Diante de Donald, o imperador, o Papa Francisco está mais sozinho. Artigo de Massimo Faggioli

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23 Janeiro 2017

“O ano de 2017 se abre com a clara alternativa entre trumpismo e bergoglismo. Parece ter passado um século desde a visita do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro de 2015, e desde aquele histórico discurso ao Congresso, com as citações dos profetas dos Estados Unidos pacifistas, Martin Luther King Jr., Dorothy Day e Thomas Merton.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no sítio L’Huffington Post, 21-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo o historiador, "nem mesmo João Paulo II tivera que enfrentar uma situação semelhante: na sua luta contra o comunismo antes e contra o “choque de civilizações” depois, o papa polonês não estava tão sozinho como hoje parece estar o papa argentino diante de um abismo".

Eis o texto.

A presidência de Trump começa com um discurso em que o neopresidente desmente os auspícios de uma atitude mais presidencial em relação aos tons da campanha eleitoral. O 45º presidente, em vez disso, pronunciou um discurso nacionalista, de tons sombrios, de campanha eleitoral, dirigido aos seus eleitores mais do que ao país; um discurso em que a mistura de promessas e ameaças do novo presidente significa apenas ameaças para uma parte da população estadunidense e para o resto do mundo que olha para os novos Estados Unidos.

O breve discurso de posse acrescentou outros elementos à já longa lista de tabus quebrados por Donald Trump. Por um lado, o tradicional otimismo estadunidense, que o “pontífice” dos Estados Unidos deve encarnar na sua pessoa e articular verbalmente naquele magistério também religioso que é a presidência-monarquia eletiva estadunidense deu lugar em Trump ao ressentimento expressado em nome de povo estadunidense esquecido pela classe política e pelas forças da globalização econômica.

Por outro lado, Trump pôs fim dramaticamente à ideia de uma supremacia estadunidense que imagina a si mesma como gentil e benévola para com aqueles que querem cooperar: se se quiser, em boa parte, uma ficção retórica, mas que continha um elemento de moderação dos próprios instintos imperiais.

As palavras de ordem que ressoaram nessa sexta-feira são as de um perigoso neonacionalismo em que a antropologia trumpiana reduz o ser humano ao homo oeconomicus Americanus. America first, “compre americano e contrate americanos”, “o patriotismo não tem lugar para o preconceito”: são as novas palavras de ordem de uma presidência repleta de incógnitas do ponto de vista da política externa.

Mas o aspecto mais inquietante é o ponto de vista interno, porque significa uma redefinição do que é a “America”: ou seja, quem faz parte da ideia de “America” para Trump, para os seus eleitores e para o partido político que o apoia?

A questão da imigração e da defesa das fronteiras fazem parte de um neoexclusivismo étnico em que a ideia da “America” coincide, nas profundezas da mensagem, com a supremacia dos brancos. O controle do fluxo de trabalhadores estrangeiros é apenas a fachada de uma política racista: desde 2008, o partido que voltou ao poder nessa sexta-feira sistematicamente tentou impedir (obtendo sucesso em muitos Estados controlados pelos republicanos) o exercício do direito de voto por parte das minorias não brancas.

O “sonho americano”, de inclusivo, torna-se excludente: a contraposição entre patriotismo e preconceitos é apenas aparentemente um apelo para a defesa do melting pot estadunidense. Na realidade, é o manifesto do novo patriotismo trumpiano, que prevê uma redefinição do que é naturalmente “americano” (a cultura e a etnia do cristianismo branco vendido como ideologia e idolatria do bem-estar) e do que pode eventualmente ser aceito como “americano” pela maioria branca: do ponto de vista étnico (a cultura afro-americana, native indian, hispânico-latina, asian-american) e do ponto de vista religioso (o Islã, acima de tudo). Trump tira o pó da ideia de um “destino americano” que revela as nostalgias por uma “America” fechada em si mesma em relação às influências do exterior, mas plenamente no seu direito quando pretende intervir no mundo global.

Os Estados Unidos entram em uma fase nova. Essa presidência representa a re-emergência de antigas pulsões (o racismo da ideia da supremacia branca profundamente enraizado nas origens do país) e, ao mesmo tempo, o aparecimento de elementos novos turvos (a ambígua relação com a Rússia de Putin; um emaranhado sem precedentes pela sua evidência da mistura entre interesses privados, apetites familiares e ambições públicas).

A presidência de George W. Bush tinha iniciado com um claro déficit de legitimidade democrática e passaria para a história pela sua contribuição com a destruição do Oriente Médio e a destruição do cristianismo médio-oriental. Mas a presidência de Bush não tinha começado no clima de medo e no sentimento de insegurança física (especialmente no caso dos estadunidenses não brancos) que envolveu os Estados Unidos desde a conquista do poder de Trump. O medo do resto do mundo é por uma presidência geopoliticamente imprevisível e guiada diretamente por um conjunto de instintos e apetites. Mas é o medo de muitos estadunidenses de viver em um país amedrontado e impiedoso: a anulação da reforma da saúde, a abolição das contribuições estatais ao sistema de informação e cultural-artístico, a negação da questão ambiental poderiam ser apenas os primeiros passos rumo a uma radical redefinição do que é a “America” e qual é a verdadeira grandeza da “America”.

A oração-mensagem dirigida a Trump e aos Estados Unidos pelo Papa Francisco, nessa sexta-feira, é a tentativa de restabelecer uma relação desde sempre muito complicado entre Roma e Washington. Ao mesmo tempo, é o chamado do bispo de Roma, em uma linguagem de profeta bíblico, ao novo imperador, para que não esqueça o que representa a verdadeira grandeza para um país que se diz religioso e cristão como os Estados Unidos. De um ponto de vista, o ano de 2017 se abre com a clara alternativa entre trumpismo e bergoglismo. Parece ter passado um século desde a visita do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro de 2015, e desde aquele histórico discurso ao Congresso, com as citações dos profetas dos Estados Unidos pacifistas, Martin Luther King Jr., Dorothy Day e Thomas Merton.

Nem mesmo João Paulo II tivera que enfrentar uma situação semelhante: na sua luta contra o comunismo antes e contra o “choque de civilizações” depois, o papa polonês não estava tão sozinho como hoje parece estar o papa argentino diante de um abismo.

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