Conferência com dissidentes da Amoris Laetitia pede resposta à dubia

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25 Abril 2017

O Papa Francisco "precisa ser fraternalmente corrigido" pela publicação de Amoris Laetitia, a exortação pós-sinodal sobre a família, "que implica heresias" e, embora "não contradiga diretamente a doutrina da indissolubilidade do matrimônio, o faz indiretamente", afirmou o professor italiano Claudio Pierantoni, que leciona em uma universidade no Chile, hoje, em uma conferência em Roma.

Descrevendo a situação atual da Igreja como "muito grave", porque o Papa está "defendendo pontos heréticos", o professor italiano comparou-a a dois momentos de crise na história do papado. Em primeiro lugar, quando o Papa Honório foi condenado de heresia por um conselho ecumênico no século VII e, em segundo, quando o Papa Libério foi acusado de "traição" por Santo Atanásio e outros bispos por apoiar uma posição que não estava de acordo com a tradição apostólica, apesar de não ter sido realmente condenado por heresia.

A reportagem é de Gerard O'Connell, publicada por América, 22-04-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O professor italiano foi o mais ousado dos seis palestrantes em uma conferência de um dia chamada "Buscando esclarecer a Amoris Laetitia, um ano depois", realizada no Hotel Columbus, em Roma, a poucos passos do Vaticano. A conferência, que desafiou o ensinamento do Papa Francisco no capítulo VIII de Amoris Laetitia, foi organizada por duas agências italianas de notícias com tendências claramente tradicionalistas: Il Timone, uma revista mensal, e La Bussola Quotidiano, um diário online editado por Riccardo Cascioli, membro do movimento Comunhão e Libertação. Ambas as publicações apoiaram os ensinamentos de São João Paulo II e do Papa Bento XVI, mas distanciaram-se do Papa Francisco.

A conferência reuniu seis leigos de diferentes países "para refletir sobre a exortação apostólica pós-sinodal que gerou grande perplexidade e mal-estar generalizado em vários membros do mundo católico". A conferência apresentou-se como um prosseguimento da carta (de 16 de setembro de 2016) enviada ao Papa Francisco por quatro cardeais: Walter Brandmüller, Raymond L. Burke, Carlo Caffarra e Joachim Meisner, em que eles apresentaram uma série de dubias (literalmente, "dúvidas") sobre o ensino da Igreja no capítulo VIII de Amoris Laetitia e exigiram "sim" ou "não" como respostas. Mas quando Francisco não respondeu suas dúvidas, a carta foi enviada à mídia que atua em favor da causa e publicada (14 de nov.de 2016), pressionando o Papa a responder, mas sem sucesso.

O evento, que contou com cerca de 100 pessoas, em sua maioria leigos, poderia ser descrito como uma extensão dessa pressão pública estratégica, com a diferença de que não envolvia cardeais ou bispos, mas leigos: cinco homens e uma mulher. Dois dos cinco - Anna M. Silvas (Austrália) e Claudio Pierantoni (Chile) - estavam entre os signatários da carta (8 de dez. de 2016) de 23 acadêmicos e pastores apoiando o pedido dos quatro cardeais. Pierantoni também assinou uma carta anterior em discordância a Amoris Laetitia, subscrita por 45 acadêmicos em junho de 2016, e desde então pediu que um novo conselho resolvesse a questão.

Outro palestrante, Douglas Farrow, da Universidade McGill, no Canadá, falou sobre o Papa de forma mais moderada, embora não menos crítica. Ele já tinha se posicionado abertamente em um artigo de março de 2017, "Discernimento da Situação" (Discernment of Situation) na revista First Things. Agora, ele declarou na conferência que "há uma crise na Igreja atualmente, uma crise em várias dimensões. Há uma crise de moralidade. Há uma crise de doutrina. Há uma crise de autoridade. Há uma crise de unidade."

Ele comparou com o período da Reforma, quando o Concílio de Trento "teve de defender os sacramentos que governam a confissão, a comunhão e a conjugalidade de ataques coordenados, embora um tanto caóticos" e disse que "os mesmos três sacramentos estão novamente ameaçados".

À época, assim como agora, disse Farrow, havia uma necessidade urgente de "cortar pela raiz a heresia e a reforma de conduta", mas ao contrário da época da Reforma, "hoje existe uma incerteza das pessoas dentro da Igreja em relação à abordagem do Papa frente à crise". Apesar de dizer que vê boas intenções no que o Papa está fazendo e em Amoris Laetitia, ele declarou: "Eu compartilho a preocupação de muitos ao redor do mundo de que a situação evoluiu de tal forma, não sem qualquer influência do Papa, que a dubia - poderíamos até dizer, a notória dubia - era necessária.

Diante dessa crise, disse ele, a Igreja "deve voltar a encarar - em si mesma, justamente enquanto Igreja - a questão de sua fidelidade a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo". Ela "deve decidir e dar uma resposta. E essa resposta deve ser expressa sem hesitação pelo sucessor de Pedro."

Segundo ele, a crise atual tem sido muito exacerbada (embora não causada) por Amoris Laetitia, porque esse "sistema bem sedimentado" começou a desmoronar, como aconteceu também no século XVI. Nos pontos onde os reformadores protestantes tentaram a constituição e não conseguiram, o Concílio de Trento conseguiu; mas já não se pode dizer, mesmo na Igreja Católica, que "a pregação da Igreja é consistente em todos os lugares e segue um percurso estável" (S. Irineu, Contra Heresias, III, 24). Pelo contrário, bispos competem com bispos, e sobre Amoris Laetitia, com toda a honestidade, pode-se afirmar que parece "pensar de forma diferente em relação às mesmas coisas em outros momentos" (ibid.).

Anna M. Silvas, acadêmica australiana, ligou a atual crise na Igreja à questão da "modernidade" e "esse clima da Igreja que tanto favorece a ‘modernidade’ e a segue a todo custo". No papado de São João Paulo II, ela disse, "parece que tivemos uma espécie de resistência por algum tempo, pelo menos em algumas áreas, especialmente por sua intensa explicação do mistério nupcial de nossa primeira criação, em apoio à Humanae Vitae". Isto continuou com o papa Bento XVI, "com algumas tentativas de abordar a decadência litúrgica e a 'sujeira' moral do abusos sexuais do clero".

Mas agora, afirmou, "no pouco tempo de pontificado do Papa Francisco, o espírito velho e ultrapassado dos anos setenta ressurgiu, trazendo consigo outros sete demônios. E se tínhamos alguma dúvida antes, Amoris Laetitia e suas repercussões no ano passado esclarecem perfeitamente que esta é a nossa crise."

Ela denunciou "que o aspecto mais assombroso e chocante para muitos de nós, fiéis leigos católicos, é que este espírito alienígena pode ter acabado engolindo a Sé de Pedro, arrastando grupos cada vez maiores de lideranças religiosas complacentes para sua rede".

Em sua análise - longa, negativa e altamente crítica -, ela argumentou que "dentro da Igreja, Francisco e seus colaboradores não lidam com a questão da doutrina encarando a teoria de frente, porque se o fizessem seriam derrotados, mas sim mudando gradualmente a práxis, ao som do canto de sereia de persuasões plausíveis, até que ela seja construída ao longo do tempo até um ponto irreversível". E demonstrou convicção de que "o resultado será uma permissão mais ou menos indiferente para qualquer um que se apresentar para a Santa Comunhão. E assim nós alcançamos o anseio de refúgio de toda inclusividade e 'misericórdia'."

Depois, em uma cartada final contra Francisco, em quem ela não parecia ver nada de bom, afirmou que, na Igreja atual, "o Papa é um skandalon (palavra grega), a rocha tornou-se a pedra de tropeço". Felizmente, os outros três palestrantes da conferência, o jornalista alemão Jurgen Liminski; o filósofo francês Thibaud Collin e o acadêmico Jean-Paul Messina (Camarões), não seguiram um caminho tão pessimista.

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