O grande cerco ao cardeal Müller

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20 Abril 2016

Há uma distância que vem sendo notada por todos no Vaticano, a existente entre o papa e o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Gerhard Ludwig Müller. Uma frieza que ficou evidente a partir da exclusão do purpurado alemão da apresentação da exortação apostólica pós-sinodal Amoris laetitia há duas semanas.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 19-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem esclareceu o conteúdo do esperado e delicado documento foram – além do casal Miano – o cardeal Lorenzo Baldisseri e o cardeal Christoph Schönborn. O primeiro, em versão notarial, sendo secretário do Sínodo dos bispos; o segundo, encarregado de ilustrar o perfil teológico da exortação.

De Müller, nem mesmo a sombra, assim como tinha acontecido nas duas assembleias de 2014 e 2015, quando o grande debate não só midiático, mas sobretudo interno à Igreja – como demonstra a série de publicações enviadas à imprensa por sacerdotes, bispos e cardeais nos últimos dois anos –, vertia justamente sobre a interrogação de saber se o que mudaria seria a doutrina, mais do que a simples práxis pastoral.

O fato é que o cardeal ex-bispo de Regensburg e Francisco têm linhas diametralmente opostas sobre o tema. Basta comparar os escritos de Müller com as palavras de Bergoglio, em que o primeiro relembra a exigência de confirmar aqueles "saudáveis" marcos plantados pela Igreja ao longo dos séculos, e o pontífice que afirma claramente que a misericórdia vai muito além da lei e do legalismo, que nada está excluído do infinito amor de Deus.

A divergência fica evidente se tomarmos uma passagem em particular da Amoris laetitia, o parágrafo 311 do oitavo capítulo, em que se afirma que se "é verdade que a misericórdia não exclui a justiça e a verdade", é preciso reiterar fortemente que "a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus. Por isso, convém sempre considerar inadequada qualquer concepção teológica que, em última instância, ponha em dúvida a própria omnipotência de Deus e, especialmente,
a sua misericórdia".

Müller, em um artigo publicado na véspera do primeiro Sínodo no jornal alemão Tagespost e, depois, retomado pelo L'Osservatore Romano, porém, tinha ressaltado que "ao mistério de Deus pertencem, além da misericórdia, também a santidade e a justiça; se escondermos esses atributos de Deus e não levarmos a sério a realidade do pecado, não podemos nem mesmo mediar às pessoas a Sua misericórdia".

Via dupla no Vaticano

Mais do que sobre a exortação em si, que, contudo, não vê recebidas todas as indicações enviadas pelo ex-Santo Ofício, o problema – assinalado no Vaticano – é que o prefeito tem um papel totalmente marginal na escrita e no debate sobre atos de tão grande importância, a tal ponto que mais de uma pessoa do outro lado do Rio Tibre chegou a falar de uma possível – embora não iminente – mudança na liderança da Congregação, profetizando também a eventualidade de que o segundo sucessor de Ratzinger decida se afastar.

O próprio papa prefere outra linha, e ele admitiu isso explicitamente no sábado, na costumeira coletiva de imprensa a bordo do avião papal de volta a Roma da viagem relâmpago para Lesbos. Questionado sobre a Amoris laetitia e sobre a dúvida sobre a abertura de portas aos divorciados recasados, por parte do correspondente em Roma do Wall Street Journal, Francis X. Rocca, Francisco se limitou a remeter à leitura do discurso proferido pelo cardeal Schönborn, "que é um grande teólogo. Ele é membro da Congregação para a Doutrina da Fé e conhece bem a doutrina da Igreja".

Acontece que o arcebispo de Viena foi o verdadeiro "vencedor" do Sínodo, tendo delineado no círculo menor em língua alemã, em outubro passado, a proposta que, depois, seria retomada quase integralmente na exortação papal. Grupo do qual Müller também fazia parte, que deu, sim, a luz verde ao texto – o cardeal Walter Kasper, não por acaso, no Sínodo ordinário, repetiu várias vezes, satisfeito, o placet do prefeito –, mas que nunca fez mistério do fato de alimentar dúvidas sobre a ambiguidade de algumas posições contidas nele.

Todos elementos que encontram espaço no último livro de Müller, Informe sobre la esperanza, publicado na Espanha e em breve na Itália, pela editora Cantagalli. E no qual, dentre outras coisas, o purpurado alemão diz que "nós, católicos, não temos nenhum motivo para festejar o dia 31 de outubro de 1517", isto é, a data que relembra o início da Reforma luterana. Evento que o papa irá celebrar na Suécia, no próximo dia 31 de outubro.

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