Uma presidência com Trump e Bannon e um catolicismo neoamericanista

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07 Fevereiro 2017

A necessidade de redescobrir o ensino católico global em “Pacem in Terris”.

"O catolicismo de Pacem in Terris e do Vaticano II, por outro lado, não consegue encontrar nenhuma acomodação na cosmovisão de Trump e Bannon. E este é exatamente o problema do catolicismo trumpiano com o Papa Francisco", escreve Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por La Croix International, 06-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

“É preciso mesmo que haja divisões entre vocês, a fim de que se veja quem dentro vocês resiste a essa prova”, diz São Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios (11,19).

A interpretação dada a esta passagem é que, ao longo dos séculos, as heresias e divisões são necessárias a fim de que a Igreja desenvolva a tradição em resposta a elas.

E hoje temos a divisão que provém de Donald Trump e dos teólogos da corte, incluindo os novos apoiadores católicos do presidente americano, pessoas de diferentes tipos e cosmovisões ideológicas.

A relação intelectual entre o trumpismo e o catolicismo é central para a compreensão da importância do momento presente.

Esta relação será muito mais importante para o futuro do cristianismo – e especialmente o catolicismo – do que os sonhos dos diplomatas de um alinhamento possível entre o Vaticano e a política externa de Trump no tocante a Rússia e a Síria.

A presidência de Trump marca o grande desvelamento da cultura excêntrica do cristianismo americano e do catolicismo americano. Em particular, ela denota a relação difícil que se desenvolveu nos últimos 30 anos entre as elites clericais e teológicas dentro do catolicismo americano e o ensino social da Igreja em questões sociais, econômicas e internacionais desde o Concílio Vaticano II (1962-1965).

Em resumo, muitos católicos americanos ainda são surpreendidos entre o sonho de reviver a cristandade medieval e o apelo do magistério de Leão XIII sobre a economia e a sociedade modernas, que se encontra em sua encíclica, de 1891, Rerum Novarum. Cautelosamente, este documento abriu a Igreja à modernidade, mas esteve ainda muito influenciado pelo modelo de cristandade medieval.

Mas o que Rerum Novarum não toca em seu texto é a importância dos direitos humanos e dos direitos políticos em uma nova ordem nacionalista e internacional mundial, algo que o magistério papal começou a fazer somente a partir da década de 1960.

De um modo especial, agora é a vez de redescobrir a encíclica de 1963, Pacem in Terris. Este foi o testamento espiritual e teológico de São João XXIII e o último documento deste pontificado. Foi publicado poucas semanas antes de ele morrer.

Pacem in Terris está na base dos documentos do Vaticano II, que se centraram na dignidade da pessoa humana contra o racismo, o nacionalismo e a discriminação religiosa e social.

Podemos ser tentados a ver a relevância de Pacem in Terris somente à luz da nova situação mundial. Vendo as notícias dos últimos dias, na sequência da inauguração do governo do presidente Trump, podemos dizer que a paz mundial corre riscos.

O assessor mais importante do presidente, Steve Bannon, é um assessor belicoso. A sua cosmovisão enxerga uma guerra vindo em breve contra a China, e uma guerra já acontecendo entre o mundo modelado por valores judaico-cristãos e o Islã – que ele não considera uma religião, mas apenas uma ideologia política.

Devemos notar também que Bannon é visto, por alguns católicos, como um aliado contra o Papa Francisco, a saber, aqueles do “Dignitatis Humanae Institute” que o convidaram a palestrar via Skype em uma conferência em 2014.

O Cardeal Raymond Burke, crítico mais destacado do papa e um dos bispos que há tempos moldavam o perfil intelectual do episcopado católico até a eleição de Francisco, é o presidente do conselho consultivo do citado instituto.

É profundamente irônico que o “Dignitatis Humanae Institute” tire o seu nome da declaração do Vaticano II que defendia a liberdade religiosa a todos os credos. E é de surpreender que esse documento fundante do citado think tank católico – a material intitulado “Universal Declaration of Human Dignity” (2008) – não cite uma única fonte do magistério católico.

E aqui jaz o cerne do problema. Aquilo que eu chamaria de um “catolicismo neoamericanista” baseia-se numa lista muito seletiva dos ensinamentos da Igreja. Geralmente exclui o que se encontra no cerne da defesa papal dos direitos humanos e da liberdade religiosa, a saber, Pacem in Terris.

Este documento foi visto como um desafio direto ao alinhamento ideológico entre o catolicismo e a frente anticomunista da OTAN quando foi publicado. Ele é politicamente necessário hoje para uma Igreja que tenta desagregar a situação internacional e evitar novas guerras que alguns, no governo Trump, estão ávidos a travar.

Mas Pacem in Terris é também necessária teologicamente porque é o fundamento do ensino católico sobre o que a Igreja tem a dizer no mundo global. O documento foi elaborado e publicado no começo de 1963, depois da primeira sessão do Vaticano II. Surgiu somente alguns meses após a crise dos mísseis de Cuba e em meio ao Concílio.

Pacem in Terris é a base do nível católico magisterial mais elevado sobre a dignidade humana e os direitos humanos, sobre democracia e desenvolvimento. É o primeiro passo necessário para entender a constituição do Vaticano II sobre a Igreja no mundo atual, Gaudium et Spes (1965), a declaração sobre liberdade religiosa, Dignitatis Humanae (1965), e a mais importante encíclica social de Paulo VI, Populorum Progressio (1967).

Nesse sentido, a distorção operada por Steve Bannon e pelo catolicismo trumpiano é a versão extrema de um problema típico de alguns círculos do catolicismo anglo-americano – a desconsideração das ideias básicas do ensino social católico que se origina em São João XXIII e no Vaticano II a fim de favorecer uma tradição do ensino social católico ainda baseado na encíclica de Leão XIII Rerum Novarum (1891).

Por exemplo, isso fica bastante evidente a partir do enquadramento teológico empregado pelos bispos americanos para combater a legislação contraceptiva da reforma no sistema de saúde proposto pelo governo Obama com base na “liberdade religiosa”. Apesar de usar uma citação de “Dignitatis Humanae”, o argumento inteiro dos bispos foi constitucional-jurídico, não teológico.

Consequentemente, os bispos estiveram enfraquecidos na defesa da liberdade de outros grupos religiosos dos EUA durante a campanha presidencial que repetidamente ameaçou a liberdade religiosa dos muçulmanos, por exemplo. E parece que estes bispos ainda não estão alertas ao que está acontecendo. Uma das mais recentes iniciativas da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA fala somente das preocupações das instituições católicas em lidar com temas “biopolíticos” (casamento, sexualidade humana e proteção da vida humana).

O problema é que um catolicismo inspirado na Rerum Novarum pode encontrar um tipo de acomodação com a cosmovisão trumpiana. Mas isso só acontece porque ela é a linguagem da Igreja Católica antes das duas Guerras Mundiais; antes do ecumenismo e da liberdade religiosa de todas as religiões; e antes de o catolicismo mudar de uma configuração euro-ocidental para uma configuração verdadeiramente global.

O catolicismo de Pacem in Terris e do Vaticano II, por outro lado, não consegue encontrar nenhuma acomodação na cosmovisão de Trump e Bannon. E este é exatamente o problema do catolicismo trumpiano com o Papa Francisco.

Este pontificado interpreta Rerum Novarum à luz dos desenvolvimentos ocorridos no ensino social católico desde o Vaticano II, a começar por Pacem in Terris. As declarações do Papa Francisco sobre a economia e o capitalismo, por exemplo, não podem ser interpretadas com Rerum Novarum somente, mas precisam dos desdobramentos do Vaticano II e do pós-Vaticano II. A encíclica Laudato Si’ de Francisco pode ser vista como uma nova Rerum Novarum, embora não cite o documento mais antigo. Todos os ensinamentos papais citados em Laudato Si’ decorrem de documentos pós-Vaticano II.

Sinto-me relutante a ver alguma coisa oportuna na eleição de Donald Trump. No entanto, esse período político pode trazer uma oportunidade para esclarecer um grande problema teológico na cultura do catolicismo anglo-americano. Uma reposta verdadeiramente católica a Trump deve começar com Pacem in Terris e os documentos do Concílio Vaticano II.

Nos últimos anos, o episcopado americano vem mostrando uma (não) recepção particularmente “americanista” dos ensinamentos conciliares. O retrato moral e epistemológico mais amplo que o Vaticano II produziu para a Igreja do mundo moderno parece ter se perdido entre muitos dos católicos americanos, inclusive Steve Bannon. E isso agora é um problema não só para a Igreja Católica, mas também para o mundo inteiro.

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