Arturo Sosa encerra a Congregação Geral convidando os jesuítas para "ver o mundo através dos olhos dos pobres"

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14 Novembro 2016

No sábado, dia 12 de novembro, celebrou-se em ação de graças o fechamento da Congregação Geral, com uma missa celebrada pelo Padre Superior-geral Arturo Sosa, na Igreja de Santo Inácio de Loyola, na paróquia da Companhia de Jesus, em Roma.

A informação é publicada por Religión Digital, 12-11-2016. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Em sua introdução, o Padre Geral solicitou a intercessão de Maria, invocada tradicionalmente na Companhia sob o nome de Nossa Senhora da Estrada, de modo que ela acompanhe os "amigos no Senhor" que partirão para diversos lugares do mundo, após seu trabalho na Congregação Geral. Ele também pediu à Maria que ajudasse a todos os jesuítas a serem testemunhas verdadeiramente autênticas da mensagem de Cristo, e que também possam ser o reflexo crível de seu rosto no mundo.

Os textos bíblicos da liturgia da Palavra foram escolhidos para a ocasião. Da primeira carta de São João (capítulo 4, de 7 a 16), destaca-se a insistência no amor mútuo, reflexo do amor de Deus, que deve animar o conjunto das relações não apenas entre os jesuítas, mas com todos aqueles e aquelas que eles servem e aos quais são enviados.

Do evangelho de Marcos, o capítulo 16. Trata-se do envio dos apóstolos, no momento da Ascensão, para proclamar "a boa notícia a toda criatura". O evangelista conclui destacando que este envio surtiu efeito: "eles saíram e pregaram por toda parte, o Senhor os assistia e confirmava a Palavra acompanhando-a com sinais".

Se os sinais evocados por Marcos - serpentes e venenos mortais - podem ser diferentes de acordo com os contextos e épocas, seu caráter de libertação e de salvação permanece sempre pertinente, e hoje pode certamente fundamentar o testemunho evangélico.

Em sua homilia, o Padre Geral destacou o sentimento de vertigem que sempre acompanha o final de cada experiência forte de discernimento e a importância de fortalecer a confiança na escolha realizada, fundamentando-nos na "consolação proveniente da sintonia com a vontade do Pai".

Em continuidade com os diálogos mantidos durante a Congregação, o Pe. Sosa convidou o público a rezar uma vez mais o "Tomai, Senhor, e Recebei" em união de espíritos com os companheiros em situação de guerra. Para o Padre Geral, o processo de discernimento da Companhia reunida na Congregação Geral "coloca-nos frente ao desafio de nos converter em ministros da reconciliação em um mundo que não parou durante as nossas deliberações."

Referindo-se às complexas situações de guerras, de refugiados, a desigualdade e o crescente enfraquecimento da política, o Pe. Geral convidou os jesuítas para "ver o mundo através dos olhos dos pobres e colaborar com eles para fazer crescer a vida verdadeira." O Padre Sosa insistiu que é o nosso discernimento que "nos convida a ir às periferias e tentar entender como afrontar globalmente a integralidade da crise que impede, para a maioria da humanidade, as condições mínimas de vida e coloca em risco a vida sobre o planeta Terra, para dar espaço para a Boa Nova."

Para o Padre Sosa o apostolado da Companhia de Jesus é necessariamente intelectual, buscando a compreensão de tudo o que oprime as pessoas neste mundo, aprendendo novas línguas para compreender e compartilhar a Boa Nova da Salvação para todos e todas. "Se abrirmos nossos corações à ação do Espírito Santo e nossas mentes para a verdade do amor de Deus, não beberemos o veneno das ideologias que justificam a opressão, a violência entre seres humanos e à exploração irracional das reservas naturais."

A pregação terminou convidando para pregar o Evangelho em todos os lugares, consolados pela experiência do amor de Deus. "Como para os primeiros Padres, o Senhor tem sido benéfico para nós, em Roma, enviando-nos para todos os lugares do mundo e para todas as culturas humanas. Sigamos confiantes porque Ele trabalha ao nosso lado e confirma com sinais inéditos a nossa vida e missão."

Depois de uma prece com um caráter tão universal (as intenções foram proclamadas em polonês, romeno, japonês, francês, cingalês e árabe), o ofertório começou com uma procissão com danças de tradição congolesa. Esta variação em relação à tradição estritamente romana foi para os jesuítas outra maneira de enfatizar o caráter universal do seu serviço, que deve estar sempre em movimento, em evolução, de acordo com as necessidades da época e das pessoas.

No final da celebração, após o canto latino-americano "Pelas Estradas da Vida", os coros uniram-se em uma nova interpretação do Te Deum. Durante o cântico, o Pe. Geral e os membros da assembleia - representantes dos irmãos, dos estudantes e dos leigos - utilizaram-se do incenso para representar as orações que emergem de toda a Companhia, espalhada por todos os lugares do mundo para "amar e servir".

Finalmente, entoou-se este canto tão característico da espiritualidade da Companhia: "Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo. Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo. Disponde deles, Senhor, segundo a Vossa vontade. Dai-me somente o vosso amor, a vossa graça, isto me basta".

Eis a homilia completa:

Ao final de uma forte experiência de discernimento costuma aparecer em nós uma sensação de vertigem frente ao que virá a seguir. Sentimos a dificuldade de dar vida à escolha realizada, de nos converter ao modo de proceder que expressa a decisão que tomamos seguindo o sopro do Espírito Santo.

Os Exercícios Espirituais do Santo Inácio de Loyola apresentam a "contemplação para alcançar o amor" como transição para a vida cotidiana. Uma contemplação na qual ressoa fortemente a primeira carta do apóstolo João que acabamos de ouvir. Deus quer ser conhecido como Aquele que é Amor. Por isso está presente na humanidade enviando seu Filho, como gesto de amor que nos dá a vida, a única vida verdadeira a que aspiramos. Deus Pai põe em prática as duas observações que nos faz Santo Inácio de Loyola no início da contemplação: "o amor deve ser colocado mais nas obras do que nas palavras" e "o amor consiste na comunicação entre duas partes", na qual cada um dá tudo de si e o que possui. O Senhor entregou-se totalmente até a sua morte, na cruz, e está conosco todos os dias até o fim do mundo, pois ele nos deu o seu Espírito. Santo Inácio nos convida a pedir o reconhecimento de tanta bondade recebida como uma inspiração para que também nos entreguemos totalmente para amar e servir a Sua Majestade Divina em tudo.

Esta é a frase que guiou nossas sessões nos encontros da Congregação. O Cristo na Cruz esteve presente em nossas tarefas para levar o nosso discernimento além de nosso raciocínio, de nossos gostos ou desconfortos, para chegar à consolação proveniente da sintonia com a vontade do Pai. Jesus, na véspera de sua paixão, acercou-se ao Monte das Oliveiras e lutou em oração até suar “com gotas espessas de sangue” para aceitar as consequências da sua missão, bastante distantes do que ele gostava ou que pudesse estar de acordo. Nós também ficamos impactados pelos testemunhos de nossos irmãos em situações de guerra e assim, nos sentimos conduzidos pelo amor a dizer juntos: "Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e possuo; Vós me destes com amor; Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo; Disponde deles, Senhor, segundo a Vossa vontade. Dai-me somente o vosso amor, a vossa graça, isso me basta".

Também nesta Congregação Geral vivemos novamente esta experiência do amor de Deus que se faz presente de maneiras tão distintas em nossa vida pessoal e em nosso corpo de Companheiros de Jesus. Mais uma vez fomos surpreendidos pela abundância, a variedade e a profundidade de seus dons. Tudo o que temos experimentado tem sido graça, dom gratuito surpreendente.
O processo de discernimento da Companhia reunida na Congregação Geral coloca-nos frente ao desafio de nos converter em ministros da reconciliação em um mundo que não parou durante as nossas deliberações. As feridas das guerras continuam aprofundando-se, os fluxos de refugiados crescendo, o sofrimento dos migrantes cada vez mais nos golpeiam e o Mediterrâneo engoliu dezenas de pessoas nesses dois meses que passamos juntos. As desigualdades entre povos e no interior das nações são o sinal de um mundo que despreza a humanidade. A política, esta "arte" de negociar para colocar o bem comum acima dos interesses individuais, segue enfraquecendo-se diante dos nossos olhos. Os interesses particulares, de fato, mascarados pelos nacionalismos, elegem governantes e tomam decisões que impedem os processos de integração e a atuação como cidadãos do mundo. A política não consegue converter-se no modus operandi humano para tomar decisões razoáveis quando renuncia a invocar a imposição aos poderosos. O desejo profundo das mães e crianças de todos os cantos do mundo de poder viver uma vida em paz, com relações baseadas na justiça, parece distanciar-se em meio a conflitos e guerras por motivos opostos ao amor que pode nos fazer viver.

Nosso discernimento leva-nos a ver o mundo através dos olhos dos pobres e a colaborar com eles para fazer crescer a vida verdadeira. Nos convida a ir às periferias e tentar entender como afrontar globalmente a integralidade da crise que impede, para a maioria da humanidade, as condições mínimas de vida e coloca em risco a vida sobre o planeta Terra, para dar espaço para a Boa Nova. O nosso apostolado é, portanto, necessariamente intelectual. Os olhos misericordiosos que adquirimos ao nos identificarmos com o Cristo na cruz permite-nos afrontar a compreensão de tudo o que oprime os homens e mulheres do nosso mundo. Os sinais que acompanham o nosso anúncio do Evangelho são correspondentes a expulsar os demônios das falsas interpretações da realidade. Por isso aprendemos novas línguas, para compreender a vida de povos distintos e compartilhar a Boa Nova da Salvação para todos. Se abrirmos nossos corações à ação do Espírito Santo e nossas mentes para a verdade do amor de Deus, não beberemos o veneno das ideologias que justificam a opressão, a violência entre seres humanos e à exploração irracional das reservas naturais. Nossa fé no Cristo morto e ressuscitado nos permitirá contribuir, com muitos outros homens e mulheres de boa vontade, a impor as mãos sobre este mundo doente e ajudar na sua cura.

Sigamos, então, pregando o Evangelho em toda parte, consolados pela experiência do amor de Deus que reuniu-nos como companheiros de Jesus. Como para os primeiros Padres, o Senhor tem sido benéfico para nós, em Roma, enviando-nos para todos os lugares do mundo e para todas as culturas humanas. Sigamos confiantes porque Ele trabalha ao nosso lado e confirma com sinais inéditos a nossa vida e missão.

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