Donald Trump. Um presidente contra o mundo

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24 Janeiro 2017

A possibilidade de uma guerra fria ou comercial com a China. Os ataques à União Europeia e as críticas à OTAN. Com Donald Trump emerge um novo paradigma que promete reacomodar o equilíbrio de forças e alianças das potências mundiais.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 22-01-2017. A tradução é de André Langer.

Há momentos em que a história esboça uma mudança tosca de rumo. Desta vez foi decidida pelos eleitores da maior potência do mundo, que escolheram um presidente que está prestes a romper os equilíbrios oriundos da Segunda Guerra Mundial. Donald Trump postulou-se desde o começo como um presidente contra o mundo: internamente, primeiro contra os mexicanos; no plano internacional, contra o próprio México, a China, a Europa e as espessas incertezas que pesam sobre o Oriente Médio. Seu único elogio, até agora, foi para a Rússia de Vladimir Putin, a quem os europeus provocaram e desprezaram durante várias décadas. Um gabinete presidencial composto por milionários, militares, climatologistas céticos, familiares próximos, conservadores da ultradireita e inexperientes na gestão política do planeta pressagiam uma navegação sem bússola.

Além de agredir grosseiramente o México, a primeira coisa que o presidente norte-americano fez foi dar um golpe no desenho das relações com a China e acabar com a lua de mel que o ex-presidente Barack Obama e o chinês Xi Jinping protagonizaram. Em 02 de dezembro passado, Trump rasgou a história e enfureceu Pequim quando atendeu a um telefonema do presidente taiwanês Tsai Ing-wen. Desde que foi fechada em 1979 a Embaixada norte-americana em Taiwan, nunca mais um presidente estadunidense havia mantido, ao menos oficialmente, uma conversa com um dirigente de Taiwan. Desde o final da década de 1940, a China considera que Taiwan faz parte do seu território. Assim, qualquer contato com os dirigentes de Taiwan é considerado por Pequim como um aval de legitimidade para uma zona reivindicada pela China. Em meados de dezembro, começou a dança dissuasiva com a presença de aviões chineses que se aproximaram de Taiwan.

Donald Trump tocou a zona mais sensível da pele e, a partir desse momento, o presidente eleito recorreu à tuitocracia para atacar a China: pelo Twitter, o presidente acusou Pequim de desvalorizar a sua moeda, de impor taxas exorbitantes sobre as importações norte-americanas, de estar preparando um imponente complexo militar e, mais globalmente, Trump questionou o sacrossanto princípio da China única. Através do muito oficial jornal Global Times, a China abandonou sua discrição e ameaçou “armar” os inimigos dos Estados Unidos.

Os especialistas ocidentais em relações internacionais não estão totalmente convencidos de que se forme no futuro uma espécie de guerra fria ou comercial entre as duas potências. Ambas estão, de fato, ligadas por interesses comerciais mastodônticos de cuja solidez ou estabilidade dependem os equilíbrios mundiais. Os Estados Unidos são o maior destino das exportações chinesas, ao passo que Washington transfere para Pequim 20% de suas exportações (é seu maior “cliente mundial”). Como se fosse pouco, a China detém 7% da dívida pública dos Estados Unidos.

Talvez o realismo comercial e as colossais reservas chinesas sugerissem a Donald Trump menos amadorismo. No entanto, os especialistas julgam que o mal está feito. Em 1979, os Estados Unidos cortaram suas relações diplomáticas com Taiwan reconhecendo implicitamente a dimensão da “China única”. Ao falar por telefone com o presidente Tsai Ing-wen, Trump feriu a mais sensível corda chinesa. Contudo, entre as duas potências prossegue o “diálogo estratégico e econômico”, talvez a garantia de que pelo menos um pilar do mundo não vai ruir.

Donald Trump seguiu sua ofensiva contra as harmonias mundiais arremetendo contra a Europa. O gigante adormecido (a União Europeia) encaixou de frente o que aparece como um profundo distúrbio no tipo de relacionamento. O chefe de Estado questionou a doutrina que prevalece desde o final da Segunda Guerra Mundial nas relações transatlânticas. O último episódio veio com uma entrevista concedida ao jornal britânico The Times e ao alemão Bild Zeitung. Além de atacar a chanceler alemã Angela Merkel e a União Europeia, Trump colocou em dúvida o compromisso estadunidense com a OTAN, que qualificou como “obsoleta”, lançou meia dúzia de diatribes contra a União Europeia, ameaçou aplicar altas taxas às exportações automotivas europeias e dedicou um parágrafo crítico a Merkel, política migratória criticou duramente. Franceses e alemães saíram ao passo da retórica trumpista. O chefe da diplomacia francesa defendeu a “unidade” da Europa e a chanceler alemã disse que “o futuro da União Europeia está nas mãos dos europeus”.

Contudo, os europeus continuam com a cabeça no saco do assombro. Desde os anos 50, Washington apoiou a criação do espaço europeu como uma forma de frear os soviéticos. Mesmo quando caiu o Muro de Berlim as sucessivas administrações norte-americanas resguardaram suas relações com o Velho Continente e apoiaram a expansão da União Europeia. Em 2016, Barack Obama chegou inclusive a defender a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia. A chave de toda a política exterior dos Estados Unidos consistiu em implementar a chamada estratégia das “zonas de influência”.

Trump parece desmembrar essa linha em benefício de uma visão oportunista e de curto prazo: não mais aliados de zona nem inimigos identificados, mas um leque de oportunidades que se aproveitam segundo o momento. Esta visão encaixa com a posição mais conservadora dos republicanos, aquela que dita a política ou os enfoques não em função da qualidade dos atores internacionais, mas das oportunidades que estes encarnam e os benefícios que se podem obter para a economia norte-americana.

Esta doutrina, qualificada como “norte-americanocentrista”, não tem nada a ver com as que circularam até Barack Obama, pelo menos na Europa. É de se ressaltar que esse molde conservador foi o que Washington aplicou na América Latina com as ditaduras: não importa quem, mas o que pode dar. Esse oportunismo nacionalista e unilateral não é amigo das intervenções ou das aventuras armadas. Trump julga a respeito que as expedições punitivas como aquelas que George Bush empreendeu contra o falecido presidente iraquiano Saddam Hussein são muitos caras em relação aos favores que se podem obter mantendo um tirano.

Isso explica a repentina e inesperada reconexão com Moscou. Na verdade, embora os europeus não gostem, Trump corrigiu uma injustiça histórica: devolveu a Moscou seu lugar no mundo. A Rússia sempre foi um eixo inquestionável do equilíbrio mundial, mas os europeus colocaram um zelo empenhado em minar a Rússia. Vladimir Putin é o novo aliado de Trump contra as posições dos mesmos membros da União Europeia, que puniram Putin pela anexação da Crimeia e pela crise do leste da Ucrânia que eles mesmos alimentaram (Obama fez o mesmo). Trump saiu contra o mundo e fará dos fracos – México – seu bode expiatório. Para trás parecem ficar os direitos humanos e a montagem do direito internacional acima dos caprichos dos Estados. O populismo mais remoto não se escondia na Venezuela, na Bolívia ou na Argentina, como apregoavam os lacaios direitistas do continente, mas no centro do império.

Em seu último relatório anual, a ONG Human Rights Watch destacava: “a ascensão dos populismos faz pesar uma perigosa ameaça sobre os direitos humanos. Trump chegou ao poder e vários políticos buscam ganhar o poder na Europa recorrendo ao racismo, à xenofobia, ao nativismo, à misoginia”. Isso é exatamente o trumpismo: uma empresa oportunista, ignorante e extrema de negação universal de tudo o que se construiu após a hecatombe da Segunda Guerra Mundial. O proibido é moeda corrente, o proscrito uma conduta assumida e promovida. Donald Trump veio para contaminar as sempre frágeis doutrinas positivas, tão arduamente conquistadas. A história tirou da masmorra a conjectura mais perigosa do século XXI.

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