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10 Janeiro 2017

Em entrevista à TV italiana na noite deste domingo (8), o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé*, o cardeal alemão Gerhard Müller, que os conservadores aguardavam como um “trunfo final” contra o Papa, jogou uma pá de cal em suas pretensões. Apoiou Francisco e a Encíclica Amoris Laetitia sobre a família e enterrou a estratégia de contrapor o Papa ao emérito Bento XVI, reafirmando unidade entre eles e dizendo que a iniciativa opera “contra a fé católica”.

A reportagem é de Mauro Lopes, publicada por Outras Palavras, 09-01-2017.

Ele descartou por completo a ideia do cardeal americano Raymond Burke e seus três aliados (Walter Brandmüller, Carlo Caffarra e Joachim Meisner) de aplicar uma “correção formal” contra o Papa. “Não haverá nenhuma correção contra o Papa”, afirmou, completando: “Neste momento não é possível um correção ao Papa porque não há nenhum perigo para a fé” –veja aqui a escalada dos conservadores contra Francisco, agora fragilizada com a entrevista do cardeal alemão.

A entrevista foi concedida ao jornalista Fabio Ragona no programa Stanze Vaticane (Aposentos do Vaticano), do canal Tgcom24. O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fez um duro ataque à publicidade que os cardeais deram à sua carta ao Papa com as “dúbia”: “Qualquer um, sobretudo os cardeais da Igreja Romana, têm direito de escrever uma carta ao Papa. Mas, com efeito, me surpreendi porque ela se tornou pública, quase obrigando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não’. Isto não me agrada.”

O jornalista perguntou sobre a estratégia conservadora de opor Francisco e Bento e qual seria a razão da iniciativa persistente. Müller explicou que os dois “são pessoas diversas, com histórias muito diferentes, experiências distintas, pessoas de duas culturas diversas, a cultura latino-americana e a cultura europeia, mas eu penso que é contra a fé católica fazer este contraste entre o papa emérito e o papa atual”, pois ambos são igualmente “dons de Deus para a Igreja”. ]

O cardeal encerrou a entrevista manifestando seu apoio à Amoris Laetitia: “O Papa pede um discernimento sobre a situação destas pessoas que vivem uma união não regular segundo a doutrina da Igreja sobre o matrimônio, o pede ajuda a estas pessoas para encontrarem um caminho para uma nova integração à Igreja segundo as condições dos sacramento, da mensagem cristã do matrimônio. Porém eu não vejo nenhuma contraposição: por um lado temos a doutrina clara sobre o matrimônio e de outro a obrigação da Igreja de se preocupar com estas pessoas em dificuldades”.

A reação da mídia conservadora ao redor do mundo, na manhã desta segunda, oscila entre o silêncio, ao contrário das fanfarras que estavam desfilando quase diariamente, reportagens discretas que tentam amenizar a contundência do golpe contra a ideia de uma rebelião até a exasperação aberta –um padre escreveu num site ultraconservador brasileiro que a entrevista de Müller é “absolutamente inacreditável!".

* A Congregação para a Doutrina da Fé é a sucessora da Santa Inquisição Romana e Universal, ou Santo Ofício, a mais antiga das congregações do Vaticano, instituída em 1542 pelo Papa Paulo II. Originalmente era exclusivamente um de Tribunal para causas de heresia e cisma e, nessa condição, conduziu a Inquisição. Mais adiante, passou a ser responsável pela elaboração do Index dos Livros Proibidos. Com o tempo, passo a ser a responsável pela difusão e defesa da fé católica. O papa emérito Bento XVI foi prefeito desta Congregação e, nessa condição, aplicou punições variadas a dezenas de teólogos que não comungassem da visão conservadora do catolicismo, entre eles Leonardo Boff, Juan A. Estrada, José María Castillo, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Andrés Torres Queiruga, José Antonio Pagola, Ivone Gebara, Margaret Farley… Com Francisco, a congregação está deixando de ter caráter policialesco-persecutório, mesmo com um conservador como Müller na condição de prefeito.

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