Presidente mexicano debaixo de fogo por ter convidado el señor Trump

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02 Setembro 2016

Mexicanos esperavam que Peña Nieto deixasse o candidato do Partido Republicano embaraçado por causa das afirmações que fez no último ano sobre os imigrantes nos Estados Unidos.

A popularidade do Presidente do México já estava abaixo da linha vermelha há muito tempo, mas o convite feito a Donald Trump, na quarta-feira, foi a gota que fez transbordar o copo de água da paciência dos mexicanos.

A reportagem é de Alexandre Martins, publicada por Público, 01-09-2016.

As reações negativas começaram logo que o encontro foi anunciado, na noite de terça para quarta-feira, mas subiram de tom depois do discurso público de Enrique Peña Nieto, com Donald Trump ao seu lado.

Esta quinta-feira, o Presidente mexicano teve de justificar o convite feito ao candidato do Partido Republicano – não através de respostas a jornalistas mas de um artigo escrito por si. "Por que me reuni com Donald Trump?", pergunta Peña Nieto no jornal El Universal. "É importante ter reuniões com ambos os candidatos, mas principalmente com o senhor Trump, porque há coisas que ele devia ouvir de viva voz pelo Presidente do México, começando pelo sentimento dos mexicanos. E foi por isso que lhe fiz saber três coisas durante o nosso encontro", escreveu Peña Nieto, tentando transformar aquilo que foi, no máximo, uma declaração pública firme e cordial, numa lição de comportamento a Donald Trump.

Tal como salienta no texto, o Presidente mexicano deu uma imagem das relações entre o seu país e os Estados Unidos muito diferente daquela que o candidato do Partido Republicano transmite aos seus apoiantes – lembrou que todos os dias passam a fronteira, legalmente, um milhão de pessoas e 400 mil veículos; que o seu país compra mais produtos à economia dos EUA do que Alemanha, Espanha, França, Itália, Japão e Reino Unido juntos; e que os mexicanos de origem que vivem do outro lado fronteira são pessoas trabalhadoras e cumpridoras da lei.

Mas para os mexicanos o mal já estava feito: o Presidente convidou Donald Trump, reuniu-se com ele no palácio presidencial e deixou-se filmar e fotografar ao lado do candidato do Partido Republicano, dando-lhe um argumento para dizer aos seus apoiantes que já tem estatuto político internacional e ainda nem é Presidente.

Como escreveu o jornalista Héctor de Mauleón também no jornal El Universal, "Donald Trump apertou a mão a Enrique Peña Nieto, mas não pediu desculpas pelos insultos lançados durante um ano contra o México e os mexicanos. E o Presidente deste país não exigiu um pedido de desculpas".

"Teve a oportunidade de deixar ao futuro – e, sobretudo, aos cidadãos que governa – um gesto de valor e de dignidade. Lamentavelmente, o que o Presidente deixou ao futuro – e, sobretudo, aos cidadãos que governa – foi um silêncio inexplicável em relação aos temas com que Trump tem insultado os mexicanos", escreveu o jornalista.

No final da declaração de quarta-feira, Donald Trump disse que tinha falado com Peña Nieto sobre a construção do muro, mas disse também que não tinham discutido o assunto mais importante: quem vai pagá-lo? O Presidente mexicano poderia ter dado a sua versão nesse preciso momento – talvez isso fosse visto pelos mexicanos como a palmada que tanto desejavam ver –, mas só respondeu depois, na rede social Twitter: "No início da conversa com Donald Trump deixei claro que o México não vai pagar o muro."

"Como é evidente que um dos dois mentiu", escreveu Héctor de Mauleón, "é legítimo perguntar se alguma vez na história das relações entre o México e os Estados Unidos se tinha mentido publicamente de forma tão flagrante. Suponho que não. Possivelmente porque nunca tinha havido uma reunião como a que aconteceu ontem [quarta-feira]."

Dando voz a muitas das críticas que se propagaram nas redes sociais, o jornalista não encontra nenhuma vantagem no convite feito ao candidato do Partido Republicano: "Não importa o que procurava Donald Trump ao visitar o México – seja o que for, obteve-o. O importante é perceber o que procurava Enrique Peña Nieto ao abrir-lhe a porta, ao dar-lhe a mão, e depois manter silêncio sobres as coisas que mais têm ofendido os mexicanos."

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