, o amor para com os pobres, os fracos, os excluídos, os doentes, a paz e a justiça.

O Papa naturalmente sabe que eu não sou crente, mas sabe também que prezo muitíssimo a pregação de Jesus de Nazaré, que considero um homem e não um Deus. Precisamente sobre este ponto nasceu a nossa amizade. O Papa sabe que Jesus se encarnou realmente, se tornou homem até o ponto de ser crucificado. A “Ressurrectio” é a prova que um Deus tornado homem somente depois de sua morte volta a ser Deus.

Sobre estas coisas já conversamos várias vezes e é o motivo que tornou tão perfeita e insólita a amizade entre o Chefe da Igreja e um não crente.

Papa Francisco me disse que está muito preocupado com a reunião do “G20”.

“Temo que façam alianças muito perigosas entre potências que têm uma visão distorcida do mundo: América e Rússia, China e Coreia do Norte, Putin e Assad na guerra da Síria”.

Qual é o perigo destas alianças, Santidade?

“O perigo diz respeito à imigração. Nós, como o senhor sabe muito bem, temos como problema principal e cada vez mais crescente no mundo de hoje, dos pobres, dos fracos, dos excluídos, entre os quais os imigrantes fazem parte. Do outro lado, há os Países onde a maioria dos pobres não provém das correntes migratórias mas das calamidades sociais; outros, pelo contrário, têm poucos pobres locais mas temem a invasão dos migrantes. Eis porque o G20 me preocupa; ele atinge sobretudo os imigrantes dos Países de meio mundo e os atinge ainda mais com o passar do tempo”.

O senhor pensa, Santidade, que na sociedade global como aquela em que vivemos a mobilidade dos povos esteja aumentando, tanto de pobres como não pobres?

“Não nos iludamos: os povos pobres são atraídos pelos continentes e os Países de antiga riqueza. Sobretudo a Europa. O colonialismo partiu da Europa. Houve aspectos positivos no colonialismo, mas também negativos. No entanto, a Europa se tornou mais rica, a mais rica do mundo inteiro. Este, portanto, é o objetivo principal dos povos que migram”.

Também eu pensei muitas vezes neste problema e cheguei à conclusão que, não somente mas também por esta razão, a Europa deve assumir o mais rapidamente uma estrutura federal. As leis e os comportamentos políticos derivados destas leis, são decididos pelo governo federal e pelo Parlamento federal, não de cada um dos Países confederados. O senhor já abordou este tema mais vezes, inclusive quando falou no Parlamento europeu.

“É verdade, várias vezes tratei deste tema”.

E recebeu muitos aplausos e até ovações.

“Sim, é verdade, mas isso significa muito pouco. Os Países se moverão se se derem conta de uma verdade: ou a Europa se torna uma comunidade federal ou não contará mais nada no mundo. Mas agora quero lhe fazer uma pergunta: quais são as qualidades e os defeitos dos jornalistas?"

O senhor, Santidade, deve sabê-lo melhor do que eu porque é um objeto assíduo dos seus artigos.

“Sim, mas quero saber do senhor”.

Bem, deixemos de lado as qualidades, que existem também e, muitas vezes, são muito relevantes. Os defeitos: narrar um fato não sabendo até que ele seja verdadeiro ou não; caluniar; interpretar a verdade fazendo valer a sua própria ideia. E mais: se apropriar das ideias de uma pessoa mais sábia e mais esperta atribuindo-as a si mesmo.

“Esta última coisa nunca tinha notado. Que o jornalista tenha suas ideias próprias e as aplique à realidade não é um defeito, mas que se atribua ideias de outros para obter maior prestígio, isto é certamente um defeito grave”.

Santidade, se me permite, gostaria de lhe fazer duas perguntas. Já as tratei mais vezes nos meus artigos recentes, mas não sei o que o senhor pensa a propósito.

“Entendi, o senhor fala de Spinoza e de Pascal. Quer repropor estes dois temas?”

Muito obrigado. Começo pela Ética de Spinoza. O senhor sabe que ele era hebreu de nascimento, mas não praticava a religião. Chegou nos Países Baixos vindo da sinagoga de Lisboa. Mas em poucos meses, tendo publicado alguns textos, a sinagoga de Amsterdã emitiu uma duríssima condenação. A Igreja católica, durante alguns meses buscou atraí-lo para a sua fé. Ele não respondia e decidira que os seus livros fossem publicados somente depois da sua morte. Mas alguns amigos receberam cópias dos livros escrevera. A Ética, particularmente, chegou ao conhecimento da Igreja que imediatamente o excomungou. O motivo é claro: Spinoza defendia que Deus está em todas as criaturas vivas: vegetais, animais, humanos. Uma centelha do divino está presente em tudo. Portanto, Deus é imanente, não transcendente. Por isso foi excomungado.

“Não lhe parece certo? Por quê? O nosso Deus único é transcendente. Também nós dizemos que uma centelha divina está presente em todas as partes, mas a transcendência permanece imune. Eis o motivo da excomunhão”.

Parece-me, se não me engano, sob a solicitação da Ordem dos Jesuítas.

“Na época de que estamos falando, os Jesuítas tinham sido expulsos da Igreja, depois foram readmitidos. Mas o senhor não me disse por que aquela excomunhão deveria ser revogada”.

A razão é esta: O senhor me disse num colóquio precedente que daqui a alguns milênios a nossa espécie se extinguirá. Neste caso as almas que não gozam da beatitude de contemplar a Deus, mas permanecem distintos dEle, se fundirão com Ele. Neste momento a distância entre transcendente e imanente não existirá mais. E assim, prevendo este evento, a excomunhão já pode ser revogada desde já. Não lhe parece, Santidade?

“Digamos que há uma lógica no que o senhor propõe, mas a motivação se baseia numa minha hipótese que não tem nenhuma certeza e que a nossa teologia realmente não prevê. O desaparecimento da nossa espécie é uma pura hipótese e assim não pode motivar uma revogação da excomunhão emitida para censurar a imanência e confirmar a transcendência”.

Se o senhor o fizesse, Santidade, teria a maioria da Igreja contra si?

“Creio que sim, mas se se tratasse disso e eu tivesse certeza do que digo sobre este tema, não teria dúvidas, mas não tenho certeza e assim não vou fazer uma batalha baseado em motivações duvidosas e já perdida antes de começá-la. Agora, se quiser, falemos da segunda questão que deseja de me fazer”.

Trata-se de Pascal. Depois de uma juventude tanto quanto libertina, Pascal foi como que improvisamente invadido pela fé religiosa. Já era muito culto, tinha lido repetidamente Montaigne e também Spinoza, Jansênio, as memórias do cardeal Carlos Borromeo. Enfim, uma cultura laica e também religiosa. A fé, num certo ponto, o atingiu de cheio. Aderiu à Comunidade de Port-Royal des Champs, mas depois se separou. Escreveu algumas obras, entre as quais os “Pensamentos”, um livro que para mim é esplêndido e religiosamente de grande interesse. Mas depois temos a sua morte. Estava praticamente moribundo e a irmã o acolhera na sua própria casa para cuidá-lo. Ele queria morrer no hospital dos pobres, mas o seu médico não lhe deu a permissão, pois lhe restavam poucos dias de vida e o transporte não era possível.  Pediu, então, que um pobre fosse trazido de um hospital que cuidava pessimamente dos pobres.  Ou seja, ainda que em fim de vida, pediu que um doente pobre fosse trazido para a casa e com um leito igual ao que ele tinha. A irmã buscou realizar o seu desejo, mas a morte chegou antes. Pessoalmente penso que alguém como Pascal deveria ser beatificado.

“O senhor, caro amigo, neste caso tem toda a razão: também eu penso que mereça a beatificação. Farei os trâmites necessários e pedir o parecer dos órgãos vaticanos competentes e, juntamente com o meu parecer pessoal e positivo convencimento.”

Santidade, nunca pensou de colocar por escrito uma imagem da Igreja sinodal?

“Não, por quê?"

Porque veria um resultado bastante interessante. O senhor quer que lhe diga?

“Certamente, é um prazer. Melhor, me desenhe”.

O Papa me dá um folha de papel e uma caneta e eu desenho. Traço uma linha para cima e explico que estes são todos os bispos que o senhor reúne no Sínodo. Todos têm um título igual e uma função igual que é a de cuidar das almas confiadas nas suas Dioceses. Traço uma linha horizontal e explico: mas o senhor, Santidade, é bispo de Roma e como tal tem a primazia no Sínodo porque o senhor deve tirar as conclusões e delinear a linha geral do episcopado. Assim, o bispo de Roma está acima da linha horizontal, há uma linha vertical que vai até o seu nome e ao seu cargo. De outro lado, os bispos que estão sobre a linha que da horizontal desce até aquilo que representa o povo. O senhor viu o gráfico? Representa uma Cruz.

“É belíssima esta ideia. Nunca tinha pensado em fazer um desenho da Igreja sinodal. O senhor fez e gostei muitíssimo”.

Já era tarde. Francisco trouxe consigo dois livros que narram a sua história na Argentina até o Conclave e que contêm também os seus escritos que são muitos, um volume de centenas de páginas.

Nos abraçamos novamente. Os livros são pesados e ele os carrega. Chegamos com o elevador ao portão de Santa Marta, onde estão os guardas suíços e os seus colaboradores mais próximos. O meu automóvel está na frente do portão.

O meu motorista desce do carro para saudar o Papa (apertam as mãos) e o Papa tenta me ajudar a entrar no automóvel. O Papa convida o motorista a entrar no carro e ligar o motor. “Pode deixar, que eu o ajudo”, diz Francisco.

E acontece uma coisa que para mim nunca aconteceu: o Papa me segura e me ajuda entrar no carro mantendo a porta aberta. Quando estou dentro do carro me pergunta se estou bem acomodado. Respondo afirmativamente, ele fecha a porta e dá um passo para trás, esperando que o carro parta, saudando-me até o último momento, acenando com o braço e a mão, enquanto eu – confesso – estava com o rosto banhado de lágrimas e comoção.

Várias vezes escrevi que Francisco é um revolucionário. Pensa em beatificar Pascal, pensa nos pobres e nos imigrantes, deseja uma Europa federada e – por último mas não último – me coloca no carro com os seus braços.

Um Papa como este, nunca tivemos.

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