Matteo Renzi, populistas italianos & a Igreja

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12 Dezembro 2016

Menos de uma hora depois de as urnas serem fechadas após referendo sobre uma reforma constitucional, o primeiro-ministro Matteo Renzi interpretou a ampla rejeição recebida por ele como um voto de desconfiança em seu governo. Ele renunciou ao vivo na televisão mesmo antes de se reunir com o presidente da república. O resultado pressagia um futuro incerto para a Itália – um país fundamental para a estabilidade política da União Europeia.

O comentário é de Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, publicado por Commonweal, 06-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Político jovem e enérgico que tenta ser o Tony Blair de seu país, Renzi trouxe uma derrota para si mesmo. Em abril, o parlamento aprovou uma reforma constitucional que ele e aliados propuseram e que dominou o debate político desde então. O primeiro-ministro enquadrou o referendo como sendo um referendo sobre si mesmo, e perdeu por uma margem de 59 a 41%. Somente em três das 20 regiões da Itália os votos para o “sim” equivaleram a uma maioria. A reforma em questão era bastante complexa (e, em minha opinião como eleitor italiano, equivalia a uma reconfiguração confusa da Constituição aprovada em 1947): ela reconfiguraria o senado como uma câmara com representantes regionais, diferenciaria entre as hoje funções idênticas da câmara e do senado e fortaleceria o papel do primeiro-ministro em relação ao poder do parlamento, as regiões e o presidente. Estes detalhes da reforma, porém, ficaram em um segundo plano durante a infindável campanha; era o próprio primeiro-ministro quem estava, na verdade, sob votação.

Será que essa derrota no referendo sinaliza uma outra vitória do populismo na Europa após o Brexit (e uma prévia para as eleições na França e Alemanha no próximo ano)? Pensar assim seria simplificar demais as coisas.

Entre os que votaram contra a reforma constitucional de Renzi estavam Silvio Berlusconi, juntamente com muitos sobreviventes políticos de sua época, e o ex-primeiro-ministro Mario Monti (o tecnocrata par excellence da história recente do país).

A estes se juntaram muitos intelectuais e juristas, e uma maioria do tipo de pessoas de esquerda e jovens eleitores que nos EUA gostariam de ver Bernie Sanders nas urnas em 8 de novembro. As elites progressistas italianas que votaram em Renzi apenas o apoiaram por medo que tinham da alternativa política que havia, abstendo-se inclusive de fazer juízo sobre a reforma proposta ou sobre o governo de Renzi. Um destes foi o primeiro-ministro mais bem-sucedido desde o fim da Guerra Fria, Romano Prodi. Mas o seu irmão Paolo Prodi, importante e famoso historiador, votou contra. O próprio partido político de Renzi acabou se dividindo em dois.

Se a Itália for às urnas em 2017, é provável que o vencedor vá ser o partido populista 5 Estrelas, liderado pelo comediante Beppe Grillo. É um partido construído inteiramente a partir da internet em 2009: ativismo antivacinação, teorias conspiratórias e xenofobia são sua base de sustentação. O movimento 5 Estrelas hoje controla algumas cidades importantes na Itália, incluindo Roma. O problema é que a prefeita dessa cidade, Virginia Raggi, mal sabe o que deve fazer o prefeito de uma cidade difícil como Roma; a capital está basicamente sem administração no momento.

De certa forma, o rótulo de “populista” poderia ser aplicado a Renzi também. Proveniente do quadro das antigas elites católicas centristas do partido “Democrazia Cristiana”, ele construiu, como prefeito de Florença, uma carreira com base numa mensagem populista que equivalia a “políticos profissionais são velhos e corruptos, mas eu sou jovem e novo”.

O fato é que, em sua vida, Renzi, nunca teve um emprego que não fosse na política. Foi populista contra a União Europeia, a qual usou como trampolim àqueles que veem a Europa liderada pela Alemanha como uma Europa burocrática, tecnocrata e preocupada somente com a estabilidade financeira e o equilíbrio orçamentário. Renzi foi também um populista em seu comando do Partido Democrata, que ele conquistou numa virada hostil, desprezando os seus elementos governantes e sua base cultural e sociológica, composta por elites antigas. (Existem alguns paralelos entre o que Renzi fez para as lideranças de seu próprio partido e o que Donald Trump fez para os elementos do establishment do Partido Republicano.)

O fato de o Partido Democrata de centro-esquerda como era antes não mais existir apresenta um problema político. Renzi ainda é o seu líder, mas não está claro o que restou a ser liderado. Alguns milhares já se retiraram em silêncio; quantos restarão daqueles que abertamente desafiaram e derrotaram Renzi? Renzi via o seu Partido Democrata como o Partido Democrata dos EUA ou como o Partido Trabalhista da Inglaterra, centrado na liderança de alto escalão com muito menos energia dedicada ao debate no parlamento, assim alterando radicalmente o modelo italiano-europeu dos partidos políticos. Numa era que clama por líderes carismáticos que decidem e agem rapidamente, ele abraçou o populismo daqueles que veem os partidos políticos como o epítome da corrupção e inação.

O outro populista da Itália está no Vaticano. Politicamente, Francisco não é um populista, apesar do que dizem Ross Douthat e críticos italianos este papado. Em vez disso, o seu populismo é teológico, centrado no sensus fidei do Povo de Deus. Na verdade, Francisco disse algo que Bento XVI relutou a dizer, isto é, que a vocação política é nobre. Em dado sentido, Bento XVI, em sua viagem apostólica à Alemanha em 2011, foi mais um populista político: “É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim a estrada à falsificação do direito, à destruição da justiça. ‘Se se põe de parte o direito, em que se distingue então o Estado de uma grande banda de salteadores?’ – sentenciou uma vez Santo Agostinho” (De civitate Dei, IV, 4, 1).

Estes diferentes populismos – Berlusconi, Renzi, GrilloFrancisco – têm pouco em comum. A crise política na Itália coloca hoje o Vaticano e a Igreja Católica numa posição difícil, quer dizer, sem alguém com quem se possa conversar: Berlusconi, Grillo, Renzi ou os sucessores de Renzi no Partido Democrata não ouvem a Igreja e suas preocupações. Berlusconi está totalmente desacreditado e agora procura alguém que possa ser seu herdeiro. Grillo representa o ethos anticlerical, antirreligioso e moralmente analfabeto, que faz fronteira com o fascismo, apelando a (quase) ninguém nos escalões da Igreja. Os políticos católicos que vêm das elites democráticas estão agora divididos entre o Partido Democrata e partidos de centro-direita, e não representam o catolicismo italiano; eis um dos efeitos da demolição programática dos partidos políticos italianos e dos sindicatos iniciada por Berlusconi e continuada por Renzi.

O Vaticano, fiel ao estilo do Papa Francisco de não interferir na política italiana, não tomou lado no referendo constitucional; a ele seria preferível não se envolver em uma longa fase de instabilidade política e financeira, mas também nunca houve uma conexão real entre Renzi e sua comitiva de um lado e o Vaticano e a Igreja Católica de outro. É um absurdo que os pequenos e isolados grupos de católicos anti-LGBTs (os organizadores do “Dia da Família”) tenham votado contra Renzi como uma retaliação por causa da recém-aprovada lei que autoriza o casamento gay.

Mas é verdade que um católico como Renzi chocou muitos fiéis italianos (clero e leigos) como sendo arrogante, culturalmente superficial, autocentrado e ignorante quanto ao papel da Igreja em um sistema que, em termos constitucionais, ainda é o de um catolicismo estabelecido. A Conferência Episcopal Italiana, presa em seu agnosticismo sobre todas as coisas que não têm a ver com os “valores não negociáveis”, mal reconheceu o fato de que os italianos estavam indo votar e se esqueceu de que um referendo fazia parte daquela constituição que os melhores pensadores católicos produziram no pós-Segunda Guerra. Os católicos italianos em geral dividiram-se entre Renzi e o referendo. La Civiltà Cattolica, cujo colunista jurídico, o Pe. Francesco Occhetta, se mostrou mais pró-reforma do que a própria revista, simboliza o dilema de fiéis do país: apoiar uma reforma confusa da Constituição que duraria décadas, ou votar por reforma alguma e desencadear uma instabilidade potencialmente perigosa depois da queda de Renzi.

Agora, os italianos, passando por uma crise política, olham para o presidente da república Sergio Mattarella, eleito quase dois anos atrás graças a uma jogada política genial de Matteo Renzi, quem, na ocasião, trabalhou como um elemento unificador das diferentes forças políticas.

Mattarella é um católico siciliano, da escola antiga e imbuído das ideias do Vaticano II; culturalmente e em termos geracionais, ele está bem mais próximo do Papa Francisco do que o jovem católico Matteo Renzi. Sua ideia de política foi moldada também pelo assassinato de seu irmão, político profissional, nas mãos da máfia, em 1980.

Os líderes da Igreja Católica na Itália temem a ideia de o movimento 5 Estrelas subir ao poder federal. Teremos uma transição difícil, e isto é um pequeno resquício de fevereiro de 2013, quando os italianos votaram para o novo parlamento: Bento XVI há pouco tinha anunciado sua renúncia, portanto em Roma não havia nem um governo nem um papa. Mas desta vez, pelo menos, temos Francisco.

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