Um mês depois, uma capa de chumbo envolve os Estados Unidos. Artigo de Massimo Faggioli

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02 Março 2017

“Aqueles que se indignam dizendo que os Estados Unidos nunca vão chegar a uma situação fascista ou nazista não consideram outros cenários mais plausíveis, como o russo, o filipino, o de um caudilhismo latino-americano, de uma inédita situação liminar entre democracia e ditadura.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado no sítio L’HuffingtonPost.it, 28-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em 20 de janeiro de 2017, dia da inauguração da presidência de Donald Trump, eu estava em Roma. O destino me reservou o fato de ouvir o discurso do neopresidente no táxi. Tive a sorte de trocar duas palavras com o proverbial taxista romano sobre como seria a nova presidência. O breve discurso de Trump dava algumas indicações, mas não dava uma ideia sequer aproximada da capa de chumbo que caiu sobre os Estados Unidos há um mês.

Na noite do dia 27 de janeiro, uma semana depois daquele discurso e apenas três dias depois do meu retorno da Itália, desencadeava-se, entre uma sexta-feira à noite e um sábado de manhã, a ordem executiva do presidente Trump: o travel ban, teoricamente uma proibição de viagem a alguns países de maioria muçulmana. Na realidade, essa ordem executiva começava a fechar is Estados Unidos ao mundo e o mundo aos Estados Unidos.

A partir daquele 27 de janeiro, vimos que foram estendidos (sem limites claros) os poderes (já antes desprovidos de limites claros) dos guardas de fronteira; vimos cidadãos estadunidenses de religião muçulmana ou cidadãos não estadunidenses na posse de vistos válidos ou de green cards válidos serem rejeitados nas fronteiras ou detidos por horas, até mesmo algemados em tenra idade; vimos cidadãos de outros países (também italianos) detidos e maltratados apenas porque, nos seus passaportes, havia vistos de países não agradáveis ao novo presidente.

Eu me pergunto o que aconteceria comigo há um mês, se, no meu retorno aos Estados Unidos, eu tivesse que apresentar o meu velho passaporte com os vistos de países como Síria, Argélia, Egito, Turquia. Episódios que são típicos de Estados de polícia escassamente democráticos se repetem todos os dias nos aeroportos estadunidenses, em detrimento de cidadãos de países europeus e extraeuropeus.

O que ainda não vimos, mas provavelmente veremos, é o colapso do número dos estudantes e cientistas que, diante da alternativa entre os Estados Unidos e outro país, escolherão outro país. O negócio da educação superior nos Estados Unidos (as universidades privadas) está destinado a sofrer com isso: isso também faz parte da represália dos Estados Unidos profundos contra as odiadas elites intelectuais.

O problema do travel ban não é apenas para aqueles que não podem entrar, mas também para aqueles que não podem sair e não sabem quando poderão sair com a segurança de poder voltar para os Estados Unidos. O que ainda não vimos é o estreitamento da rede das relações entre os Estados Unidos e o resto do mundo. Lembro-me de quando eu encontrei a minha futura esposa, que andava por aí (como tantos outros estadunidenses na época), fingindo ser canadense.

Mas, em certo sentido, a situação é pior do que depois do 11 de setembro de 2001, quando, à oposição internacional às políticas de G. W. Bush, unia-se um senso de solidariedade com o povo estadunidense ferido pelos atentados. As divisões étnicas e religiosas das quais o governo Trump se aproveita enfraqueceram o senso de proximidade entre os Estados Unidos e o resto do mundo, além daquilo que resta do senso de comunidade nacional: um dos frutos das identity politics sobre as quais naufragou o Partido Democrata de Hillary Clinton.

Nesse primeiro mês de Trump, vimos o presidente e a sua comitiva declararem a imprensa e os jornalistas como “inimigos do povo” e excluírem fontes de informação desagradáveis do acesso à Casa Branca e ao presidente.

Vimos o presidente relutante em responder a perguntas sobre o ressurgimento do antissemitismo em várias partes do país: cemitérios judaicos devastados, alertas de bomba nas escolas e sinagogas estão em pauta. Vimos a Casa Branca publicar uma declaração para o Dia da Memória da Shoá que não mencionava, e por opção, os judeus.

Vimos o novo poder relutante em desarmar o ódio xenófobo e racial que, em um país armado de maneira generalizada e descontrolada como os Estados Unidos, leva inevitavelmente à loucura homicida. Vimos imigrantes nos Estados Unidos com documentos válidos de residência nos Estados Unidos optarem por cruzar ilegalmente a fronteira com o Canadá – a pé – para serem presos e pedirem asilo no Canadá.

A situação jurídica de muitas pessoas não está clara, e o Estado de direito deu lugar ao arbítrio. Uma professora de direito da minha universidade passou aquele fim de semana do fim de janeiro do travel ban no aeroporto, tentando recuperar das mãos dos guardas de fronteira alguns refugiados que haviam passado anos (até 12 anos) na expectativa daquele documento válido para a entrada que, graças à eleição de Trump, perdeu valor legal, porque assim decretou o novo presidente eleito. Aquela advogada me tranquilizou, dizendo que, como residente permanente na posse de um green card, a lei ainda protege os meus direitos de liberdade de expressão. Ela acrescentou: “em teoria”.

Os comportamentos de muitos estadunidenses – cidadãos ou residentes, incluindo residentes legais – mudaram desde o advento de Trump. Há neoestadunidenses de língua árabe ou de religião muçulmana que, na presença de estadunidenses brancos, optam por falar apenas inglês, mesmo no telefone. Há estudantes não brancos que saem com menos frequência ou agora optam por evitar certas áreas da cidade. Há crimes não denunciados porque chamar a polícia é a escolha menos indicada para aqueles que não têm certeza do seu status legal. Há pais e mães de família, mesmo que legalmente residentes, que decidem não sair do país por medo de não poderem voltar, dada a indeterminação das normas atuais e da imprevisibilidade daquelas que poderiam ser decididas nos próximos dias.

Há cidadãos estadunidenses não brancos que saem de casa com o passaporte. Há estudantes universitários que devem sair com um documento da universidade que prove para a polícia que não são imigrantes ilegais. Há aqueles que esperam a chegada de um filho recém-nascido no temor de que a nova presidência vai abolir o seguro de saúde, o “Obamacare”, que tinha estendido para 20 milhões de estadunidenses de baixa renda o acesso aos cuidados médicos. Há muitos jornalistas que agora usam apenas comunicações criptografadas. Há também amigos e colegas que aconselham que você escreva menos, especialmente sobre o novo presidente, ou que lhe perguntam o que você está esperando para fazer a cidadania estadunidense.

É difícil explicar o que sentem aqueles que estão vendo os Estados Unidos mudarem assim, depois de tê-los escolhido como segunda pátria, apenas há pouco tempo. Somos alguns milhões nessa situação aqui nos Estados Unidos. O principal risco é o do costume: algumas liberdades a menos, um passo de cada vez. Aqueles que se indignam dizendo que os Estados Unidos nunca vão chegar a uma situação fascista ou nazista não consideram outros cenários mais plausíveis, como o russo, o filipino, o de um caudilhismo latino-americano, de uma inédita situação liminar entre democracia e ditadura.

Muitos dos anticorpos que mantiveram viva a democracia estadunidense estão mortos ou em grave crise. A minha família vai resistir a essa involução. Mas conseguirão resistir a minha escola, a dos meus filhos? A minha Igreja? Os meus amigos e colegas?

Aqueles que tem filhos pequenos aqui nos Estados Unidos temem não só a piora da qualidade de vida social e civil, um país mais isolado do mundo, mais militarista, mais segregado por comunidades étnica e economicamente homogêneas. Temem também criar filhos que se sintam, um dia, à vontade nesse tipo de país, em que o trumpismo poderia ter sucesso e mudar de direção esta democracia jovem e frágil.

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