"A Igreja precisa crescer no discernimento": o encontro do papa com alguns jesuítas poloneses

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29 Agosto 2016

Durante a sua viagem apostólica à Polônia por ocasião da XXXI Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no dia 30 de julho de 2016 – primeiras vésperas de Santo Inácio de Loyola –, às 17h, o Papa Francisco se encontrou com um grupo de 28 jesuítas poloneses pertencentes às duas províncias da Companhia de Jesus do país e dois colaboradores leigos, acompanhados pelos dois padres provinciais, Pe. Tomasz Ortmann e Pe. Jakub Kolacz.

O relato é do jesuíta italiano Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, n. 3.989, 10-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Também estavam presentes outros três jesuítas: Pe. Andrzej Majewski, diretor dos programas da Rádio Vaticano; Pe. Federico Lombardi, na época, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé; e o Pe. Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica.

O encontro ocorreu no Arcebispado de Cracóvia, em um clima de grande simplicidade, espontaneidade, cordialidade, embora não tenha sido desprovido de conteúdos significativos para a vida da Ordem, mas também para a vida da Igreja mais em geral.

Francisco cumprimentou todos os presentes, um por um, e se deteve em particular com aqueles que ele tinha conhecido no passado. Depois, sentou-se e começou o diálogo, ouvindo as perguntas feitas e respondendo em italiano. O Pe. Kolacz traduziu as suas palavras em polonês, embora a maioria dos presentes compreendia bem o italiano.

Depois, o pontífice recebeu alguns presentes. Antes de concluir o encontro, que durou cerca de 40 minutos, o papa quis acrescentar uma recomendação facilmente compreensível em conexão com o seu Magistério recente.

Com a aprovação do Santo Padre, reportamos aqui o diálogo, na sua imediaticidade, assim como ocorreu, mantendo também as recordações pessoais. Ele deve ser entendido como testemunho de que – como se pode ler – ele também recolhe algumas impressões da experiência do pontífice com os jovens da JMJ e fornece algumas linhas pastorais significativas.

Eis o diálogo.

A sua mensagem chega ao coração dos jovens. Como o senhor faz para falar com eles tão eficazmente? Poderia nos dar alguns conselhos para trabalhar com os jovens?

Quando eu falo, devo olhar as pessoas nos olhos. Não é possível olhar nos olhos de todos, mas eu olho nos olhos deste, deste, deste... e todos se sentem olhados. É algo espontâneo para mim. É assim que eu faço com os jovens. Mas, depois, os jovens, quando você fala com eles, fazem perguntas... Hoje, no almoço, eles me fizeram algumas perguntas... Me perguntaram até como eu me confesso! Eles não têm pudor. Fazem perguntas diretas. E, a um jovem, é preciso responder sempre com a verdade. Hoje, no almoço, em um certo ponto, chegamos a falar sobre a confissão. Uma jovem me perguntou: "Como o senhor se confessa?". E começou a falar de si mesma. Ela me disse: "No meu país, houve escândalos relacionados com os padres, e nós não temos a coragem de nos confessar com tal padre que viveu esses escândalos. Eu não consigo". Vejam: eles te dizem a verdade, às vezes te repreendem... Os jovens falam diretamente, querem a verdade ou, ao menos, um claro "não sei como te responder". Nunca se deve encontrar subterfúgios com os jovens. Assim também com a oração. Eles me perguntaram: "Como o senhor reza?". Se você responde com uma teoria, eles ficam decepcionados. Os jovens são generosos. Mas o trabalho com eles também precisa de paciência, muita paciência. Um deles me perguntou hoje: "O que eu devo dizer a um amigo ou amiga que não acredita em Deus para que possa começar a acreditar?". Eis: vê-se que, às vezes, os jovens precisam de "receitas". Então, deve-se estar pronto para corrigir essa atitude de pedido de receitas e de respostas prontas. Eu respondi: "Veja, a última coisa que você deve fazer é dizer alguma coisa. Comece a fazer alguma coisa. Depois, vai ser ele ou ela que irá lhe pedir explicações sobre como você vive e por quê". Eis: é preciso ser direto, direto com a verdade.

Qual é o papel da universidade dos jesuítas?

Uma universidade dirigida pelos jesuítas deve apontar para uma formação global e não somente intelectual, uma formação da pessoa inteira. De fato, se a universidade se torna simplesmente uma academia de noções ou uma "fábrica" de profissionais, ou, na sua estrutura, prevalece uma mentalidade centrada nos negócios, então ela está realmente fora do caminho. Nós temos em mãos os Exercícios. Eis o desafio: levar a universidade na estrada dos Exercícios. Isso significa arriscar na verdade e não nas "verdades fechadas" que ninguém discute. A verdade do encontro com as pessoas é aberta e requer que nos deixemos realmente interpelar pela realidade. E a universidade dos jesuítas também deve estar envolvida na vida real da Igreja e da nação: essa também é a realidade, de fato. Uma atenção particular deve ser dada sempre aos marginalizados, à defesa daqueles que mais precisam ser protegidos. E isso – que fique claro – não é ser comunista: é simplesmente estar realmente envolvido com a realidade. Nesse caso, em particular uma universidade dos jesuítas, deve estar plenamente envolvida com a realidade expressando o pensamento social da Igreja. O pensamento liberal, que desloca o homem do centro e que colocou o dinheiro no centro, não é o nosso. A doutrina da Igreja é clara, e é preciso seguir em frente nesse sentido.

Por que o senhor se tornou jesuíta?

Quando entrei no seminário, eu já tinha uma vocação religiosa. Mas, naquele tempo, o meu confessor era antijesuíta. Eu também gostava dos dominicanos e da sua vida intelectual. Depois, eu fiquei doente, tive que passar por uma cirurgia no pulmão. Em seguida, outro sacerdote me ajudou espiritualmente. Lembro que, depois, quando eu disse ao primeiro sacerdote que eu ia entrar nos jesuítas, ele realmente não gostou. Mas, aqui, moveu-se a ironia do Senhor. De fato, naquele tempo, recebiam-se as Ordens menores. A tonsura era feita no primeiro ano de teologia. O reitor me disse para ir para Buenos Aires, ao bispo auxiliar, Dom Oscar Villena, para procurá-lo para que viesse fazer a cerimônia da tonsura. Eu fui lá na Casa do Clero, mas me disseram que Dom Villena estava doente. No seu lugar, havia outro bispo, que era justamente aquele primeiro sacerdote que, depois, tinha se tornado bispo! E foi justamente dele que eu recebi a tonsura! E fizemos as pazes depois de tantos anos... Então, sim, a minha escolha pela Companhia, eu posso dizer, amadureceu sozinha...

Neste grupo, há alguns padres recém-ordenados. Tem conselhos para o futuro deles?

Você sabe: o futuro é de Deus. O máximo que nós podemos fazer são os futuríveis. E os futuríveis são todos do mau espírito! Um conselho: o sacerdócio é realmente um grande graça; que o seu sacerdócio, como jesuíta, seja banhado pela espiritualidade que você viveu até agora: a espiritualidade do Suscipe de Santo Inácio (1).

[Neste momento, o encontro parece terminar com a entrega ao pontífice de presentes por parte de alguns jesuítas que acompanharam os jovens ligados à espiritualidade inaciana, que vieram de todo o mundo para a JMJ. Francisco, porém, deseja acrescentar uma recomendação, e todos se sentam novamente.]

Quero acrescentar agora uma coisa. Peço-lhes para que trabalhem com os seminaristas. Sobretudo, deem-lhes aquilo que nós recebemos dos Exercícios: a sabedoria do discernimento. A Igreja hoje precisa crescer na capacidade de discernimento espiritual. Alguns planos de formação sacerdotal correm o perigo de educar à luz de ideias muito claras e distintas, e, depois, de agir com limites e critérios definidos rigidamente a priori e que prescindem das situações concretas: "Deve-se fazer isto, não se deve fazer aquilo..." E, depois, os seminaristas, quando se tornam sacerdotes, encontram-se em dificuldade para acompanhar a vida de tantos jovens e adultos. Porque muitos perguntam: "Isto se pode ou não se pode?". Tudo aí. E muita gente sai do confessionário decepcionada. Não porque o sacerdote é mau, mas porque o sacerdote não tem a capacidade de discernir as situações, de acompanhar no discernimento autêntico. Não teve a formação necessária.

Hoje, a Igreja precisa crescer no discernimento, na capacidade de discernir. E, acima de tudo, os sacerdotes realmente precisam disso para o seu ministério. Por isso, é preciso ensinar os seminaristas e os sacerdotes em formação: eles habitualmente receberão as confidências das consciências dos fiéis. A direção espiritual não é um carisma apenas sacerdotal, mas também laical, é verdade. Mas, repito, é preciso ensinar isso sobretudo aos sacerdotes, ajudá-los à luz dos Exercícios na dinâmica do discernimento pastoral, que respeita o direito, mas sabe ir além. Essa é uma tarefa importante para a Companhia.

Tocou-me muito um pensamento do padre Hugo Rahner (2). Ele pensava claramente e escrevia claramente! Hugo dizia que o jesuíta deveria ser um homem do faro do sobrenatural, isto é, deveria ser dotado de um senso do divino e do diabólico relativo aos acontecimentos da vida humana e da história. O jesuíta, portanto, deve ser capaz de discernir tanto no campo de Deus quanto no campo do diabo. Por isso, nos Exercícios, Santo Inácio pede para ser introduzido tanto às intenções do Senhor da vida, quanto às do inimigo da natureza humana e aos seus enganos.

É audaz, é realmente audaz aquilo que ele escreveu, mas é justamente isso o discernimento! É preciso formar os futuros sacerdotes não a ideias gerais e abstratas, que são claras e distintas, mas a esse fino discernimento dos espíritos, para que possam realmente ajudar as pessoas na sua vida concreta. É preciso realmente entender isto: na vida, não é tudo preto no branco ou branco no preto. Não! Na vida, prevalecem os tons de cinza. Então, é preciso ensinar a discernir nesse cinza.

[O encontro termina aqui, especialmente pela necessidade de continuar o programa do dia apresentado ao Santo Padre pelos seus colaboradores. Antes de ir embora, porém, Francisco quis novamente cumprimentar um por um os jesuítas presentes, concluindo com uma bênção final.]

Notas:

1. O Suscipe é uma oração que Santo Inácio inseriu nos seus Exercícios Espirituais dentro da chamada Contemplatio ad amorem (n. 234).: "Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo, vós me destes. Disponde de tudo inteiramente, segundo Vossa vontade. Dai-me o Vosso amor e Vossa graça, que isso me basta". Recordamos que Bento XVI também tinha recomendado o Suscipe inaciano ao responder aos seminaristas, durante uma visita ao Seminário Romano Maior, no dia 17 de fevereiro de 2007.

2. Aqui, o pontífice se refere a um texto de Hugo Rahner, irmão de Karl Rahner,  nascido depois de uma sessão de estudos sobre a espiritualidade inaciana. A edição italiana mais recente é a seguinte: Come sono nati gli Esercizi. Il cammino spirituale di sant’Ignazio di Loyola, Roma, AdP, 2004. Francisco, aqui, está se referindo às reflexões que Hugo Rahner escreve no oitavo capítulo do livro. Notamos que o terceiro capítulo do mesmo estudo foi citado pelo Bem-aventurado Paulo VI no dia 3 de dezembro de 1974, falando na XXXII Congregação Geral da Companhia de Jesus.

Leia mais:

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