Jesuítas lançam-se ao mar para a Congregação Geral

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27 Setembro 2016

O logotipo oficial da 36ª Congregação Geral da Companhia de Jesus retrata uma barca, representando os jesuítas, lançada ao mar. “Remando mar adentro” é o lema que o acompanha. Não há nenhuma indicação sobre se o mar está calmo ou turbulento, mas há a ideia de que um capitão se faz necessário.

A reportagem é de Peter Feuerherd, publicada por National Catholic Reporter, 26-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Pe. Timothy Kesicki estará entre os 215 jesuítas em Roma para dar início à Congregação Geral no dia 2 de outubro, cuja principal tarefa é escolher um capitão para guiar os jesuítas – ou seja, eleger um novo Superior Geral. Ainda que a estrutura da assembleia não seja sigilosa, Kesicki, assim como outros participantes, não sabe ao certo quais serão os resultados. E é assim que deve ser, segundo o protocolo, que considera todo o processo como sendo inspirado pelo Espírito Santo.

O que Kesicki, presidente da Conferência Jesuíta do Canadá e Estados Unidos, sabe é que a eleição de um novo Superior Geral, da parte da Congregação Geral, é um grande evento, não só para os jesuítas como também para a Igreja de maneira geral.

O número de jesuítas no mundo gira em torno de 16 mil membros, porém eles exercem uma influência que vai além destes números; é uma influência na teologia, na vida universitária católica e nas correntes da Doutrina Social da Igreja, em particular em sua ênfase na opção preferencial pelos pobres. Este último é um princípio que a 32ª Congregação Geral jesuíta endossou em 1974-1975. Ele direcionou os jesuítas no sentido da defesa dos oprimidos e empobrecidos ao redor do mundo e foi fundamental para o desenvolvimento da Teologia da Libertação latino-americana.


Pe. Adolfo Nicolás, superior geral dos jesuítas, recebe o Papa Francisco em sua chegada à igreja de Gesù em Roma em janeiro de 2014. (CNS/Paul Haring)

Os jesuítas contam com Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, quem já participou de duas Congregações Gerais, mas que não se fará presente neste ano. Espera-se que Francisco cumpra a função papal tradicional de abençoar os resultados do encontro e de acolher o nosso Superior Geral quando este for escolhido.

O que faz importante as Congregações Gerais é a relativa raridade com que acontecem. Os jesuítas existem há aproximadamente 476 anos e, nesse período, houve somente 30 Superiores Gerais. Um contraste pode ser traçado com o presidente Barack Obama, que é o 44º presidente do país desde que George Washington subiu ao poder a 228 anos atrás.


O Pe. Pedro Arrupe, SJ, em primeiro plano, sorri durante uma coletiva de imprensa realizada antes da 32ª Congregação Geral, iniciada em Roma no dia 03-12-1974. (CNS)

A primeira Congregação Geral jesuíta aconteceu em 1558 para escolher um sucessor de Inácio de Loyola, fundador da Companhia. Este evento atrasou por dois anos por causa do papa e do rei da Espanha. A Congregação Geral mais longa, em 1645-1646, levou 145 dias; a Congregação mais longa nos tempos modernos ocorreu em duas sessões separadas em 1965-1966, quando os delegados passaram meses, interrompidos por uma longa pausa, para discutir a resposta da ordem religiosa ao Concílio Vaticano II (1962-1965). Essa Congregação Geral também elegeu o Pe. Pedro Arrupe, considerado um gigante entre os líderes jesuítas.

A assembleia deste ano incluirá a eleição de um novo Superior Geral, quem vai assumir o cargo na sequência do Pe. Adolfo Nicolás, 80, atual Superior que está se aposentando.

“Ele é poderoso”, disse Kesicki sobre o papel de um Superior Geral na vida da comunidade jesuíta. O Superior Geral nomeia os principais superiores ao redor do mundo e, por levar a cabo os ditamos das Congregações Gerais, pode exercer uma influência que vai além da comunidade jesuíta, abarcando a Igreja em geral.

O eleitorado desta edição da Congregação Geral incluirá um punhado relativamente grande de norte-americanos. Em virtude de seu cargo, Kesicki estará participando, assim como os superiores da Conferência Jesuíta do Canadá e Estados Unidos. Esta vai ser a sua primeira Congregação Geral. Outros representantes são eleitos em encontros regionais. O tamanho de cada província importa: haverá cinco da grande província da região nordeste, enquanto províncias menores, como as de Oregon e Wisconsin, terão dois representantes cada.

No total, os representantes na Congregação Geral são regionalmente diversos: quase um terço vêm da Ásia e das Ilhas do Pacífico, 27% da Europa, 16% da América Latina e 15% da América do Norte. Figuras eclesiásticas históricas surgiram nestas assembleias.

Uma delas é Arrupe, quem guiou os jesuítas no rescaldo do Vaticano II e promoveu o ativismo social em nome dos pobres.

A Congregação Geral por vir é a culminância de um processo que remonta a dezembro de 2014, quando Nicolás manifestou a sua intenção de renunciar. Durante os últimos dois anos, os jesuítas do mundo foram consultados em encontros regionais sobre a direção futura da Companhia.

Quando o grupo se reunir em Roma, ele ouvirá um relatório sobre o estado dos jesuítas, aceitarão a renúncia de Nicolás e, em seguida, darão início ao processo escolha de um sucessor. Depois que um novo Superior Geral estiver eleito, o grupo vai se voltar às propostas sugeridas pelos jesuítas advindas das consultas feitas em nível mundial. Se aprovadas, tais propostas serão vinculativas para toda a Companhia de Jesus e para o Superior Geral, à semelhança do presidente de um país que jura fidelidade sobre a Constituição, explica Kesicki.

Em certo sentido, este processo é semelhante a um conclave papal. Os participantes obrigam-se a manter sigilo, e a busca explícita de votos é proibida. Durante quatro dias, o eleitorado jesuíta submeter-se-á ao chamado murmatio. Neste momento, pede-se lhes que usem o tempo para a reflexão. Kesicki observou que muitos dos participantes pouco sabem uns dos outros, em especial os representantes que vêm de outras regiões do mundo. As portas estarão fechadas.

“Grande parte [do encontro] servirá para nos conhecer”, segundo Kesicki. Os participantes somente podem sugerir e inquirir sobre os potenciais superiores gerais.
Ainda que ninguém tenha a permissão de defender um candidato emergente, “os membros têm a sensação de quem é o Superior Geral” perguntando aos companheiros jesuítas quem poderia ter as qualidades de liderança necessárias, declarou Kesicki sobre o processo.

“Um jeito de se desqualificar” é fazendo propaganda eleitoral explícita, disse. Usam-se cédulas de papel e uma maioria simples pode eleger um novo Superior.
Congregações Gerais anteriores produziram decisões históricas para a Companhia de Jesus. Por exemplo: a eleição de Arrupe colocou os jesuítas em harmonia com os ensinamentos do Vaticano II a respeito da vida religiosa e ajudou a acender o ativismo social que os jesuítas levaram para a América Latina na segunda metade do século XX.

Algumas Congregações Gerais são convocadas para abordar questões amplas, além da eleição de um novo Superior Geral. Em 1983, a Congregação Geral abordou o então novo Código de Direito Canônico. A última Congregação Geral, acontecida em 2008, resultou na eleição de Nicolás.

Kesicki, de 53 anos, disse que a assembleia deste ano estará voltada aos jovens jesuítas, um sinal encorajador para o futuro. A sua idade está na média dos participantes como um todo. O que eles irão buscar em um novo Superior Geral?

Segundo Kesicki, pode-se esperar que o novo Superior tenha grandes habilidades linguísticas, o que é necessário em uma organização internacional. Embora todos os superiores gerais até agora tenham vindo da Europa, os últimos três possuíam uma experiência substancial fora desse continente: Arrupe e Nicolás no Japão, e o Pe. Hans Kolvenbach, no Oriente Médio. Talvez, assim como aconteceu no mais recente conclave papal, um líder possa emergir de fora da Europa, em particular das regiões com altos índices de crescimento de membros na ordem religiosa, como o sul global, a Ásia, África e América Latina.

Independentemente de onde vier, o novo capitão jesuíta estará dirigindo um navio num momento propício na vida jesuíta. Ele estará trabalhando como um companheiro jesuíta na qualidade de papa, em si um evento inédito. O papado de Francisco tem sido marcado até agora por uma agenda ambiciosa de reformas no comando da Igreja, ao mesmo tempo em que vem abordando um mundo assolado pelo terrorismo, por mudanças populacionais massivas com refugiados fugindo da guerra, pela desigualdade de renda e pelo declínio drástico da participação religiosa na América do Norte e na Europa. Poucos esperam que os mares sejam plácidos para quem quer que venha a remar nas profundezas dos mares na qualidade de o novo Superior Geral dos jesuítas.

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