Trump tem inspirado uma oposição crescente

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06 Fevereiro 2017

"A oposição crescente, caso pretenda se sustentar e ser significativa, precisa incluir as inquietações das pessoas de cor, especialmente os afro-americanos, descendentes dos imigrantes involuntários que conheceram o pecado original da cultura da exclusão desumanizadora" escreve National Catholic Reporter, em editorial publicado 03-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o editorial.

O presidente Donald Trump está forçando a nós – americanos, conservadores, progressistas, pessoas de todos os partidos e de nenhum, crentes e descrentes – considerarmo-nos de um modo e em níveis sem precedentes na política moderna desta país.

É quase inigualável a ironia de que um homem que parece incapaz de ter um pensamento modesto esteja causando uma tal pandemia de introspecção nacional.

Como isso aconteceu? Por quê? As palavras importam? Existe alguma diferença significativa entre difundir falsidades facilmente prováveis e mentir? A nossa política não estará mais vinculada à convenção e à tradição? Qual o perigo deste homem imprevisível, cujo governo foi recém-inaugurado, diante da potência mais poderosa da Terra? Já tivemos dúvidas como estas no passado, mas nunca tantas em um único momento e nunca tão inquietantes ao grau que temos hoje.

Tão incomum quanto a recente eleição são as amostras sem precedentes de oposição que emergiram imediatamente após a eleição de Trump e na medida em que as políticas de seu governo iam surgindo. Milhões compareceram às cidades, grandes e pequenas, em todo o país, para protestos no dia depois da inauguração do atual governo.

Mais impressionante ainda foi ver os milhares que se materializaram nos aeroportos dentro de poucas horas na sequência das ordens executivas do presidente que proibiam a imigração vinda de sete países de maioria muçulmana.

O candidato Trump soube aproveitar uma raiva fervilhante de segmento do público americano, usando-a para o seu proveito ao intimidar e insultar em seu trajeto à indicação partidária. Mas algo mais profundo na alma americana está sendo a provocado agora que ele é presidente, um desconforto profundo para muitos em aquiescer a uma visão do mundo que é, ao mesmo tempo, rigidamente dualista e repleta de ideias sobre segurança – ideias que parecem derivadas de um século atrás. Essa provocação está criando um confronto entre a cosmovisão distópica, combativa de Trump e um entendimento de que o caráter americano está no seu melhor quando o pragmatismo das pessoas é grandemente influenciado por uma generosidade de espírito e quando o medo do outro cede a convicções mais fundamentais concernentes à nossa humanidade comum.

Se há uma vantagem em qualquer das atividades frenéticas dos primeiros dias de Trump como presidente, ela é a de que ele vem inspirando, ainda que jamais tenha pretendido tampouco previsto, uma coalescência do ativismo oposicionista que faltou na campanha fracassada de Hillary Clinton.

Um perigo se esconde, no entanto, mesmo no consenso crescente de que algo está seriamente errado. O quadro intelectual que sustenta o programa do candidato que se tornou presidente Donald Trump não é só inerentemente xenófobo no panorama mundial; é também um divisor declarado em temas domésticos e está repleto de declarações racistas, de intolerância e representações rasteiras, incorretas da realidade vivida dos afro-americanos, imigrantes latinos, muçulmanos e outros. Não são necessárias teorias conspiratórias para se preocupar profundamente com que Steve Bannon agora tenha a oportunidade, na qualidade de estrategista-chefe de Trump, de regularmente sussurrar nos ouvidos do presidente. Bannon é um dos principais teóricos da conspiração que, como chefe da Breitbart News, provindenciou um lar para os supremacistas brancos chamamos “alt-right”. Recentemente ele foi membro fundador do grupo de segurança mais importante do país.

A oposição crescente, caso pretenda se sustentar e ser significativa, precisa incluir as inquietações das pessoas de cor, especialmente os afro-americanos, descendentes dos imigrantes involuntários que conheceram o pecado original da cultura da exclusão desumanizadora.

Estamos animados com a resposta imediata da ampla representação religiosa de grupos condenando as ordens contra os imigrantes que Trump emitiu no final de sua primeira semana no poder. Especialmente notáveis para os católicos foram as notas publicadas pelo cardeal-arcebispo de Chicago Blase Cupich, que declarou que “o fim de semana mostrou ser um momento sombrio na história americana”.

Cupich continuou: “Estas ações impõem uma pausa imediata na vinda de imigrantes e refugiados de vários países, pessoas que estão sofrendo, fugindo para salvar suas vidas. A ideia e a sua implementação são apressadas, caóticas, cruéis e alheias às realidades que irão produzir uma segurança duradoura para os Estados Unidos”.

As ordens contra a imigração foram a pedra angular para a primeira semana do governo no poder, uma semana de imposição caótica de ordens executivas, deixando, por exemplo, pessoas dependentes da Lei de Proteção ao Paciente e de Assistência (Affordable Care Act) ameaçadas de ficar sem assistência médica, sem alternativa em vista. Esta semana viu os legisladores republicanos por trás de portas fechadas se perguntarem se o governo os estaria levando para dentro de uma armadilha política com tanta pressa assim em desmantelar o Obamacare.

Ela também levantou uma discussão nova sobre a eficácia da tortura e sobre se ela seria banida permanentemente como tática empregada contra prisioneiros de guerra. E igualmente viu o rearranjo do Conselho de Segurança do presidente incluir Bannon, um agente político de classe.

Houve um momento especialmente tenso, quando agências federais nos aeroportos tentavam decifrar a extensão da proibição imigratória do presidente e como ela devia ser interpretada, quando havia uma possibilidade real de que o país estivesse se dirigindo para uma crise constitucional. Havia indícios de que o governo poderia ignorar as ordens judiciais que suspendia partes das ordens executivas. Em seguida, o presidente demitiu o procurador geral em exercício.

Não foi uma primeira semana ruim caso o objetivo for a ruptura constante, a imprevisibilidade e deflexão das questões importantes em jogo.

Essa maneira de governar não pode ser deixada a si mesma. Um elemento central para ela, no entanto, é perceber que o mesmo tipo de resposta a uma ameaça percebida que vimos no cenário internacional semana passada, ainda em janeiro, irá continuar no lado nacional das coisas. Trump não mudou com a transição entre candidato e presidente empossado tanto quanto abertamente se esperava, inclusive pelos membros de seu próprio partido. O que sabemos é que a sua visão das coisas, uma espécie de resposta reptiliana que enxerga somente ameaça ou dominação, somente vencer ou perder, é incapaz de compreender ou considerar algo entre estes dois extremos.

Ele tem uma embarcação política incognoscível, vazia dentro da qual se derramou uma combinação tóxica de ódio e desprezo, frustração com um sistema político disfuncional e o veneno das respostas fáceis. A coalizão que está se construindo para combater as suas abordagens venenosas ao país e ao mundo em geral deve estender a mão a todos e, especialmente, aos pobres, aos desprotegidos, aos ameaçados por causa da cor da pele ou afiliação religiosa e aqueles que se atrevem a falar em oposição.

Os católicos têm uma profunda e longa tradição de ensinamentos de justiça social, ideias que decorrem das Bem-Aventuranças, que nos mantêm focados no que fazer e como responder em meio ao caos do momento. Estes ensinamentos vão contra a visão de mundo construída sobre a necessidade de demonizar o outro e criar inimigos; eles substituem o pulso cerrado que se viu no dia da inauguração presidencial por uma palma aberta de acolhida e abraço. Nós sabemos como fazer isso.

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