O que a economia americana demanda de Trump. Artigo de Joseph Stiglitz

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14 Novembro 2016

“Minha bola de cristal um tanto desfocada mostra uma mudança das regras, mas não no intuito de corrigir os graves erros da revolução de Reagan, um marco na jornada sórdida que deixou tantos para trás. Em vez disso, a situação vai piorar, pois ainda mais pessoas serão excluídas do 'sonho americano'”, escreve Joseph Stiglitz, economista, em artigo publicado por Project Syndicate, 13-11-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Joseph E. Stiglitz é professor universitário na Universidade de Columbia, co-presidente da Comissão de Especialistas para Mensuração do Desempenho Econômico e do Progresso Social da OCDE e economista-chefe do Instituto Roosevelt. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2001 e a medalha Clark John Bates em 1979. Stiglitz foi vice-presidente sênior e economista-chefe do Banco Mundial, presidente do Conselho de Assessores Econômicos no governo de Bill Clinton, e fundou, em 2000, a Iniciativa para o Diálogo Político (Initiative for Policy Dialogue), uma think tank sobre o desenvolvimento internacional com sede na Universidade de Columbia. Seu livro mais recente é Euro: Como uma moeda comum ameaça o futuro da Europa.

Eis o artigo.

A impressionante vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos esclareceu uma coisa: muitos estadunidenses - particularmente homens brancos - têm a sensação de terem sido deixados para trás. E não é apenas um sentimento: muitos deles realmente foram deixados para trás. Isso pode ser visto nos dados de maneira não menos clara do que na sua raiva. E, como tenho argumentado repetidamente, um sistema econômico que não pensa em grandes partes da população é um sistema econômico falho. Então, o que o presidente eleito Trump deve fazer a respeito?

Ao longo do último terço de século, as regras do sistema econômico dos Estados Unidos foram reescritas de modo a servir uma pequena parcela da camada superior, prejudicando a economia como um todo e especialmente os 80% da parte inferior. A ironia da vitória de Trump é que foi o Partido Republicano, que ele agora lidera, que pressionou a uma globalização extrema e contra os quadros políticos que teriam amenizado o consequente trauma. Mas considerar a história é importante: a China e a Índia estão agora integrados na economia global. Além disso, o avanço da tecnologia tem sido tão rápido que o número de empregos no setor de fabricação está em declínio mundialmente, o que implica que não há formas de Trump levar um número significativo de empregos bem remunerados, neste setor, de volta para os EUA. Ele pode retomar a manufatura, através da fabricação avançada, mas haverão poucos empregos. E ele pode trazer empregos de volta, mas serão de baixa remuneração, e não os empregos com altos salários da década de 1950.

Se Trump realmente quer combater as desigualdades, ele vai ter que reescrever as regras mais uma vez, de maneira que elas sirvam a toda a sociedade, e não apenas a pessoas como ele.

A prioridade é aumentar os investimentos, restaurando, assim, um crescimento robusto a longo prazo. Mais especificamente, Trump deve concentrar gastos em infraestrutura e pesquisa. Por mais surpreendente que isso seja para um país cujo sucesso econômico é baseado em inovação tecnológica, a porcentagem do PIB investido em pesquisa básica é menor hoje do que meio século atrás.

Melhorias em infraestrutura aumentariam os lucros dos investimentos privados, que também têm ficado defasados. Garantir maior acesso financeiro para as pequenas e médias empresas, incluindo as dirigidas por mulheres, também estimularia o investimento privado. Cobrar impostos sobre o carbono proporcionaria um triplo bem-estar: um crescimento mais elevado pela readaptação das empresas a fim de refletir o aumento dos custos de emissões de dióxido de carbono; um meio-ambiente mais limpo; e as receitas que poderiam ser utilizadas para financiar a infraestrutura e esforços diretos para restringir a divisão econômica dos EUA. Mas, considerando a posição de Trump como alguém que nega as mudanças climáticas, é improvável que ele aproveite esta oportunidade (que também poderia induzir o mundo a começar a cobrar tarifas contra produtos norte-americanos cuja produção viole as regras globais sobre mudanças climáticas).

Uma abordagem global também é necessária para melhorar a distribuição de renda dos EUA, que é uma das piores entre as grandes economias. Por mais que Trump tenha prometido aumentar o salário mínimo, ele dificilmente implementará outras mudanças críticas, como reforçar os direitos de negociação coletiva dos trabalhadores e seu poder de negociação, além de restringir a remuneração e a financeirização dos CEOs.

A reforma regulatória deve ir além de limitar os danos que o setor financeiro pode causar e assegurar que o setor realmente sirva à sociedade.

Em abril, o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama mostrou um aumento da concentração de mercado em muitos setores. Isso significa menos concorrência e preços mais altos - uma maneira tão certeira de diminuir os rendimentos reais quanto a redução direta de salários. Os EUA precisam combater estas concentrações de poder de mercado, incluindo as mais recentes manifestações na chamada economia compartilhada.

O sistema tributário regressivo dos EUA - que aumenta a desigualdade ao ajudar os ricos (e mais ninguém) a ficarem cada vez mais ricos - também deve ser reformulado. Um objetivo óbvio deveria ser eliminar o tratamento especial dos ganhos e dividendos de capital. Outro seria garantir que as empresas paguem impostos - talvez através da redução da taxa de impostos corporativos, para empresas que investirem e criarem empregos nos Estados Unidos, e da elevação, para as empresas que não o fizerem. Como Trump é um dos principais beneficiários deste sistema, no entanto, é difícil acreditar em suas promessas de reformas que beneficiem os norte-americanos comuns. Como de praxe entre os republicanos, as alterações fiscais beneficiarão os ricos em grande medida.

Trump provavelmente também fará pouco pela igualdade de oportunidades. Garantir educação pré-escolar para todos e investir mais em escolas públicas é essencial para que os EUA não se tornem um país neo-feudal, onde vantagens e desvantagens são passadas de geração em geração. Mas Trump praticamente não falou sobre este tema.

Restaurar a prosperidade geral exige políticas que ampliem o acesso à habitação e à assistência médica, assegurem uma aposentadoria minimamente digna e permita que todos os norte-americanos, independentemente da riqueza que vem de berço, possam alcançar um ensino pós-secundário compatível com suas habilidades e interesses.

Mas, pelo que pude ver de Trump, um magnata imobiliário, ao apoiar um enorme programa habitacional (em que a maior parte dos benefícios vai para seus criadores, como ele próprio), a revogação do Affordable Care Act (Obamacare) prometida por ele deixaria milhões de norte-americanos sem plano de saúde. (Logo após a eleição, ele sugeriu que poderá atuar de maneira cautelosa nesta área.)

Os problemas sinalizados pelos norte-americanos descontentes - resultantes de décadas de negligência - não serão resolvidos rapidamente ou através de ferramentas convencionais. Uma estratégia eficaz terá de considerar soluções mais inovadoras, as quais os interesses corporativos republicanos dificilmente favorecerão. Por exemplo, poderia ser autorizado que as pessoas depositassem valores maiores em suas contas da Segurança Social para aumentar sua segurança na aposentadoria, com aumentos proporcionais nas pensões. E políticas abrangentes de licenças familiares e médicas ajudariam os norte-americanos a alcançar um equilíbrio menos estressante entre trabalho e vida pessoal.

Da mesma forma, uma opção pública para financiamento habitacional poderia dar descontos de 20% aos pagantes regulares de imposto, proporcionalmente à sua capacidade de quitação da dívida, a uma taxa de juros um pouco maior do que a que o governo pode pegar emprestado e arcar com a sua própria dívida. Os pagamentos seriam canalizados através do sistema de imposto de renda.

Muita coisa mudou desde que o presidente Ronald Reagan começou a esvaziar a classe média e direcionar os benefícios do crescimento aos mais ricos, e as políticas públicas e instituições dos Estados Unidos não conseguiram acompanhar. Desde o papel das mulheres no mercado de trabalho até a ascensão da Internet e o aumento da diversidade cultural, os EUA do século XXI são fundamentalmente diferentes dos EUA da década de 80. 

Se Trump realmente quer ajudar os que ficaram para trás, ele deve ir além das batalhas ideológicas do passado. A agenda que esbocei aqui não trata apenas da economia, mas do fomento de uma sociedade dinâmica, aberta e justa, que cumpre a promessa dos valores mais estimados pelos norte-americanos. Mas ao mesmo tempo que vai, de certa forma, ao encontro das promessas da campanha de Trump, de muitas outras maneiras, representa o contrário.

Minha bola de cristal um tanto desfocada mostra uma mudança das regras, mas não no intuito de corrigir os graves erros da revolução de Reagan, um marco na jornada sórdida que deixou tantos para trás. Em vez disso, a situação vai piorar, pois ainda mais pessoas serão excluídas do 'sonho americano'.

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